Por que grandes redes do varejo estão fechando lojas e pedindo recuperação judicial

Juros altos, crédito caro, dívidas acumuladas e mudança no comportamento do consumidor pressionam empresas tradicionais do setor.
Redação NC News
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Grandes redes que durante décadas fizeram parte da rotina dos brasileiros estão reduzindo o número de lojas, cortando custos e recorrendo à Justiça para tentar reorganizar as contas.

O movimento ganhou força em 2026, com empresas como Casas Bahia, Marabraz, Casa & Vídeo e Tok&Stok recorrendo a processos de reestruturação. Só no varejo, o número de empresas em recuperação judicial cresceu 20,4% entre junho de 2025 e junho de 2026.

Casas Bahia, Marabraz, Casa & Vídeo e Tok&Stok recorreram a processos de reestruturação em 2026

O principal problema: o custo do dinheiro

Um dos fatores que mais pesa sobre o varejo é a alta dos juros. Com a Selic em 14% ao ano, fica mais caro para as empresas pegar dinheiro emprestado e também refinanciar dívidas antigas.

E o varejo depende bastante de crédito: para comprar mercadorias, manter estoques, financiar investimentos e sustentar o funcionamento das lojas.

Quando o crédito fica caro e o consumidor também reduz as compras, a empresa acaba pressionada dos dois lados.

Entre 2023 e 2026, grandes redes brasileiras já reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas, segundo levantamento citado em reportagens recentes.

O consumidor também mudou

Outro problema é a transformação no comportamento de quem compra. O consumidor passou a comparar preços com mais facilidade, pesquisar pela internet e utilizar marketplaces para encontrar produtos mais baratos.

Isso aumentou a concorrência para as redes tradicionais, principalmente aquelas que carregam uma estrutura grande de lojas físicas.

A empresa precisa pagar aluguel, funcionários, manutenção, energia e outros custos mesmo quando aquela unidade não vende o suficiente.

Enquanto isso, operações digitais podem trabalhar com estruturas diferentes e, em alguns casos, custos menores.

Ter muitas lojas deixou de ser vantagem

Durante anos, crescer significava abrir novas unidades e estar presente em cada vez mais cidades. O problema é que uma rede muito grande também significa custos fixos elevados.

Quando as vendas diminuem, esses gastos continuam. Por isso, fechar lojas pode fazer parte de uma estratégia para tentar sobreviver: a empresa reduz despesas, concentra operações em unidades mais rentáveis e tenta preservar o caixa.

Foi o que aconteceu com a Casas Bahia, que anunciou o fechamento de 298 lojas dentro do processo de reestruturação.

A companhia também vem reduzindo o quadro de funcionários e já havia fechado unidades antes do atual pedido de recuperação judicial.

O caso das Casas Bahia

A situação das Casas Bahia virou um dos principais símbolos da crise atual.

A companhia entrou com pedido de recuperação judicial para reorganizar uma dívida de R$ 17,3 bilhões.

A empresa vinha tentando reduzir custos e reorganizar as operações, mas encontrou novas dificuldades, como restrições de crédito e problemas para conseguir novas fontes de financiamento.

A recuperação judicial não significa que a empresa fechou as portas.

O objetivo do mecanismo é justamente permitir que a companhia continue funcionando enquanto negocia as dívidas com os credores e tenta recuperar a saúde financeira.

Mas o que é recuperação judicial?

A recuperação judicial funciona como uma espécie de proteção para empresas que estão endividadas, mas ainda têm condições de continuar funcionando.

A companhia apresenta um plano para reorganizar as dívidas e negocia com os credores. Durante o processo, a ideia é evitar que uma cobrança imediata ou uma série de ações individuais provoque o fechamento da empresa.

Por isso, pedir recuperação judicial não é o mesmo que decretar falência. Na prática, é uma tentativa de evitar que a empresa quebre.

Por que algumas empresas fecham lojas e outras não?

Cada empresa tem uma situação diferente. Algumas acumulam dívidas muito elevadas. Outras têm problemas de gestão, perda de competitividade ou dificuldade de adaptação ao comércio digital.

Também existem diferenças na estrutura de cada negócio.

Redes com muitos imóveis, lojas e estoques podem ter mais ativos para proteger, mas também carregam custos maiores.

Já pequenas e médias empresas muitas vezes nem conseguem recorrer à recuperação judicial porque o processo é caro e elas têm poucos ativos para oferecer como proteção.

O consumidor deve se preocupar?

Por enquanto, uma recuperação judicial não significa necessariamente que as lojas vão desaparecer.

O objetivo é preservar a atividade econômica enquanto a empresa reorganiza as finanças.

No caso das Casas Bahia, por exemplo, a Justiça determinou medidas para preservar a continuidade das operações enquanto analisa o processo, incluindo a manutenção do recebimento de mercadorias já em trânsito e a continuidade de serviços essenciais.

Mas o consumidor pode perceber mudanças: menos lojas físicas, redução de estoques, alterações no prazo de entrega e mudanças na estratégia comercial.

A crise é só do varejo?

Não. O aumento das recuperações judiciais também aparece em outros setores da economia.

Entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o número de recuperações judiciais no Brasil cresceu 65,8%.

Os juros altos e a restrição ao crédito aparecem entre os principais fatores desse movimento.

No varejo, porém, o impacto ganha visibilidade porque envolve marcas conhecidas e milhares de pontos de venda espalhados pelo país.

O que pode acontecer daqui para frente?

A tendência é que as grandes redes continuem buscando formas de reduzir custos e adaptar seus modelos de negócio.

Isso pode significar menos lojas, operações menores, mais vendas pela internet e maior foco em eficiência.

A questão é saber quais empresas conseguirão fazer essa transformação antes que as dívidas se tornem insustentáveis.

A recuperação judicial pode dar tempo para essa reorganização, mas não garante que a empresa sobreviva.

O futuro depende da capacidade de voltar a gerar caixa, renegociar as dívidas e encontrar um modelo de negócio que funcione em um mercado cada vez mais digital e competitivo.

ENTENDA O CONTEXTO

O varejo brasileiro atravessa uma combinação de problemas: juros elevados, crédito restrito, endividamento, consumo pressionado e concorrência cada vez maior do comércio eletrônico.

Grandes redes que cresceram durante anos com uma forte presença física agora precisam rever esse modelo.

O fechamento de lojas aparece como uma forma de reduzir despesas e concentrar os negócios em unidades mais rentáveis.

Já a recuperação judicial é utilizada quando a empresa precisa de proteção para renegociar dívidas e tentar manter as atividades.

O movimento não significa que todas essas marcas vão desaparecer. Mas mostra que o modelo tradicional do varejo está passando por uma transformação profunda.

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