Conhecido principalmente pelo uso estético para suavizar rugas e linhas de expressão, o botox pode ter efeitos que vão além da aparência. Estudos científicos investigam como a toxina botulínica, ao reduzir temporariamente a movimentação de determinados músculos faciais, pode interferir na maneira como emoções são expressas e percebidas.
A hipótese está relacionada ao chamado feedback facial, mecanismo segundo o qual os movimentos do rosto não apenas demonstram o que uma pessoa sente, mas também podem participar do próprio processamento das emoções. Pesquisas já encontraram alterações na percepção emocional após aplicações de toxina botulínica, embora os resultados ainda não permitam concluir que o procedimento provoque mudanças emocionais importantes em todas as pessoas.
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Entenda o que aconteceu
A toxina botulínica age bloqueando temporariamente a comunicação entre os nervos e os músculos, reduzindo sua contração. Na estética, esse efeito é utilizado principalmente para diminuir a aparência de rugas causadas pela movimentação facial.
A questão levantada pelos estudos é que a expressão facial também participa da comunicação humana. Sorrir, franzir a testa ou contrair determinadas regiões do rosto ajuda a transmitir estados emocionais e pode influenciar a forma como outras pessoas interpretam esses sinais.
Como o botox pode interferir nas emoções
Uma das hipóteses estudadas é a do feedback facial. De acordo com essa ideia, o cérebro recebe informações dos músculos e das expressões do rosto, e esses sinais podem participar da experiência e do reconhecimento das emoções.
Ao limitar esses movimentos, a toxina poderia modificar parte desse processo. Um estudo publicado na revista Scientific Reports avaliou mulheres antes e depois de tratamentos com toxina botulínica e encontrou associação entre a aplicação e alterações no reconhecimento de expressões emocionais.
Isso não significa, porém, que quem aplica botox deixe de sentir emoções. A pesquisa investiga principalmente como a expressão e o reconhecimento dos sinais emocionais podem ser modificados.
O que acontece com a percepção das emoções de outras pessoas
As expressões faciais são importantes na comunicação não verbal. Quando alguém observa uma pessoa sorrindo, franzindo a testa ou demonstrando surpresa, utiliza esses sinais, entre outros elementos, para interpretar o estado emocional do interlocutor.
Pesquisas sobre toxina botulínica levantam a possibilidade de que a redução da capacidade de imitar determinadas expressões também influencie o reconhecimento de emoções. Um estudo experimental encontrou redução no desempenho de participantes em testes de reconhecimento emocional após o tratamento.
Os resultados, entretanto, devem ser interpretados dentro das limitações de cada pesquisa, especialmente porque alguns estudos têm amostras pequenas.
E as conexões sociais?
A comunicação emocional não depende apenas das palavras. Expressões faciais fazem parte da maneira como as pessoas demonstram interesse, empatia, alegria, preocupação e outras emoções durante uma interação.
Por isso, pesquisadores investigam se alterações na expressão facial provocadas pela toxina podem ter algum impacto indireto nas relações sociais. Estudos recentes sobre o uso de toxina botulínica na parte inferior do rosto destacam justamente a importância dessa região na comunicação interpessoal e na forma como as emoções são avaliadas por outras pessoas.
Isso não significa que o botox necessariamente prejudique relacionamentos ou cause isolamento social. A possível influência sobre interações sociais ainda é uma área de investigação.
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Estudos também investigam efeitos na vida sexual
A expressão facial também participa da demonstração de excitação e de outras respostas associadas à intimidade. Por esse motivo, pesquisadores avaliaram se a redução da movimentação de determinados músculos poderia ter alguma relação com a função sexual.
No estudo publicado em 2018, pesquisadores encontraram associação entre determinados tratamentos faciais com toxina botulínica e redução da função sexual relatada pelas participantes. A pesquisa, entretanto, envolveu apenas 36 mulheres — 24 tratadas e 12 participantes de comparação — e os próprios resultados precisam ser considerados dentro desse contexto.
Portanto, os dados não permitem afirmar que o botox provoque disfunção sexual de maneira geral. Eles indicam uma possível relação que merece investigação adicional.
Botox também pode estar relacionado a mudanças positivas no humor
A relação entre botox e emoções não é necessariamente apenas negativa. Pesquisas anteriores também investigaram se a redução da capacidade de franzir a testa poderia estar associada à melhora do humor ou de sintomas depressivos.
Uma revisão científica aponta que estudos sobre toxina botulínica estética encontraram efeitos psicológicos diversos, incluindo pesquisas que associaram o tratamento a melhorias em sintomas de depressão e qualidade de vida.
Isso mostra que o efeito da toxina sobre emoções é mais complexo do que a ideia de simplesmente “tirar” ou “bloquear” sentimentos.
O efeito depende da região tratada
Os resultados também podem variar de acordo com o local onde a toxina é aplicada. Diferentes músculos participam de diferentes expressões faciais, e o tratamento pode reduzir movimentos específicos sem necessariamente afetar toda a capacidade de expressão.
Por isso, não é adequado tratar todos os procedimentos com botox como se produzissem os mesmos efeitos emocionais ou sociais.
Entenda o contexto
O botox é utilizado há décadas tanto para fins médicos quanto estéticos. No campo da estética, seu principal efeito é reduzir temporariamente a contração de determinados músculos, suavizando linhas e rugas.
Ao mesmo tempo, estudos sobre o chamado feedback facial mostram que os músculos da face podem participar de processos relacionados às emoções. As pesquisas sobre toxina botulínica ajudam a investigar essa relação porque permitem observar o que acontece quando determinados movimentos são temporariamente reduzidos.
Os resultados disponíveis apontam para possíveis alterações no processamento e no reconhecimento emocional e, em algumas pesquisas, na função sexual. Ainda assim, são necessários estudos maiores para determinar a frequência e a relevância desses efeitos na população em geral.
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