Julgamento de Lindsay Clancy entra na reta final após pedido de anulação, júri pode começar a decidir caso nesta semana

Defesa acusa promotoria de conduta inadequada após testemunha mencionar religião da acusada, mas juiz rejeita mistrial e manda jurados ignorarem comentário
Redação NC News
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O julgamento de Lindsay Clancy, em Massachusetts, chegou aos últimos dias sob forte tensão. A mulher de 36 anos é acusada de matar os três filhos, Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de apenas 8 meses, em janeiro de 2023, na cidade de Duxbury.

A defesa não contesta que Lindsay tenha causado as mortes. O ponto central do julgamento é outro: ela tinha condições mentais de ser responsabilizada criminalmente pelo que fez?

É essa pergunta que os jurados terão de responder depois de ouvirem especialistas apresentados pelos dois lados.

Nesta segunda-feira (24), porém, o julgamento quase foi interrompido. O advogado de defesa Kevin Reddington pediu que o processo fosse anulado, depois que uma testemunha da promotoria mencionou a criação católica de Lindsay e fez referência ao suicídio como um “pecado mortal”.

O juiz William Sullivan rejeitou o pedido de mistrial, mas considerou o comentário inadequado e determinou que os jurados não levassem a referência religiosa em consideração.

Lindsay Clancy enfrenta fantasmas do passado no tribunal | Foto: Reprodução

Por que a defesa pediu a anulação do julgamento?

O episódio aconteceu durante o depoimento do psicólogo forense Kirk Heilbrun, chamado pela promotoria para contestar a versão apresentada pela defesa sobre o estado mental de Lindsay.

Ao explicar uma conversa que teve com a acusada, Heilbrun falou sobre a criação católica dela e mencionou a ideia de suicídio como um “pecado mortal”.

A defesa imediatamente protestou.

O advogado Kevin Reddington acusou a promotoria de “conduta intencional” e pediu ao juiz que declarasse o mistrial, termo usado nos Estados Unidos quando um julgamento é encerrado sem veredicto e precisa, em determinadas circunstâncias, ser reiniciado.

O juiz Sullivan não aceitou.

Ele, porém, determinou que o comentário fosse retirado da consideração dos jurados e classificou a discussão sobre a doutrina católica como irrelevante para o julgamento.

O que o juiz determinou aos jurados?

A orientação foi direta: os jurados deveriam ignorar completamente a referência à religião.

O juiz também repreendeu a acusação e determinou que novas referências ao assunto fossem evitadas.

A controvérsia ganhou ainda mais peso porque não foi a primeira vez que uma questão relacionada à religião de Lindsay apareceu diante do júri durante o julgamento. Na semana anterior, uma testemunha também havia sido questionada sobre a relação entre religião e o conceito de pecado.

A defesa argumenta que esse tipo de referência pode influenciar a percepção dos jurados sobre a acusada.

O que está em disputa no julgamento?

A defesa sustenta que Lindsay estava sofrendo de uma grave doença mental, incluindo psicose pós-parto, e que não tinha responsabilidade criminal pelos atos.

Segundo essa versão, ela teria apresentado sintomas psicóticos e relatado ter ouvido uma voz que a mandava matar os filhos e depois tirar a própria vida.

A promotoria tenta desmontar essa interpretação.

O argumento dos promotores é que, apesar dos problemas psiquiátricos, Lindsay compreendia o que estava fazendo e poderia ser considerada criminalmente responsável.

É justamente essa diferença de interpretação sobre o estado mental da acusada que está no centro do julgamento.

Especialistas apresentam versões completamente diferentes

Um dos principais momentos da fase de depoimentos foi a apresentação dos especialistas em saúde mental.

Pela defesa, o psiquiatra Phillip Resnick afirmou que Lindsay estava em estado de psicose e não tinha controle sobre suas ações.

Resnick é conhecido por ter participado de avaliações psiquiátricas em casos criminais de grande repercussão nos Estados Unidos, incluindo os de Jeffrey Dahmer e Andrea Yates.

A avaliação apresentada pela promotoria foi diferente.

O psiquiatra Avram Mack afirmou que Lindsay apresentava depressão, mas disse não ter encontrado evidências suficientes para concluir que ela estivesse em psicose no momento das mortes.

Lindsay e seus filhos | Foto: Reprodução

Defesa tenta desmontar depoimento de especialista da acusação

Durante o interrogatório de Avram Mack, Reddington questionou as qualificações e conclusões do médico.

O advogado também chamou atenção para a postura do especialista durante o depoimento e questionou por que ele estaria sorrindo enquanto respondia às perguntas.

O confronto mostra como a estratégia da defesa está concentrada não apenas na tese de doença mental, mas também em questionar a credibilidade dos especialistas apresentados pela acusação.

O que Kirk Heilbrun disse sobre Lindsay?

O psicólogo forense Kirk Heilbrun apresentou uma interpretação ainda mais dura para a promotoria.

Segundo ele, Lindsay estava extremamente deprimida e suicida, mas isso não significava necessariamente que estivesse em psicose.

Heilbrun também questionou o relato de Lindsay de que teria ouvido uma voz ordenando que matasse os filhos.

Para o especialista, havia inconsistências nessa versão e o comportamento descrito por Lindsay não seria típico de uma psicose aguda com alucinações de comando.

A mulher de 36 anos é acusada de matar os três filhos, Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de apenas 8 meses | Foto: Reprodução

Uma das hipóteses apresentadas pelo psicólogo foi a de que Lindsay poderia acreditar que estava evitando sofrimento futuro dos filhos caso ela própria morresse.

Essa interpretação é conhecida na literatura forense como “filicídio altruísta”, expressão usada para descrever casos em que o autor acredita, de maneira distorcida, que está protegendo os filhos de algum sofrimento.

O julgamento está perto do fim?

Sim.

Nesta terça-feira (25), Kirk Heilbrun voltou ao banco das testemunhas para ser interrogado pela defesa. Depois dele, a promotoria ainda deve apresentar uma última testemunha de refutação.

Com o encerramento dos depoimentos, o próximo passo são as alegações finais.

Dependendo do andamento da audiência, as alegações finais podem ocorrer já nesta quarta-feira, abrindo caminho para que o caso seja entregue aos jurados.

Isso significa que o julgamento pode entrar na fase decisiva ainda nesta semana.

Qual será a decisão dos jurados?

Essa é a grande questão.

Os jurados terão de analisar não apenas se Lindsay matou os filhos — fato que a própria defesa admite —, mas principalmente qual era o estado mental dela no momento das mortes e se ela pode ser considerada criminalmente responsável.

A defesa quer convencer o júri de que a doença mental retirou essa responsabilidade.

A acusação tenta demonstrar que Lindsay, embora enfrentasse problemas psiquiátricos, sabia o que estava fazendo e poderia responder criminalmente pelos atos.

O caso que chocou Massachusetts

Lindsay Clancy é acusada de matar os três filhos em 24 de janeiro de 2023, na residência da família em Duxbury, Massachusetts.

Cora tinha 5 anos, Dawson tinha 3 e Callan tinha apenas 8 meses.

Cora, Dawson e Callan | Foto: Reprodução

O caso ganhou repercussão nacional nos Estados Unidos porque a defesa desde o início concentrou sua estratégia no estado mental da mãe e em possíveis efeitos de medicamentos e transtornos psiquiátricos no período que antecedeu as mortes.

Agora, depois de semanas de depoimentos e confrontos entre especialistas, o processo se aproxima do momento em que a decisão deixará de estar nas mãos dos advogados e passará para os jurados.

O que acontece agora?

A defesa interroga Kirk Heilbrun nesta terça-feira.

Depois, a promotoria deve apresentar sua última testemunha de refutação.

Na sequência, defesa e acusação deverão fazer as alegações finais.

Depois disso, caberá ao júri decidir o destino de Lindsay Clancy.

A expectativa é que o caso entre em deliberação ainda nesta semana, caso o cronograma seja mantido.

Entenda o contexto

Lindsay Clancy, de 36 anos, responde a acusações de homicídio em primeiro grau pela morte dos três filhos, ocorrida em janeiro de 2023. Ela não nega ter causado as mortes, mas sua defesa sustenta que uma grave condição psiquiátrica, incluindo psicose pós-parto, a tornou incapaz de compreender ou controlar seus atos.

A promotoria apresentou especialistas que contestam essa conclusão. A reta final do julgamento foi marcada por um confronto entre as duas versões sobre o estado mental de Lindsay e por uma controvérsia envolvendo referências à religião da acusada.

O juiz rejeitou o pedido de mistrial apresentado pela defesa, mas determinou que os jurados ignorassem os comentários sobre religião. Com os últimos depoimentos previstos para esta terça-feira, o julgamento se aproxima das alegações finais e da decisão do júri.

A NC News acompanha os momentos decisivos do julgamento, com suporte de Tatiana Daignault, produtora e host do podcast Café, Crime e Chocolate, que vem acompanhando pessoalmente as audiências.

 

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