O robô humanoide chinês Tiangong Ultra correu 100 metros em 8,86 segundos durante os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, em Pequim, e superou o recorde mundial humano de Usain Bolt, de 9,58 segundos. O feito ocorreu na categoria de robôs de grande porte e evidencia o avanço da robótica humanoide voltada para desempenho físico.
Pequim transforma pista em vitrine da nova robótica
O resultado coloca a China no centro da corrida tecnológica pelo desenvolvimento de robôs humanoides capazes de executar tarefas físicas com velocidade e precisão. A performance do Tiangong Ultra vai além do espetáculo esportivo e funciona como demonstração do avanço da chamada inteligência artificial física.
O Tiangong Ultra é desenvolvido pelo Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Pequim, que utiliza o projeto como plataforma de pesquisa e testes. Nesta edição dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, mais de 2 mil robôs de 666 equipes disputam 51 provas, incluindo corrida, salto, futebol, dança e desafios industriais.
O robô já havia chamado atenção na abertura do evento, quando completou os 100 metros em 9,39 segundos. Agora, reduziu ainda mais o próprio tempo e registrou 8,86 segundos na semifinal. No ano passado, o mesmo modelo precisava de 21,50 segundos para percorrer a distância.

Velocidade de ponta também revela limites
A prova desta terça-feira expôs tanto o avanço quanto as limitações da tecnologia. Para desacelerar máquinas com mais de 1,70 metro de altura depois da linha de chegada, os organizadores instalaram um tapete grosso no fim da pista.
O Tiangong Ultra atravessou a linha de chegada, atingiu a proteção e caiu. Em seguida, um pequeno incêndio surgiu no torso do robô e foi controlado pela equipe de suporte.
Em outra semifinal, um concorrente chegou a se desmontar durante a corrida após não suportar o estresse mecânico. Os episódios mostram a complexidade de desenvolver um robô humanoide capaz de correr em alta velocidade sem comprometer sua estabilidade e seus componentes.
Para os engenheiros presentes em Pequim, acompanhar o desempenho das máquinas de perto muda a percepção sobre o avanço da tecnologia. Li Hui, engenheiro da equipe de tênis de mesa da Universidade de Fudan, resumiu a experiência ao destacar a diferença entre ler sobre o desempenho de um robô e vê-lo correndo diante dos próprios olhos.
Veja o vídeo:
Recordes em série e investimentos pesados
O tempo de 8,86 segundos não é um caso isolado. Segundo o Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Pequim, a família Tiangong já supera quatro marcas humanas em modalidades esportivas: além dos 100 metros, registra 38,15 segundos nos 400 metros, 2 minutos e 21,64 segundos nos 1.500 metros e 2,88 metros no salto em altura.
O desempenho é resultado de investimentos em motores, sensores, sistemas de controle e inteligência artificial. O projeto envolve empresas estatais, fundos de investimento e companhias de tecnologia, entre elas Baidu e a unidade de robótica da Xiaomi.
A aposta chinesa é levar essas tecnologias para além das competições. Robôs capazes de manter o equilíbrio em alta velocidade podem, com adaptações, ser utilizados em fábricas, centros de distribuição e outros ambientes que atualmente dependem de trabalhadores humanos.

Robôs mais rápidos podem mudar o mercado de trabalho
A demonstração em Pequim interessa diretamente a setores que dependem de automação, principalmente manufatura, logística e armazenagem. Robôs humanoides capazes de se movimentar em ambientes projetados para pessoas podem reduzir a necessidade de adaptações estruturais e ampliar a automação de tarefas repetitivas.
Para fabricantes de eletrônicos, empresas de tecnologia e plataformas de comércio eletrônico, máquinas capazes de caminhar, correr, carregar objetos e interagir com o ambiente representam uma aproximação entre a inteligência artificial e o mundo físico.
O impacto sobre o mercado de trabalho, porém, ainda é incerto. O recorde do Tiangong Ultra não significa que trabalhadores serão substituídos imediatamente. Mas, à medida que a tecnologia evolui e os custos de produção diminuem, aumenta a possibilidade de automação de atividades físicas, especialmente em linhas de produção, armazéns e outras funções repetitivas.
O avanço também amplia a discussão sobre qualificação profissional, segurança e regulamentação do uso de robôs em ambientes compartilhados com seres humanos.
China acelera disputa global pela robótica humanoide
Ao transformar uma competição de robôs em um grande evento tecnológico, a China envia um sinal aos Estados Unidos, à Europa e a outros países que disputam a liderança mundial em inteligência artificial e robótica.
Os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides reúnem milhares de máquinas em provas que simulam diferentes capacidades físicas e cognitivas. A tendência é que competições desse tipo estimulem novos investimentos em robótica humanoide, em movimento semelhante ao observado nos últimos anos com a inteligência artificial generativa.

A diferença é que, neste caso, a tecnologia deixa o ambiente exclusivamente digital e passa a interferir diretamente em fábricas, armazéns, serviços e outros espaços ocupados por seres humanos.
Para o Tiangong Ultra, o próximo desafio é combinar velocidade, resistência e segurança. As quedas e o incêndio registrados durante as provas mostram que ainda existem limitações importantes. O recorde de 8,86 segundos, contudo, evidencia o quanto essa fronteira tecnológica já avançou.