Ex-comandante da Aeronáutica revela reação secreta contra golpe

Livro revela detalhes inéditos da resistência interna contra pressões golpistas nas Forças Armadas brasileiras.
Redação NC News
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O ex-comandante da Força Aérea Brasileira, Carlos de Almeida Baptista Junior, lança o livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista” e leva para o papel os bastidores da reação militar à tentativa de golpe articulada por Jair Bolsonaro após a derrota para Lula.

Em plena temporada eleitoral, o oficial da reserva descreve como se tornou uma das vozes mais firmes dentro das Forças Armadas contra a ruptura institucional e tenta reposicionar a Aeronáutica na cena pública, hoje marcada por desconfiança e polarização.

Por que o livro chega agora

Baptista Junior explica que aguardou o fim de sua permanência na ativa e o desfecho das ações no Supremo Tribunal Federal sobre a tentativa de golpe para tornar pública sua versão dos fatos. Só então, afirma, se sentiu livre para organizar relatos, documentos e memórias de mais de 40 anos de carreira.

“Eu não podia fazer isso enquanto estava na ativa. Depois, eu não ia lançar o livro durante o período em que as ações do Supremo Tribunal Federal sobre a tentativa de golpe estavam em andamento. Era inimaginável eu testemunhar e escrever um livro logo depois”, diz o ex-comandante.

Brigadeiro Junior enfrentou a trama golpista nos bastidores

O lançamento acontece no meio da disputa eleitoral, o que provoca suspeitas de uso político. Ele rebate. Sustenta que não pretende favorecer candidaturas, mas oferecer material para reflexão do eleitorado sobre responsabilidade coletiva, voto e limites da ação militar na política.

Pressões golpistas e divisão nas Forças Armadas

O livro reconstrói o clima de tensão que se instala após a confirmação da vitória de Lula e a recusa de Bolsonaro em reconhecer o resultado. Baptista Junior relata pressões explícitas e veladas para que as Forças Armadas bancassem uma aventura golpista, algo que ele diz ter rejeitado desde o primeiro momento.

Segundo o ex-comandante, o então presidente sabia que não teria unanimidade nas tropas. Ainda assim, alimentou a expectativa de apoio ao questionamento do sistema eleitoral, amparado em relatórios de grupos como o chamado Instituto Voto Legal. Para o oficial, o episódio escancara a divisão interna entre setores comprometidos com a Constituição e grupos dispostos a testar a ruptura.

Ele atribui a persistência do negacionismo sobre a tentativa de golpe ao ambiente de populismo e de culto a líderes. Na avaliação do militar, tanto a imagem de Bolsonaro como mito quanto a de Lula como “pai dos pobres” decorrem de construções políticas que encontram terreno fértil em parte do eleitorado. “A cada dia é menos provável, mas não acho impossível”, afirma sobre novas investidas autoritárias.

Da ONU ao comando da FAB em meio à crise

Antes de assumir a Aeronáutica, Baptista Junior estava indicado para uma missão de dois anos em Nova Iorque, em um posto ligado à ONU. Tinha se preparado para a mudança. Recebe o convite para comandar a Força Aérea logo após a demissão do então ministro da Defesa e de outros comandantes, em um dos momentos mais delicados da relação entre Planalto e quartéis.

“Eu estava indicado para ir para Nova Iorque servir dois anos na ONU. Já tinha vendido algumas coisas de casa. E eu trocaria isso para comandar a Força Aérea por um mês”, relata.

Diz que aceita o desafio por ver na Força Aérea sua “casa”, marcada também pela memória do pai, que comandou a instituição.

O Brigadeiro disse “Não” à Bolsonaro e o ameaçou de prisão

O oficial afirma que não se arrepende de ter abandonado a missão internacional. Conta que queria reforçar o foco operacional da FAB, dedicada à defesa da pátria e a missões como transporte de suprimentos e resgate, e que se sentia desconfortável com o excesso de generais e brigadeiros em postos civis de primeiro escalão, marca do governo Bolsonaro.

Antecipação da troca de comando e recado à sociedade

Um dos pontos mais sensíveis do livro é a proposta de antecipar a troca de comando das Forças Armadas, apresentada por Baptista Junior ao fim do governo Bolsonaro. Entre os dias 14 e 22 de novembro de 2022, no auge da tensão pós-eleitoral, ele defende que a cerimônia ocorra antes da posse de Lula.

O objetivo declarado é enviar um recado claro: os comandantes deixarão seus cargos para os indicados pelo presidente eleito, sem resistência. Ele considera que isso mostraria à sociedade que não haveria ruptura e que a transição seguiria a normalidade institucional.

A iniciativa, porém, desagrada parte da classe política e alimenta versões de que os chefes militares evitariam prestar continência a Lula. Baptista Junior diz que o episódio é fruto de leitura equivocada.

“A continência é um ato de saudação à autoridade, não à pessoa. Todos os militares devem continência ao presidente da República, seja quem for”, enfatiza.

Brigadeiro sofreu ataques por não ceder ao plano do golpe

O ex-comandante relata um almoço com o ministro Múcio, que expressa desconforto com a antecipação dos comandos. Após explicar suas razões, Baptista Junior aceita o pedido do ministro para manter a troca na data posterior à posse. Afirma que o recuo busca preservar a normalidade e evitar que a Aeronáutica vire combustível em novo foco de crise.

Custo pessoal, rompimentos e disputa de narrativas

As páginas do livro também expõem o custo pessoal da postura legalista. Baptista Junior narra noites de insônia, conflitos familiares e a perda de amigos de décadas, que passaram a vê-lo como traidor por se recusar a aderir ao golpe. Conta ter sido acusado, em conversas de bastidor, de apoiar corrupção por não alinhar a FAB a um projeto de ruptura.

Ele descreve como ponto de ruptura definitiva um episódio em que um antigo amigo, o general Walter Braga Netto, teria mandado um major atacar publicamente os comandantes da Aeronáutica, do Exército e as famílias deles. O ex-chefe da FAB diz acreditar que Braga Netto hoje se arrepende, mas admite que ainda não consegue imaginar reconciliação.

Baptista Junior foi uma das principais testemunhas no processo que leva à condenação de Bolsonaro e de militares do primeiro escalão por tentativa de golpe. Sustenta que apenas cumpriu a lei e rejeita a alcunha de herói. Para ele, o ganho de prestígio deve recair sobre a instituição, não sobre indivíduos.

Impacto nas Forças Armadas e na política

A publicação de “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista” reacende o debate sobre o papel das Forças Armadas em um país ainda imerso na polarização. Ao reforçar a existência de uma corrente legalista forte no interior dos quartéis, o livro ajuda a recuperar parte da confiança perdida, mas também deixa mais nítida a fratura entre militares que se aproximaram do bolsonarismo e aqueles que resistiram.

O relato fortalece a narrativa de que a hierarquia e a disciplina funcionam como barreiras a aventuras autoritárias, desde que haja lideranças dispostas a suportar pressões políticas e pessoais. Ao mesmo tempo, expõe o quanto a reputação de instituições como a Aeronáutica, o Exército e a Marinha se torna vulnerável quando generais e brigadeiros ocupam em massa cargos civis e se associam a projetos personalistas.

Na esfera judicial, a obra tende a consolidar o entendimento sobre a responsabilidade de Bolsonaro e de militares envolvidos na trama golpista. Para a sociedade civil, funciona como alerta: a democracia continua frágil, e a possibilidade de novas tentativas de rompimento, embora hoje menor, permanece no horizonte, exigindo vigilância de partidos, tribunais, imprensa e cidadãos.

O governo atual, com Múcio à frente da Defesa, acompanha de perto os efeitos do livro na tropa. A cúpula militar tenta mostrar que aprendeu com a crise recente, ao reforçar a separação entre funções de Estado e disputas partidárias. A maneira como oficiais da ativa vão comentar — ou silenciar — sobre a obra será termômetro importante desse processo.

O fechamento de Baptista Junior é menos memorialista e mais programático: ele defende investir em educação cívica nas escolas militares e fora delas, rever a ocupação de cargos civis por oficiais da ativa e incentivar a transparência na governança da defesa. A mensagem implícita é que o próximo teste da democracia pode não dar tanto tempo de reação.

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