Um estudo sobre o Provão Paulista, processo seletivo que dá acesso a universidades públicas de São Paulo, identificou 4.305 resultados considerados estatisticamente atípicos entre estudantes da rede estadual na edição de 2025.
A análise foi realizada pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) com base em microdados das provas de 2023, 2024 e 2025. Segundo os pesquisadores, a quantidade de desempenhos fora do padrão e a concentração em determinadas escolas levantam suspeitas de possíveis irregularidades na aplicação do exame.
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Estudo encontrou milhares de desempenhos fora do padrão
Segundo a pesquisa, os 4.305 casos identificados entre alunos do 3º ano em 2025 representam cerca de 1,91% dos estudantes da rede estadual.
O número chamou atenção porque, segundo os pesquisadores, a proporção esperada de resultados tão extremos seria de aproximadamente 0,15%.
Na comparação apresentada pelo estudo, a quantidade encontrada em 2025 ficou mais de 12 vezes acima do esperado estatisticamente.
Os pesquisadores, porém, ressaltam que um resultado atípico não significa automaticamente que houve fraude. O alerta está relacionado principalmente ao padrão coletivo identificado nos dados.

Casos ficaram concentrados em poucas escolas
Outro ponto considerado relevante pela pesquisa foi a concentração dos resultados.
Metade dos 4.305 desempenhos atípicos identificados em 2025 estava distribuída por apenas 50 escolas estaduais, que representam cerca de 1,4% das unidades analisadas.
Em pelo menos 44 escolas, mais de 40% dos alunos apresentaram resultados classificados como atípicos. Em algumas unidades, o percentual ultrapassou 90%.
O estudo também identificou concentração regional: metade dos casos estava em apenas 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino do estado.
Diferença para as Etecs chamou atenção
Os pesquisadores compararam os resultados da rede estadual com os desempenhos de estudantes das Escolas Técnicas Estaduais (Etecs).
Entre mais de 30 mil alunos de Etecs que fizeram o exame, apenas 53 apresentaram resultados classificados como atípicos, o equivalente a 0,17%.
Na rede estadual, foram 4.305 casos entre aproximadamente 225 mil estudantes, ou 1,91%.
Para os autores, a diferença reforça a necessidade de investigar como as provas foram aplicadas nas diferentes redes.
Resultado pode ter afetado disputa por vagas
O Provão Paulista é utilizado para selecionar estudantes da rede pública para vagas em instituições como USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs.
De acordo com a análise, 14.271 estudantes da rede estadual foram selecionados para universidades no último processo.
Desse grupo, 1.608 alunos, ou 11,3%, estudavam em escolas onde mais de 20% dos resultados foram considerados atípicos.
Os pesquisadores afirmam que os dados não permitem apontar quais candidatos eventualmente teriam se beneficiado de alguma irregularidade nem determinar quantas vagas teriam sido afetadas.
Nove escolas tiveram números ainda mais extremos
A pesquisa encontrou pelo menos nove escolas estaduais nas quais mais de 75% dos alunos do 3º ano apresentaram resultados considerados atípicos.
Em uma das unidades analisadas, por exemplo, 45 dos 46 estudantes avaliados apresentaram saltos de desempenho superiores a três desvios-padrão.
Para os pesquisadores, a concentração dos resultados em escolas inteiras é um dos principais motivos para que os dados sejam investigados de forma mais aprofundada.
Denúncias de vazamento também entram no debate
O estudo menciona ainda denúncias registradas desde as primeiras edições do Provão Paulista envolvendo vazamento de questões, uso de celulares e facilitação de cola durante as provas.
Em 2023, por exemplo, o tema da redação circulou nas redes sociais antes da aplicação do exame. A Secretaria da Educação reconheceu o vazamento, mas afirmou que ele não comprometeu o processo seletivo.
Os pesquisadores defendem que essas ocorrências sejam analisadas em conjunto com os padrões estatísticos encontrados.
Secretaria da Educação nega que estudo prove fraude
A Secretaria da Educação de São Paulo contestou a conclusão de que os resultados indiquem uma fraude sistêmica.
A pasta afirma que resultados considerados atípicos não são, por si só, evidência de fraude e que estabelecer essa relação sem identificar casos concretos seria uma conclusão inadequada.
A Fundação Vunesp, responsável pela elaboração das provas, também defende os procedimentos de segurança utilizados no exame.
Por que o Provão Paulista é tão importante?
O Provão Paulista Seriado foi criado para ampliar o acesso de estudantes da rede pública ao ensino superior.
A avaliação é dividida conforme o ano do Ensino Médio e, na terceira etapa, permite que os estudantes concorram diretamente a vagas em universidades e instituições públicas paulistas.
Na edição utilizada como referência para o processo de 2026, foram disponibilizadas 15.717 vagas, incluindo oportunidades na USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs.
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Entenda O Contexto
O alerta envolvendo o Provão Paulista ainda precisa ser tratado como uma questão de investigação, e não como uma fraude comprovada. O estudo da Rede Escola Pública e Universidade encontrou uma quantidade muito acima do esperado de desempenhos estatisticamente atípicos e identificou forte concentração desses resultados em determinadas escolas e regiões.
Esse padrão levou os pesquisadores a defenderem uma apuração sobre a aplicação das provas, principalmente porque o exame interfere diretamente na distribuição de vagas em universidades públicas. A Secretaria da Educação, por outro lado, afirma que os dados não são suficientes para concluir que houve fraude sistêmica. O caso coloca em discussão a segurança de um processo seletivo que se tornou uma das principais portas de entrada de estudantes da rede pública paulista no ensino superior.
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