O Brasil deve manter em 2026 o ritmo de exportações de carne bovina para as Filipinas. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que os embarques para o país asiático fiquem entre 80 mil e 96 mil toneladas neste ano.
A projeção foi apresentada durante a Wofex Manila, uma das principais feiras de alimentos e bebidas das Filipinas. De acordo com a entidade, o crescimento da economia filipina, o aumento do poder de compra e a maior demanda entre consumidores mais jovens devem sustentar o mercado para a carne brasileira.
Os números mais recentes indicam que as exportações vêm crescendo. No primeiro semestre de 2026, o Brasil embarcou 35,9 mil toneladas de carne bovina para as Filipinas, alta de 34,6% em relação ao mesmo período de 2025. A receita também aumentou: foram US$ 162,4 milhões, crescimento de 38,9%.
A presença brasileira no mercado filipino aumentou significativamente nas últimas décadas. Segundo a Abiec, as exportações passaram de apenas 1,4 mil toneladas em 1997 para 96,2 mil toneladas em 2025. Com o desempenho deste ano, as Filipinas continuam entre os dez principais destinos da carne bovina brasileira.
Filipinas ganham importância para a proteína brasileira
Além da carne bovina, o Brasil também busca ampliar as vendas de outras proteínas animais para o país asiático. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) avalia que existe espaço para aumentar a distribuição para cidades além da região metropolitana de Manila.
As exportações brasileiras de carne suína cresceram cerca de 30% e as de frango, 15%, em 2026, segundo a entidade.

Dados do Bureau of Animal Industry, órgão do governo filipino, mostram que as importações de carne das Filipinas cresceram 12,1% no primeiro semestre, chegando a 872,27 milhões de quilos. O Brasil respondeu por 52,2% desse volume.
O país também ampliou recentemente o acesso ao mercado filipino. Em abril, foram concluídas as negociações para a abertura das exportações brasileiras de carne bovina resfriada, com e sem osso. Para o Ministério da Agricultura, a medida amplia as oportunidades para a cadeia brasileira de proteína animal.
Com cerca de 115,8 milhões de habitantes, as Filipinas importaram mais de US$ 1,8 bilhão em produtos agropecuários brasileiros em 2025, segundo o Ministério da Agricultura.
União Europeia é preocupação para o Brasil
O avanço das vendas para as Filipinas ocorre em um momento de preocupação com o mercado europeu. Para o Coordenador pecuária Cepea Thiago Bernardino, uma eventual redução das exportações para a União Europeia não pode ser analisada apenas pelo volume de carne que deixaria de ser vendido.
Segundo ele, o principal impacto está no valor agregado dos produtos comercializados para os europeus. A União Europeia compra principalmente cortes de maior valor, enquanto outros mercados tendem a adquirir produtos mais baratos.
“A grande questão das exportações para a União Europeia é muito mais do que volume, é o valor agregado com que a União Europeia paga pela nossa carne.”
Bernardino explica que os europeus compram principalmente cortes do traseiro, enquanto outros países, devido ao menor poder de compra, concentram as importações em cortes do dianteiro.
“Então quando falamos da União Europeia, a grande preocupação reside no fato de que a gente tinha os melhores países pagando pela nossa carne e isso vai deixar de existir, pelo menos nesse curto prazo.”
No ano passado, a União Europeia comprou cerca de 130 mil toneladas de carne brasileira, segundo o especialista. Para ele, parte desse volume pode ser direcionada a outros mercados, como Filipinas, Chile, Egito e Estados Unidos.
O problema é que a substituição pode não gerar a mesma receita.
“Comprar o volume que vendemos à União Europeia, quando pensamos só em volume assim, ele poderia ser realocado para outros países (…). A grande questão daí reside no fato do valor pago por isso.”
Baixa oferta mundial favorece carne brasileira
Apesar do risco de perda de mercados mais rentáveis, o cenário internacional ainda favorece o Brasil. Bernardino destaca que a oferta mundial de carne bovina está em níveis baixos, o que aumenta a procura pelo produto brasileiro.
“Então, em termos de volume, pela baixa oferta mundial, é um dos níveis mais baixos de ofertas de carne da história, principalmente nos últimos 20 anos, então isso favorece o resto do mundo a procurar carne brasileira.”

Ele avalia que a competitividade brasileira, baseada nos custos de produção e no preço da carne, também contribui para ampliar a procura internacional.
Entre os mercados que já apresentam crescimento nas compras estão Chile, Argentina, Uruguai e países do Sudeste Asiático. Para o médio e longo prazo, Bernardino aponta Japão e Coreia do Sul como mercados estratégicos que ainda não estão abertos de forma ampla para a carne brasileira.
Ele destaca, porém, que esses países possuem exigências sanitárias e de qualidade mais rigorosas.
Novos mercados podem compensar perda europeia?
Na avaliação do especialista, abrir novos mercados pode ajudar o Brasil a compensar uma eventual redução das vendas para a União Europeia. Mas o resultado dependerá não apenas da quantidade exportada, mas também do preço pago pelos cortes.
“A abertura de novos mercados é importante e pode ser suficiente para cobrir a União Europeia, agora, como eu disse, é entender quais mercados vão abrir e se eles vão pagar pelos cortes que a União Europeia paga.”
Para Bernardino, o Brasil precisa avançar em três frentes: sanidade, acordos comerciais e valorização da imagem da carne brasileira no exterior.
O país, segundo ele, já possui vantagem em custos e capacidade de produção, mas precisa continuar investindo na qualidade e na padronização do produto.
“A gente tem, em primeiro lugar, que trabalhar a sanidade, como vem sendo trabalhado, trabalhar acordos comerciais e, posteriormente, a imagem do nosso produto.”
O cenário, portanto, mostra que as Filipinas podem ganhar ainda mais importância para a carne brasileira, mas a expansão dos embarques para novos destinos não necessariamente significa que o país conseguirá substituir, em faturamento, mercados tradicionais como a União Europeia.