Passadas 24 horas desde a divulgação do relatório da Polícia Federal com as mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é hoje a exceção isolada no tabuleiro eleitoral: todos os demais pré-candidatos ao Planalto já comentaram o caso.
Flávio Bolsonaro (PL) disse que Moraes não tem mais condição de seguir na Corte caso as acusações se confirmem. Ronaldo Caiado (PSD) foi na mesma linha, afirmando publicamente que o ministro não reúne mais condições de permanecer no STF. O candidato Romeu Zema (Novo) e o próprio Augusto Cury (Avante), nome em ascensão nas pesquisas, também se manifestaram sobre a crise. Lula, isolado, não emitiu nenhuma nota oficial, não comentou o assunto em nenhuma aparição pública e não disse sequer que vai acompanhar ou apurar os fatos.
Silêncio Estratégico
O silêncio até pode ser lido, a princípio, como estratégico — mas caminha para se tornar um problema por si só. Ao ser o único entre os principais concorrentes a não se posicionar sobre o episódio, Lula reforça justamente a leitura que sua campanha mais tenta evitar: a de que sua imagem está completamente associada à de Moraes, a ponto de não conseguir nem comentar uma crise que envolve o ministro sem correr o risco de ser cobrado por isso. É o tipo de silêncio que pode virar munição na boca de adversários muito mais rápido do que qualquer nota mal escrita.
O dilema já é reconhecido dentro da própria campanha: o de tentar desassociar a imagem do presidente da do ministro do STF, justamente no momento em que o relatório revela uma relação que ela classificou como “bem pouco republicana” entre Moraes e Vorcaro. Mesmo que o material da PF não envolva Lula diretamente nos fatos apurados, a questão que preocupa o Planalto agora é puramente de imagem — e de como o silêncio pode pesar na corrida eleitoral justamente por contrastar com a disposição dos adversários de falar sobre o tema.
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Aliados do próprio presidente admitem que o vínculo entre Lula e Moraes já é percebido pela opinião pública como algo dado, difícil de desfazer em pleno período eleitoral. Um dos fatores apontados é o papel de Moraes como relator do inquérito da trama golpista que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Outro episódio foi o encontro que ocorreu na casa do próprio ministro entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre — reunião que, segundo ela, foi “patrocinada por Alexandre de Moraes” e ajudou a reforçar, na percepção pública, a proximidade entre os dois.
Lula tem sido orientado por aliados a manter distância do assunto e evitar comentários enquanto a temperatura política segue elevada. Mas o próprio entorno do presidente reconheceria que essa distância é bastante difícil de sustentar na prática. O problema é que, na prática, essa distância está ficando visível demais: enquanto os adversários ocupam o noticiário com declarações sobre Moraes, o silêncio de Lula vira, ele mesmo, um dado a ser interpretado pelo eleitor.
Flávio Bolsonaro capitaliza o momento
Do outro lado do tabuleiro eleitoral, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tratou a divulgação do relatório — que teve o sigilo retirado por André Mendonça — como uma vitória política, especialmente por chegar num momento em que o próprio candidato vem sendo cobrado a se explicar sobre o caso Dark Horse.
Ainda não dá para afirmar se as revelações serão decisivas para o resultado da eleição, mas certamente há impacto e grande preocupação por parte da campanha de Lula.