A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, um recorde que acende o alerta sobre as contas da maior economia do mundo. O valor mais que dobrou desde 2017 e cresceu US$ 1 trilhão em apenas cinco meses.
O tamanho da dívida impressiona, mas especialistas ouvidos pela Agência Brasil afirmam que isso não significa que os Estados Unidos estejam perto de quebrar. O problema está principalmente no custo crescente dos juros e nas escolhas econômicas que vêm ampliando o déficit.
Como a dívida chegou a esse tamanho?
Segundo economistas, vários fatores explicam o avanço do endividamento americano. Entre eles estão os cortes de impostos para os mais ricos, os gastos militares elevados, os juros da própria dívida, a inflação provocada pelo conflito no Oriente Médio e as tarifas de importação adotadas pelo governo Donald Trump.
Os gastos com juros chegaram a US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro dos US$ 419 bilhões registrados em 2021. Ao mesmo tempo, as despesas militares permanecem próximas de US$ 1 trilhão.
É uma combinação difícil: quanto maior a dívida, maior tende a ser a despesa com juros. E quanto mais os juros pesam no orçamento, mais difícil fica reduzir o déficit.
O corte de impostos para os mais ricos
Um dos pontos levantados pelos especialistas é a política tributária adotada durante os governos Trump.
O economista Pedro Faria afirmou que a redução de impostos para os mais ricos diminuiu a arrecadação e contribuiu para o aumento do endividamento. Em 2025, um projeto aprovado pelo governo Trump elevou a previsão de déficit dos EUA em US$ 4,7 trilhões ao longo de dez anos.
“O Trump aposta nessa política característica dos republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia.”
Segundo Faria, a estratégia acabou contribuindo para o aumento do endividamento durante o segundo governo Trump.
Outro economista ouvido pela Agência Brasil, Pedro Paulo Zahluth Bastos, também apontou um efeito sobre a distribuição de renda. De acordo com ele, a arrecadação do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal, enquanto os juros pagos pelo governo beneficiam principalmente quem possui títulos, como fundos, bancos e famílias mais ricas.
E as tarifas de Trump?
As tarifas de importação também entraram na conta. A política comercial agressiva do governo americano tem provocado incertezas no mercado e ajudado a pressionar a inflação. Segundo os especialistas, isso contribui para elevar os juros cobrados pelos investidores nos títulos do Tesouro americano.
O efeito pode parecer indireto, mas funciona assim: tarifas mais altas podem encarecer produtos importados; preços maiores alimentam a inflação; e uma inflação mais resistente aumenta a pressão por juros elevados.
O conflito tarifário com o Canadá é citado como um exemplo da incerteza provocada pela política comercial americana.
Os EUA correm risco de calote?
Aqui está um ponto importante: US$ 40 trilhões não significa, por si só, que os Estados Unidos estejam perto da insolvência.
Os economistas consultados rejeitam a ideia de um risco imediato de calote. Um dos motivos é que o governo americano emite a própria moeda e o dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional.
O professor Pedro Paulo Zahluth Bastos explicou que o Federal Reserve, o banco central americano, tem instrumentos para atuar caso o mercado deixe de comprar os títulos públicos nas condições desejadas.
“Um governo assim não quebra contra a vontade.”
Apesar disso, existe outro problema: o custo para continuar financiando essa dívida está aumentando.
O que está acontecendo com os juros?
Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são considerados há décadas um dos investimentos mais seguros do mundo.
Mas isso não significa que o governo americano consiga se financiar sempre pelo mesmo preço.
O rendimento dos títulos de 30 anos chegou a 5,33% em 18 de agosto, o maior nível desde 2007. Para os especialistas, juros mais altos significam uma conta cada vez maior para o governo.
Em outras palavras: o problema não é apenas quanto os EUA devem, mas quanto custa carregar essa dívida.
Por que isso interessa ao Brasil?
A situação americana também pode ter reflexos sobre o Brasil.
Segundo os especialistas ouvidos pela Agência Brasil, uma deterioração das condições fiscais dos Estados Unidos tende a manter os juros americanos elevados. Isso pode aumentar a pressão para que países emergentes, como o Brasil, também mantenham taxas de juros mais altas.
Isso acontece porque os títulos americanos competem pela preferência dos investidores internacionais. Se os papéis dos EUA oferecem retornos maiores, pode ficar mais difícil para países emergentes atrair dinheiro pagando juros menores.
A dívida ainda pode crescer?
Pode. O ritmo recente surpreendeu até mesmo as projeções oficiais. A dívida aumentou US$ 1 trilhão em apenas cinco meses, enquanto o Escritório de Orçamento do Congresso americano calculava que a marca de US$ 40 trilhões seria atingida somente em 2027.
O Tesouro americano também anunciou que pretende ampliar as operações de recompra de títulos no mercado, passando de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de setembro.
A medida pode ajudar a dar liquidez ao mercado, mas não resolve sozinha o problema estrutural das contas públicas.
O que acontece agora?
A grande questão para os Estados Unidos não é simplesmente pagar ou não os US$ 40 trilhões.
O desafio é controlar o crescimento da dívida sem provocar uma disparada ainda maior nos juros, reduzir o déficit e manter a confiança dos investidores nos títulos americanos.
Por enquanto, os especialistas não veem um cenário de insolvência. Mas o avanço rápido da dívida e o aumento do custo dos juros mostram que a conta está ficando cada vez mais pesada.
Entenda o contexto
A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez e mais que dobrou desde 2017. O avanço ocorreu em meio a uma combinação de fatores: cortes de impostos, gastos militares elevados, aumento dos juros, inflação e tarifas de importação.
Apesar do valor recorde, economistas afirmam que os EUA não estão diante de um risco imediato de insolvência. O país emite a própria moeda e o dólar continua sendo a principal reserva monetária do mundo.
O principal alerta está no custo crescente dos juros. Com os títulos de longo prazo pagando mais, o governo precisa gastar cada vez mais para financiar o próprio endividamento.
Para o Brasil, juros americanos elevados podem significar mais pressão sobre as taxas domésticas e sobre os investimentos internacionais, especialmente em mercados emergentes.