A dispersão de candidaturas de direita no Rio de Janeiro embaralha o jogo para o Senado e ameaça um dos principais projetos do bolsonarismo: ampliar sua força na Casa. Enquanto nomes alinhados a Jair Bolsonaro se dividem, Benedita da Silva (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos) aparecem na frente nas pesquisas de intenção de voto.
Direita dividida, adversários organizados
No início oficial da campanha, o cenário fluminense expõe uma contradição central do bolsonarismo hoje. O grupo aposta no Senado como peça-chave para influenciar pautas legislativas e pressionar o Supremo Tribunal Federal, mas enfrenta dificuldade para organizar sua própria base eleitoral no estado onde Bolsonaro constrói parte decisiva de sua trajetória política.
O Rio tem duas vagas em disputa para o Senado. A pesquisa do Paraná Pesquisas indica Benedita e Crivella na liderança, enquanto candidatos identificados com o bolsonarismo aparecem atrás, diluídos em um campo de direita fragmentado. Em vez de um ou dois nomes fortes, surgem vários, disputando o mesmo eleitorado conservador.
“Você tem muitos candidatos disputando esse mesmo eleitorado de direita, esse eleitorado bolsonarista”, resume o colunista Robson Bonin. A avaliação ajuda a explicar por que, mesmo com um potencial expressivo de votos, o campo bolsonarista não consegue, por ora, transformar capital político em favoritismo.
Plano nacional em risco
O projeto bolsonarista para o Senado é ambicioso. A meta é formar uma bancada robusta, capaz de influenciar diretamente a escolha da presidência da Casa, controlar a pauta de votações e ter mais peso em temas sensíveis, especialmente os que envolvem o Supremo. “Existe esse projeto de eleger uma bancada muito forte, de ter influência sobre a presidência do Senado, sobre as pautas que vão ser colocadas, inclusive sobre questões relacionadas ao Supremo”, afirma Bonin.
Nesse desenho, estados grandes e politicamente simbólicos, como o Rio, têm papel central. A lógica é simples: concentrar votos em poucos candidatos fiéis ao projeto, garantindo cadeiras estratégicas. A realidade fluminense, porém, aponta na direção oposta. “Se você fragmenta demais esse voto nos estados, você pode acabar prejudicando justamente esse projeto nacional”, alerta o colunista.
A multiplicação de nomes à direita alimenta um efeito aritmético e político. Aritmético, porque divide um eleitorado que poderia ser suficiente para eleger dois senadores alinhados a Bolsonaro. Político, porque transmite a imagem de um campo desorganizado, incapaz de produzir acordos mínimos em torno de prioridades nacionais.
Oportunidade para Benedita e Crivella
Enquanto o bolsonarismo se espalha em diversas candidaturas, adversários com bases mais consolidadas aproveitam a janela aberta. Benedita da Silva chega à largada da campanha com décadas de atuação política, forte identificação com setores populares e o selo do PT, principal polo do lulismo no país. Crivella, por sua vez, explora sua ligação histórica com segmentos evangélicos e carrega o peso de já ter governado a capital fluminense.
A combinação de voto de opinião, bases territoriais e redes religiosas consolidadas dá aos dois uma vantagem inicial. O quadro, na leitura de Bonin, pode se cristalizar se a direita não se reorganizar a tempo. “Se continuar, pode facilitar a vida de candidatos que hoje aparecem na frente, como a Benedita e o Crivella”, diz.
O movimento interessa diretamente a PT e Republicanos, que ganham espaço para ocupar as duas vagas em jogo. Um desfecho assim reduziria o peso do bolsonarismo no Senado e ampliaria a margem de manobra de forças adversárias em negociações futuras no Congresso.
Cenário ainda em aberto
Apesar do alerta, interlocutores do campo bolsonarista no Rio e em Brasília tratam o cenário com cautela. Há a percepção de que o eleitorado de direita costuma se alinhar de forma mais nítida na reta final da campanha, quando a disputa ganha contornos mais claros e as alianças se definem.
Bonin também faz essa ressalva. “Eu acho que ainda é cedo para a gente cravar qualquer coisa, porque a campanha está começando agora”, pondera. A avaliação é que a exposição intensificada de nomes, nas ruas e nas redes, pode reorganizar preferências e concentrar votos em um ou dois candidatos bolsonaristas considerados mais competitivos.
Os próximos dias tendem a ser decisivos para essa acomodação. Lideranças do campo de Bolsonaro discutem saídas para reduzir o número de candidaturas e forçar uma convergência, ainda que tardia. Se a costura não avançar, a tendência é que o efeito fragmentação se mantenha e consolide a vantagem atual de Benedita e Crivella.
O que está em jogo para o bolsonarismo
O caso do Rio sintetiza o dilema do bolsonarismo no Brasil hoje: um movimento com forte apelo entre parcelas do eleitorado, mas que nem sempre consegue traduzir essa força em coordenação política e resultados institucionais. A disputa pelas duas vagas ao Senado fluminense é, ao mesmo tempo, uma batalha local e uma peça de um tabuleiro nacional mais amplo.
Se o campo bolsonarista falhar em eleger representantes no Rio, o projeto de ampliar a bancada e ganhar protagonismo nas decisões do Senado perde fôlego. Isso diminui a capacidade de influenciar pautas econômicas, temas de costumes e iniciativas voltadas a pressionar ou enquadrar o Supremo. Em um Congresso cada vez mais fragmentado, cada cadeira importa – e, no Rio, o bolsonarismo corre o risco de desperdiçar as suas.
A campanha ainda está no começo, mas a janela para reorganizar o jogo se estreita. A capacidade de reduzir a pulverização, negociar recuos e concentrar forças em menos candidaturas dirá se o bolsonarismo sai dessa eleição fluminense fortalecido ou com sua estratégia nacional para o Senado seriamente comprometida.