Ameaças de morte e estupro atingem candidatas em MG e expõem violência política contra mulheres

Bella Gonçalves, Ana Elisa Silva e Andréia de Jesus registraram denúncias em poucos dias; casos chegaram à Polícia Federal e ao Ministério Público Eleitoral, enquanto candidatas cobram proteção e responsabilização
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A campanha eleitoral em Minas Gerais ganhou um novo capítulo de tensão depois que três candidatas do PT registraram boletins de ocorrência por ameaças de morte e estupro em um intervalo de apenas uma semana. Bella Gonçalves, Ana Elisa Silva e Andréia de Jesus afirmam ter recebido mensagens com conteúdo semelhante, incluindo ameaças contra familiares e exposição de dados pessoais.

Os casos foram encaminhados à Polícia Federal e estão sendo acompanhados pelo Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais, que informou atuar em conjunto com as autoridades para apurar os fatos, identificar os responsáveis e adotar medidas para evitar novos episódios de intimidação. A PF, por sua vez, não confirma nem comenta investigações em andamento.

As denúncias reacenderam a discussão sobre a violência política de gênero durante as eleições de 2026. Em Minas, além das três candidatas petistas, outros episódios envolvendo mulheres que disputam ou exercem mandatos vieram à tona nas últimas semanas, aumentando a pressão sobre os órgãos responsáveis pela segurança eleitoral.

VEJA TAMBÉM

Nikolas pede expulsão de Medioli do PL após apoio de nomes da esquerda em Minas

Ameaças semelhantes e dados pessoais expostos

Bella Gonçalves, atual deputada estadual e candidata a uma vaga na Câmara dos Deputados, relatou ter recebido os primeiros e-mails com ameaças em 5 de setembro. Segundo a candidata, as mensagens apresentavam conteúdo de violência sexual e ameaça de morte, além de informações pessoais que, segundo ela, demonstravam que os autores tinham acesso a dados capazes de facilitar sua localização.

Dias depois, na madrugada de 8 de setembro, o comitê central da campanha de Bella, em Belo Horizonte, também foi alvo de vandalismo. Uma placa da candidatura foi arrancada, e um boletim de ocorrência foi registrado no dia seguinte.

A candidata afirmou que os ataques acabam desviando tempo e recursos que deveriam estar concentrados na campanha e na atividade política. Bella também levantou a possibilidade de que parte das ameaças tenha sido articulada em fóruns anônimos na internet, incluindo ambientes conhecidos como chans.

Ana Elisa Silva, que disputa pela primeira vez uma eleição para a Câmara dos Deputados, também recebeu mensagens em 5 de setembro. Segundo a equipe da candidata, o autor se apresentou como integrante de um grupo supremacista branco, utilizou referências pessoais da candidata e ameaçou também integrantes de sua família.

O episódio foi registrado como ocorrência policial e passou a ser tratado pela equipe jurídica como possível caso de violência política de gênero, além de envolver suspeitas relacionadas a ameaça e injúria racial.

Já Andréia de Jesus, deputada estadual que busca a reeleição, relatou ter recebido ameaças entre os dias 1º e 11 de setembro. A parlamentar afirmou que os ataques provocam impacto emocional e também aumentam os gastos com segurança. Segundo ela, desde que entrou na política institucional, em 2018, já recebeu milhares de ameaças e ataques racistas.

Outros casos aumentam a preocupação em Minas

Os episódios envolvendo Bella, Ana Elisa e Andréia não são os únicos registrados recentemente no estado.

A deputada estadual Lohanna França, do PV, candidata à Câmara dos Deputados, também passou a ser alvo de medidas de segurança depois de receber novas ameaças de um homem que já havia sido preso por ataques contra ela. Segundo a Polícia Federal, o suspeito havia deixado a prisão para cumprir pena em regime semiaberto.

Em julho, novas ameaças foram registradas depois que Lohanna tornou público que passou a utilizar um botão de pânico diante da possibilidade de aproximação do homem. A PF realizou uma operação em 11 de setembro e apreendeu o celular do investigado. A corporação informou que ele poderá responder pelo crime de ameaça relacionado ao exercício da função parlamentar caso sua participação seja confirmada.

Outro episódio de grande repercussão ocorreu com Duda Salabert, deputada federal e candidata à reeleição. No início de setembro, ela afirmou ter sido vítima de uma tentativa de homicídio enquanto fiscalizava, acompanhada de um assessor, um ponto suspeito de roubo de minério na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima.

Segundo o relato apresentado pela parlamentar, três homens teriam abordado e agredido os dois. Duda conseguiu escapar por um barranco e pedir ajuda a um motorista que passava pelo local. Ela sofreu escoriações e uma luxação no ombro. O caso foi inicialmente registrado como lesão corporal e passou a ser encaminhado para apuração pelas autoridades policiais.

Os episódios possuem circunstâncias diferentes e não há, até o momento, comprovação pública de que façam parte de uma mesma ação coordenada. O ponto em comum está na exposição de mulheres que ocupam ou disputam espaços de poder a diferentes formas de intimidação, ameaça e violência.

Uma lei existe, mas Minas ainda não regulamentou

A situação ganhou uma dimensão adicional porque Minas Gerais possui uma legislação específica sobre violência política contra mulheres, mas a norma ainda não foi regulamentada pelo governo estadual.

A Lei nº 24.466, aprovada pela Assembleia Legislativa em setembro de 2023, estabeleceu mecanismos para facilitar procedimentos e criar protocolos de enfrentamento à violência política de gênero. A proposta surgiu depois de uma série de ataques contra parlamentares mineiras.

Quase três anos depois da promulgação, porém, a regulamentação continua pendente. Ao UOL, o governo de Minas informou que o texto está em análise jurídica e que a etapa de elaboração técnica já foi concluída pela Subsecretaria de Política dos Direitos das Mulheres, ligada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social.

O governo estadual afirmou ainda repudiar qualquer forma de violência contra mulheres, incluindo a violência política, e disse manter o compromisso com a participação feminina na vida pública com liberdade e segurança.

A cobrança das candidatas ocorre justamente sobre essa distância entre a existência da legislação e sua aplicação prática. A crítica apresentada por elas é que registrar uma ameaça não deveria representar o fim da resposta institucional: também seriam necessárias proteção, investigação rápida e mecanismos capazes de impedir a repetição dos ataques.

O que caracteriza violência política de gênero

A Justiça Eleitoral define violência política de gênero como qualquer ação ou omissão que tente impedir ou dificultar que uma mulher exerça seus direitos políticos. A proteção alcança candidatas e mulheres que já ocupam cargos eletivos.

Entre as situações enquadradas estão ameaças de morte, agressões físicas ou sexuais, ataques à honra, perseguição, exposição de informações privadas, desinformação utilizada para intimidar e ataques digitais. A violência também pode assumir formas econômicas ou simbólicas, como retirada de recursos de campanha, interrupções sistemáticas e questionamentos relacionados à vida pessoal ou familiar da mulher.

No âmbito federal, a violência política de gênero passou a ser considerada crime eleitoral em 2021. O artigo 326-B do Código Eleitoral prevê punição para quem assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou detentora de mandato utilizando menosprezo ou discriminação relacionada à condição de mulher, cor, raça ou etnia com o objetivo de impedir ou dificultar sua campanha ou o exercício do mandato.

A pena prevista é de um a quatro anos de reclusão, além de multa.

Em Minas Gerais, o TRE-MG mantém canais específicos para denúncias e orientações. A Justiça Eleitoral também recomenda preservar mensagens, e-mails, imagens, vídeos, links e demais evidências, sempre priorizando a segurança da vítima.

Números mostram dimensão nacional do problema

Os casos registrados em Minas Gerais fazem parte de um cenário mais amplo.

Dados da Procuradoria-Geral da República apontam 427 registros de violência política de gênero no Brasil entre 2022 e agosto de 2026. Minas Gerais aparece com 39 casos no período, ficando atrás de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. As denúncias apresentadas pelas três candidatas mineiras em setembro ainda não estavam incluídas nesse levantamento.

Para a cientista política Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais, os episódios envolvendo as candidatas mineiras apresentam características que podem indicar ataques articulados por grupos de ódio e misóginos. A especialista também chama atenção para o efeito político dessas ameaças: além do medo e do desgaste emocional, elas retiram das candidatas tempo e recursos que deveriam ser destinados à campanha.

A discussão, portanto, ultrapassa a segurança individual das mulheres. Quando uma ameaça tem como objetivo fazer uma candidata abandonar uma campanha ou reduzir sua atuação pública, o episódio também interfere na própria disputa eleitoral.

O TRE-MG afirma que acompanha os casos por meio do Gabinete Integrado de Segurança das Eleições e mantém ações de conscientização, atendimento pela Ouvidoria da Mulher e articulação com outros órgãos públicos.

LEIA TAMBÉM

Governo enviou Orçamento de 2027 sem reajuste do Bolsa Família; aumento veio 17 dias depois

Entenda O Contexto

As ameaças contra Bella Gonçalves, Ana Elisa Silva e Andréia de Jesus foram registradas entre o início e a primeira metade de setembro, durante a campanha eleitoral de 2026 em Minas Gerais. As três candidatas receberam mensagens por e-mail com ameaças de morte e violência sexual. Em alguns casos, também foram mencionados dados pessoais das vítimas e de seus familiares. Os episódios foram encaminhados à Polícia Federal e ao Ministério Público Eleitoral.

O cenário ocorre em meio a outros episódios envolvendo candidatas mineiras. Lohanna França relatou novas ameaças e passou a utilizar um botão de pânico, enquanto Duda Salabert afirmou ter sido vítima de uma tentativa de homicídio durante uma fiscalização. As circunstâncias de cada caso são diferentes e as investigações ainda precisam esclarecer autoria, motivação e eventual conexão entre os episódios.

Minas Gerais possui desde 2023 uma lei específica de enfrentamento à violência política contra mulheres, mas a regulamentação estadual ainda não foi concluída. O governo afirma que o processo está em análise jurídica. No âmbito nacional, a violência política de gênero é crime eleitoral desde 2021 e pode resultar em pena de um a quatro anos de prisão e multa.

O debate ganhou força durante as eleições porque as ameaças não atingem apenas as candidatas individualmente. Quando mulheres deixam de participar da disputa ou precisam reduzir suas atividades públicas por medo de violência, a própria diversidade da representação política é afetada. Por isso, além da investigação dos casos concretos, candidatas e entidades cobram mecanismos de proteção capazes de responder rapidamente a ameaças durante o processo eleitoral.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS

Quem é Milton Leite, ex-presidente da Câmara de SP alvo de operação que investiga infiltração do PCC

Quem foi Anne Frank? A história da adolescente judia que virou símbolo da perseguição nazista e foi chamada de “vitimista”

Corinthians perde em casa, Memphis desperdiça pênalti e Timão cai na Libertadores

Carregar Comentários