Conheça a carreira e o legado de Laura Cardoso

Laura Cardoso faleceu aos 98 anos, deixando um legado de mais de sete décadas no teatro, cinema e televisão brasileiros.
Redação NC News
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Laura Cardoso, uma das maiores atrizes do país, morre na madrugada desta terça-feira (18), em São Paulo. O corpo é velado na Funeral Home, na Bela Vista, das 8h às 14h, em cerimônia aberta ao público.

A despedida acontece poucas semanas antes de ela completar 99 anos, em setembro. A morte encerra uma trajetória de mais de sete décadas que molda a TV, o teatro e o rádio no Brasil e deixa órfãos colegas de profissão, autores, diretores e espectadores que cresceram com seus personagens.

Velório em São Paulo e comoção nas redes

Familiares, amigos e fãs se reúnem desde o início da manhã na casa funerária da região central paulistana. Coroas de flores, fotos de bastidores e cartazes de novelas ajudam a compor o clima de homenagem a uma artista que permanece em atividade até o fim da vida, ainda que longe dos estúdios desde 2019.

A confirmação da morte vem em nota publicada nas redes sociais oficiais da atriz. A mensagem resume o sentimento de quem convive com Laura, na intimidade e pelo vídeo:

“Nossa grande estrela se despediu de nós. Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso”, afirma a equipe que administra seus perfis.

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A causa da morte não é divulgada. Nos últimos anos, Laura recebe cuidados constantes da família, em razão da idade avançada. A presença do bisneto Fernando Faria, que a acompanha de perto, se torna frequente em registros recentes.

Da Rádio Cosmos ao auge da teledramaturgia

Filha de imigrantes portugueses, Laura Cardoso começa a trabalhar como atriz aos 15 anos, em radionovelas da Rádio Cosmos. A voz firme e a dicção precisa chamam atenção em uma época em que a imaginação do público depende de cada entonação ao microfone.

Ela estreia na televisão em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi, quando o novo meio ainda engatinha no Brasil. Passa pelas primeiras experiências de dramaturgia ao vivo, em estúdios improvisados, onde erro não tem segunda chance. O ambiente caótico molda uma geração de atores forjada na pressão.

Laurinda de Jesus Cardoso, Laura Cardoso, mudou nome ainda na Rádio após dica de colega

Em 1981, já reconhecida pelo trabalho no teatro e na TV, ela ingressa na TV Globo, em “Brilhante”, novela de Gilberto Braga. A partir daí, se torna presença constante em produções de grande audiência, muitas delas hoje tratadas como clássicos.

Personagens que atravessam gerações

Ao longo da carreira, Laura participa de mais de 60 novelas. Em 1993, entra para o imaginário popular como Isaura, mãe das gêmeas Raquel e Ruth, vividas por Gloria Pires, no remake de “Mulheres de Areia”. O desempenho contido e intenso ajuda a sustentar o drama central da trama.

No ano seguinte, 1994, ela interpreta Dona Guiomar em “A Viagem”, outra novela de forte apelo popular. Em 1995, vive a cigana Soraya em “Explode Coração”, produção conhecida por abordar temas como o preconceito e o impacto das novas tecnologias nas relações afetivas.

No início dos anos 2000, faz uma passagem pela Record, na novela “Vidas Cruzadas”, e volta à Globo em 2001 para “A Padroeira”. O trânsito entre emissoras revela uma profissional valorizada pelo mercado, chamada para papéis que exigem peso dramático e credibilidade.

Recusa à aposentadoria e devoção à profissão

O último trabalho na TV ocorre em 2019, na novela “A Dona do Pedaço”, em que interpreta Matilde, avó da personagem de Bruna Hamú. Mesmo afastada das gravações depois disso, ela rejeita qualquer ideia de encerramento de ciclo.

Em 2023, ao receber o Troféu Oscarito pelo conjunto da obra em um festival de cinema em Gramado, Laura reage com franqueza à possibilidade de parar.

“A aposentadoria é uma coisa horrível. Se você ficar parada, você morre. Quero continuar na batalha, quero ficar de pé, lutando”, afirma a atriz, de pé no palco, sob aplausos prolongados.

Na mesma homenagem, ela conta como o amor pelos livros abre a porta para o palco: “Sempre gostei muito de ler, lia muito quando era criança. E sempre sentia a vontade de representar, de fazer alguma coisa para alguém ver. Gosto muito e respeito a minha profissão”, diz, em tom de confissão.

Em setembro de 2025, já com 98 anos, comemora o aniversário nas redes sociais, ao lado de um vaso de flores, agradecendo pela “saúde e felicidade”. A postagem rende uma enxurrada de mensagens de colegas e fãs, reforçando o elo afetivo construído ao longo de décadas.

Legado para as artes cênicas brasileiras

Entre teatro, rádio e televisão, Laura atravessa mais de 70 anos de transformações técnicas, estéticas e de público. Entra na TV quando tudo é ao vivo e se despede em uma era de plataformas digitais e redes sociais, sem perder o status de referência para colegas mais jovens.

Diretores e autores recorrem ao seu nome para garantir densidade a personagens complexos. Atrizes e atores veteranos veem em sua trajetória um raro exemplo de longevidade artística com reconhecimento. Para os mais jovens, ela simboliza a possibilidade de uma carreira longa, sustentada por disciplina e estudo.

O impacto de sua morte não se mede apenas pela ausência em novos elencos. Emissoras já preparam retrospectivas, canais de streaming revisitam novelas com suas personagens, e produtores culturais discutem homenagens em festivais e mostras. A memória de Laura tende a ganhar espaço em projetos de preservação da teledramaturgia brasileira.

A perda não traz efeito econômico imediato para o setor, já que ela está fora das gravações desde 2019, mas mexe com o imaginário coletivo. A despedida de uma figura tão emblemática expõe, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade da profissão artística em um país que ainda luta para valorizar seus veteranos.

Nas próximas semanas, familiares e parceiros de cena devem organizar novas homenagens, possivelmente perto da data em que ela completaria 99 anos. A discussão sobre memória cultural e respeito a artistas idosos, que ela própria encarna, tende a ganhar novo fôlego sob a sombra de sua ausência.

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