Celina Schinen, de 65 anos, conseguiu por decisão judicial acesso à terapia CAR-T após enfrentar uma recaída do mieloma múltiplo, um câncer que se desenvolve na medula óssea. O tratamento utiliza células de defesa do próprio paciente, modificadas em laboratório para reconhecer e atacar as células tumorais.
A terapia está entre os tratamentos oncológicos mais caros disponíveis atualmente. Somente o produto pode custar cerca de R$ 3 milhões, enquanto o valor total pode chegar a R$ 4 milhões quando são incluídos internação, acompanhamento e manejo de possíveis complicações. No caso de Celina, o plano de saúde inicialmente negou o pedido e o acesso foi obtido após ela recorrer à Justiça.
Diagnóstico começou após cansaço e sangramentos
Celina praticava corrida quando percebeu um cansaço diferente do habitual. Mesmo em percursos aos quais estava acostumada, começou a sentir falta de fôlego. Depois, surgiram episódios de sangramento pelo nariz.
Exames identificaram uma anemia intensa e levaram ao encaminhamento para um hematologista. Em outubro de 2024, veio o diagnóstico de mieloma múltiplo.
O tratamento começou com quimioterapia em dezembro daquele ano. Em maio de 2025, Celina passou por um transplante de medula óssea e posteriormente iniciou as etapas de consolidação e manutenção da terapia.
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Câncer voltou cerca de um ano depois
Após o transplante e o tratamento de manutenção, exames mostraram que a doença havia retornado. Foi nesse momento que surgiu a possibilidade da terapia CAR-T.
O mieloma múltiplo ainda é tratado como uma doença sem cura definitiva na maioria dos casos, embora avanços terapêuticos estejam permitindo remissões cada vez mais prolongadas em determinados pacientes.
Especialistas já discutem o conceito de cura funcional em situações nas quais a doença permanece indetectável e sem progressão durante longos períodos, mesmo sem tratamento contínuo.
Como funciona a terapia CAR-T
A CAR-T utiliza os linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por ajudar o organismo a identificar e eliminar ameaças.
Primeiro, essas células são retiradas do sangue do próprio paciente. Depois, passam por uma modificação genética em laboratório para receber um receptor capaz de reconhecer um alvo existente na superfície das células cancerígenas.
No mieloma múltiplo, um dos principais alvos utilizados é a proteína BCMA. Depois de modificados e multiplicados, os linfócitos são devolvidos ao organismo e passam a procurar as células que carregam esse marcador.
Células viajam ao exterior para serem modificadas
O processo de fabricação é individualizado. Após a coleta, as células precisam ser encaminhadas a centros especializados de produção, que podem estar nos Estados Unidos ou na Europa.
Em laboratório, um vetor geneticamente modificado introduz nas células T as instruções necessárias para que elas produzam o receptor CAR. Depois, as células são multiplicadas, congeladas e enviadas de volta ao centro responsável pelo tratamento.
Antes da infusão, o paciente passa por um ciclo de quimioterapia preparatória. O objetivo é reduzir temporariamente determinados linfócitos e criar condições para a expansão e atuação das células modificadas.
Plano negou tratamento e paciente foi à Justiça
Apesar da indicação médica, Celina enfrentou uma barreira para iniciar o procedimento. O plano de saúde negou o custeio da CAR-T.
A paciente recorreu à Justiça e obteve uma decisão favorável. Entre a solicitação e a autorização judicial, o processo levou menos de um mês, segundo o relato apresentado no caso.
A discussão sobre o custeio desse tipo de terapia envolve as regras de cobertura dos planos de saúde e os critérios aplicados aos chamados produtos de terapia avançada.
CAR-T ainda está fora do rol obrigatório da ANS
A CAR-T ainda não integra o rol de cobertura obrigatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar nas condições discutidas no caso. A agência considera que produtos de terapia avançada precisam passar por avaliação técnica e participação social antes de eventual incorporação.
Segundo a ANS, até o momento nenhuma empresa apresentou proposta para incorporar a CAR-T ao rol. A terapia também não recebeu recomendação de incorporação ao Sistema Único de Saúde pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS.
A ausência no rol, entretanto, não significa que tratamentos fora da lista nunca possam ser custeados. A legislação e decisões judiciais estabelecem critérios para situações em que uma tecnologia não incorporada pode ter cobertura determinada, considerando fatores como prescrição médica, registro sanitário, alternativas disponíveis e evidências científicas.
Tratamento pode chegar a R$ 4 milhões
O custo é uma das maiores barreiras para ampliar o acesso à tecnologia. Uma aplicação comercial pode custar cerca de R$ 3 milhões apenas pelo produto.
Com internação e cuidados necessários antes e depois da infusão, o custo total pode chegar a aproximadamente R$ 4 milhões.
O valor elevado está relacionado, entre outros fatores, ao fato de o tratamento ser produzido individualmente. As células utilizadas pertencem ao próprio paciente e precisam passar por coleta, transporte, modificação genética, multiplicação e envio de volta ao hospital.
Terapia pode provocar reações graves
A CAR-T também exige acompanhamento especializado devido ao risco de efeitos adversos importantes.
Uma das complicações possíveis é a síndrome de liberação de citocinas, uma resposta inflamatória intensa desencadeada pela ativação das células modificadas. Também podem ocorrer manifestações neurológicas, como desorientação e alterações cognitivas e, nos casos mais graves, convulsões.
Por isso, pacientes submetidos ao procedimento precisam permanecer sob acompanhamento hospitalar e ser monitorados para que eventuais complicações sejam identificadas e tratadas rapidamente.
Acesso à tecnologia ainda é restrito no Brasil
O alto custo, o tempo necessário para fabricar as células e as discussões sobre cobertura tornam o acesso comercial à CAR-T restrito no país.
Especialistas também alertam para o impacto do tempo de espera. Em determinados cânceres de evolução rápida, atrasos para conseguir autorização podem interferir diretamente na possibilidade de o paciente chegar em condições clínicas adequadas ao tratamento.
Além do mieloma múltiplo, diferentes modalidades de CAR-T já são utilizadas contra alguns tipos de leucemias e linfomas. Pesquisadores também investigam aplicações da tecnologia em outras doenças, mas cada indicação depende de evidências específicas de segurança e eficácia.
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Entenda o contexto
A terapia CAR-T representa uma mudança na forma de tratar determinados cânceres do sangue porque transforma células do próprio sistema imunológico em uma terapia personalizada contra o tumor.
O procedimento começa com a retirada de linfócitos T do paciente. Essas células são modificadas geneticamente para reconhecer proteínas específicas presentes nas células tumorais e, depois de multiplicadas em laboratório, são infundidas novamente no organismo.
No caso de Celina, a indicação ocorreu depois da recaída do mieloma múltiplo após quimioterapia e transplante de medula óssea. O plano de saúde negou inicialmente o tratamento, e a paciente conseguiu acesso por meio de decisão judicial.
Embora a CAR-T tenha ampliado as possibilidades terapêuticas para determinados cânceres hematológicos, ela não representa garantia de cura. A resposta varia de acordo com a doença, as características do paciente e a modalidade utilizada, além de existir risco de efeitos adversos graves.
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