Uma conversa que, até pouco tempo atrás, parecia improvável pode ter mudado o rumo da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com Donald Trump na sexta-feira (21), em uma ligação que durou cerca de 1 hora e 20 minutos e foi descrita pelo Palácio do Planalto como amistosa e cordial. O principal resultado foi a sinalização de que os dois países podem retomar as negociações sobre o tarifaço.
Mas existe um detalhe importante: dentro do governo brasileiro, a avaliação é de que uma negociação capaz de realmente mudar as tarifas pode avançar somente depois das eleições de outubro.
O QUE MUDOU DEPOIS DA CONVERSA?
A principal mudança foi a retomada do diálogo direto entre os dois governos.
Durante a ligação, Lula afirmou a Trump que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para as novas tarifas são “infundadas”. O governo americano havia citado uma série de questões, entre elas desmatamento, acordos comerciais, propriedade intelectual, Pix, etanol e importações relacionadas a trabalho forçado.
Trump, segundo o Planalto, concordou sobre a importância de preservar os vínculos comerciais entre os dois países e propôs que as equipes técnicas voltassem a se reunir.
E isso já começou a sair do discurso. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, deve participar de uma reunião com representantes do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, na próxima semana.
POR QUE A ELEIÇÃO ENTROU NA CONTA?
É justamente aqui que está o ponto mais delicado. Embora o diálogo tenha sido retomado, integrantes do governo brasileiro avaliam que Washington pode preferir esperar o resultado das eleições brasileiras de outubro antes de tomar decisões mais importantes sobre o tarifaço.
Essa leitura já vinha sendo discutida dentro do Planalto e ganhou novo peso com a aproximação entre Lula e Trump. Na prática, isso significa que a retomada das conversas pode acontecer agora, mas uma solução definitiva para as tarifas pode demorar.
O TARIFAÇO CONTINUA VALENDO
A conversa entre os presidentes não significa que as tarifas foram suspensas. Esse é um ponto importante para entender o momento atual.
As medidas comerciais americanas continuam afetando produtos brasileiros. O governo de Lula, inclusive, já iniciou um processo para avaliar medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos, embora isso não represente uma retaliação imediata.
Ao mesmo tempo, Brasília mantém a estratégia de tentar resolver a disputa pela negociação.
O ministro Márcio Elias Rosa afirmou recentemente que o Brasil pretende tratar o assunto como uma questão econômica e comercial, sem atrelar as negociações ao calendário eleitoral.
É aí que aparecem duas leituras diferentes dentro do cenário político: o governo diz que quer negociar agora, enquanto integrantes do Planalto avaliam que uma decisão mais significativa pode ficar para depois da eleição.
O QUE SERÁ NEGOCIADO?
A primeira etapa deve envolver justamente as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.
Na conversa com Trump, Lula questionou os argumentos utilizados para justificar as medidas e defendeu a retomada das negociações bilaterais.
Trump, por sua vez, sinalizou interesse em preservar a relação comercial e determinou, segundo o relato brasileiro, que as equipes voltem à mesa.
Ainda não existe, portanto, um acordo fechado. O que existe é uma abertura para negociar.
Essa diferença é fundamental.
BRASIL JÁ PREPAROU UMA RESPOSTA
Enquanto tenta negociar, o governo brasileiro também abriu o chamado processo de reciprocidade econômica.
Em termos simples, a medida permite avaliar possíveis respostas às ações comerciais adotadas pelos Estados Unidos.
Mas o processo não significa que o Brasil já decidiu aplicar novas tarifas.
Segundo o governo, antes disso serão realizadas análises e consultas diplomáticas para tentar reduzir ou eliminar os impactos das medidas americanas.
O QUE TRUMP E LULA TAMBÉM DISCUTIRAM?
O telefonema não ficou restrito ao comércio. Os presidentes também conversaram sobre combate ao crime organizado e conflitos internacionais.
Lula apresentou propostas de cooperação na área de segurança e falou sobre a atuação brasileira contra organizações criminosas.
Na área internacional, os dois também trataram da guerra na Ucrânia e de outros conflitos globais. Mesmo assim, o tarifaço foi um dos principais assuntos da conversa.
E AGORA?
O próximo passo será colocar as equipes técnicas novamente frente a frente.
O ministro Márcio Elias Rosa e representantes do USTR devem conversar na próxima semana para discutir os caminhos possíveis para o comércio entre os dois países.
A grande incógnita é saber até onde essa reaproximação pode chegar. Por enquanto, não há anúncio de retirada das tarifas, nem acordo definitivo.
O que mudou foi o tom. Depois de semanas de tensão, Lula e Trump voltaram a conversar diretamente e abriram uma porta que estava praticamente fechada.
Agora, o desafio será transformar essa abertura política em uma negociação capaz de produzir resultados concretos.
ENTENDA O CONTEXTO
A crise comercial entre Brasil e Estados Unidos se agravou depois que o governo Trump impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Brasília considera as medidas injustificadas e abriu, em agosto, um processo para avaliar possíveis ações de reciprocidade.
Na sexta-feira (21), Lula tomou a iniciativa de telefonar para Trump. A conversa durou cerca de 1h20 e terminou com uma sinalização de retomada das negociações.
Agora, representantes dos dois países devem voltar a conversar.
O ponto de interrogação está no calendário político: o Planalto avalia que um avanço mais significativo pode depender do resultado das eleições brasileiras de outubro. Por enquanto, portanto, o cenário é de negociação reaberta, mas tarifa mantida.