A seca voltou a ganhar território na Região Norte e já acende um alerta para a agricultura familiar no Amazonas.
O monitoramento mais recente do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais — Cemaden aponta que 31 municípios do Amazonas apresentaram algum grau de seca em agosto de 2026. Desse total, 14 foram classificados em condição de seca severa e 17 em condição moderada.
O dado chama atenção principalmente quando comparado ao mesmo período do ano passado. Em agosto de 2025, eram 9 municípios do Amazonas em condição de seca, todos classificados como seca moderada.
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Em um ano, portanto, o número de municípios monitorados nessa situação passou de 9 para 31 — mais que triplicou. E a mudança não ocorreu apenas na quantidade: em 2026, parte dos municípios passou para uma categoria mais grave, com 14 localidades já classificadas como seca severa.
O que o Cemaden está medindo?
O monitoramento faz parte do RiSAF — Risco de Seca na Agricultura Familiar, desenvolvido para avaliar como as condições de falta de água podem afetar sistemas de produção familiar.
A análise considera o cultivo de feijão e milho não irrigados e leva em conta não apenas a quantidade de chuva.
O Cemaden combina três indicadores: o déficit de precipitação em um mês, a umidade do solo até aproximadamente um metro de profundidade e a condição da vegetação, que incorpora informações de temperatura e vigor vegetativo.
É dessa combinação que surge o Índice Integrado de Seca, utilizado para identificar áreas com maior potencial de impacto. Isso é importante porque uma seca meteorológica não necessariamente significa perda imediata de produção. O impacto depende de quando a falta de água acontece e em qual estágio está a lavoura.
Segundo o Cemaden, condições de seca entre moderada e excepcional podem sinalizar impactos diferentes conforme o momento do ciclo. Se ocorrerem no início do plantio, podem provocar atraso na implantação da lavoura. Se aparecerem durante o desenvolvimento das culturas, podem levar à redução significativa ou até à quebra da safra.
Por que o Amazonas aparece no radar?
Há uma particularidade importante no levantamento de agosto.
O Cemaden considera o calendário agrícola da Conab para definir os estados que estão em período de plantio de feijão e milho. Em agosto, seis estados brasileiros tinham calendário vigente.
Na Região Norte, o Amazonas era o único estado com calendário de plantio vigente naquele mês. Por isso, a análise de severidade da seca para a agricultura familiar concentrou-se nos municípios amazonenses.
Isso não significa que outros estados da Região Norte estejam livres de problemas relacionados à falta de chuva. Significa que, para essa análise específica do RiSAF, o cruzamento entre seca e calendário agrícola colocou o Amazonas no foco naquele momento.
2026 versus 2025: uma mudança importante
A comparação anual é um dos pontos que mais chamam atenção. Em agosto de 2025, o Cemaden registrava 9 municípios do Amazonas em seca moderada. Em agosto de 2026, são 31 municípios, sendo 17 em condição moderada e 14 em condição severa.
A mudança representa um aumento de 22 municípios em relação ao ano anterior e uma alteração importante na intensidade do fenômeno.
É um sinal de que a situação regional piorou em relação ao mesmo período de 2025, mas não significa que 2026 seja necessariamente o pior cenário recente. E essa comparação é importante para colocar o dado em perspectiva.
E como estava o cenário em 2024?
Dois anos atrás, o Amazonas enfrentava uma situação ainda mais severa em termos de intensidade.
Em agosto de 2024, o RiSAF registrava 4 municípios em seca extrema, 30 em seca severa e 17 em seca moderada no estado. Naquele momento, portanto, havia 51 municípios amazonenses classificados entre seca moderada e extrema. Em agosto de 2026, são 31 municípios entre seca moderada e severa.
A comparação mostra que o quadro atual é mais preocupante que o observado em 2025, mas ainda não alcança a dimensão registrada pelo monitoramento de agosto de 2024.
Essa diferença é relevante para evitar uma leitura simplista de que “a seca voltou ao mesmo nível de 2024”. Não voltou.
O que os dados mostram é uma deterioração importante em relação a 2025, enquanto 2024 permanece como uma referência de um episódio mais intenso.
A situação mudou até dentro de 2026
Outro ponto interessante aparece quando se compara agosto com o mês anterior.
Em julho de 2026, o Cemaden registrava 12 municípios do Amazonas em seca severa. Havia ainda 20 municípios amazonenses em seca moderada. Em agosto, a seca severa passou para 14 municípios, enquanto a moderada caiu para 17.
Isso significa que o número total de municípios nas duas categorias permaneceu praticamente estável — 32 em julho contra 31 em agosto —, mas houve uma mudança na distribuição da intensidade.
Do ponto de vista agrícola, essa informação merece atenção porque a severidade da seca importa tanto quanto a quantidade de municípios atingidos.
O alerta não significa perda automática de safra
É importante fazer essa ressalva.
O RiSAF é um instrumento de monitoramento de risco. Ele não significa que todos os municípios classificados em seca moderada ou severa terão quebra de produção.
O próprio Cemaden destaca que o impacto depende do estágio da cultura, do momento do déficit hídrico e das características do sistema produtivo.
Para a agricultura familiar, entretanto, o risco pode ser especialmente relevante porque o monitoramento considera justamente sistemas de produção não irrigados e incorpora também aspectos relacionados à vulnerabilidade e à capacidade adaptativa dos municípios.
Na prática, isso significa que duas localidades submetidas a uma condição climática semelhante podem apresentar impactos diferentes na produção.
Um problema que começa no campo, mas não termina nele
A falta de água pode afetar a agricultura de diferentes maneiras. No início do ciclo, pode dificultar a germinação e atrasar o plantio. Durante o desenvolvimento, pode reduzir o crescimento das plantas.
Em fases mais sensíveis, como floração e formação dos grãos, o déficit hídrico pode comprometer diretamente o potencial produtivo.
E, quando a produção cai, os efeitos podem chegar à renda das famílias produtoras, à oferta local de alimentos e ao abastecimento de mercados.
Por isso, o monitoramento do Cemaden tem uma função que vai além de apontar onde está seco. Ele ajuda a identificar onde o risco climático pode se transformar em risco agrícola.
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E o restante do Brasil?
O Amazonas não é o único ponto de atenção no levantamento de agosto.
Entre os estados com calendário agrícola vigente, o Cemaden registrou 63 municípios com algum grau de seca no Sudeste, sendo 1 em condição severa e 62 em condição moderada, todos em Minas Gerais.
Na Região Sul, foram 4 municípios em seca moderada, todos no Rio Grande do Sul.
No Centro-Oeste, 15 municípios apresentaram seca moderada, todos em Mato Grosso do Sul.
A diferença é que, quando comparado a agosto de 2025, o destaque negativo ficou justamente com a Região Norte: enquanto o Norte passou de 9 para 31 municípios afetados, o Sudeste apresentou forte redução, de 352 para 63 municípios.
Ou seja, o mapa da seca também mudou de lugar.
O que o produtor deve observar?
O alerta do Cemaden reforça a importância de acompanhar não apenas a previsão de chuva, mas também a umidade do solo, o calendário de plantio e a fase de desenvolvimento da cultura.
Para o agricultor familiar, decisões sobre época de plantio, escolha de cultivares, conservação do solo e disponibilidade de água podem ser determinantes para reduzir a exposição ao risco.
O próprio Cemaden disponibiliza o RiSAF justamente como instrumento de acompanhamento das condições de seca e seus possíveis efeitos sobre a agricultura familiar.
O que os números mostram
Agosto de 2024:
4 municípios em seca extrema
30 em seca severa
17 em seca moderada
Total: 51 municípios
Agosto de 2025:
9 municípios em seca moderada
Total: 9 municípios
Agosto de 2026:
14 municípios em seca severa
17 em seca moderada
Total: 31 municípios
O retrato dos últimos três anos mostra um movimento que merece acompanhamento: 2024 foi o episódio mais intenso entre os três períodos analisados; 2025 apresentou uma redução expressiva; e 2026 voltou a registrar uma expansão importante da seca no Amazonas.
Para o campo, o principal alerta não está apenas no número de municípios atingidos, mas na possibilidade de que o déficit hídrico coincida com fases decisivas do calendário agrícola.
E, nesse cenário, informação antecipada pode fazer diferença entre apenas enfrentar um período de seca e conseguir planejar a produção para reduzir seus efeitos.
Fontes: Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Cemaden; Companhia Nacional de Abastecimento, Conab.
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