O Grupo SHC, controlador da JAC Motors Brasil e liderado pelo empresário Sergio Habib, entrou com um novo pedido de recuperação judicial nesta terça-feira (6), buscando reorganizar R$ 239,5 milhões em dívidas após uma queda de 51,1% nas vendas e crescente pressão de bancos e fundos credores. O processo deve definir se a operação da marca no país será mantida ou caminhará para liquidação.
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Por que a JAC Motors pediu recuperação judicial?
A JAC Motors Brasil recorre à recuperação judicial por causa de dificuldades graves de caixa, provocadas pela combinação de forte queda nas vendas, crédito caro e estratégias de negócio que não deram o resultado esperado. Em 2025, a marca emplacou 988 automóveis e comerciais leves, bem abaixo das 2.022 unidades do ano anterior — um tombo de 51,1%.
O cenário é ainda mais desfavorável porque aconteceu na contramão do mercado. No mesmo período, o setor de automóveis e comerciais leves no Brasil avançou 2,58%, alcançando 2,55 milhões de unidades vendidas. A linha de caminhões da JAC, que também atua no país, não entra nesses números, mas tende a sentir efeitos indiretos da crise.
Enquanto perdia espaço, o grupo acumulava dívida com bancos e fundos. Um grande banco sozinho tem mais de R$ 100 milhões a receber. Parte desses empréstimos foi garantida com veículos, que hoje são de difícil localização, o que já vinha travando as negociações entre credores e o grupo.
O pedido foi feito em um ambiente de crédito restrito, com a taxa básica de juros em 13,75% ao ano. Segundo um relatório econômico citado pelo processo, “a taxa Selic estava em 13,75% ao ano, mantendo elevados os custos de empréstimos e do financiamento de estoques”. Para uma importadora de veículos como a JAC Motors Brasil, o peso do financiamento de estoques e capital de giro é decisivo.
A recuperação judicial também reflete uma sequência de apostas que não se sustentaram financeiramente. A marca investiu em veículos elétricos importados como forma de reposicionar o negócio, mas o nicho ainda pequeno, a concorrência crescente e o custo dos modelos limitaram o ganho de escala. Antes disso, o ambicioso projeto de uma fábrica na Bahia, estimado em R$ 1 bilhão, ficou só no papel, deixando o grupo dependente da importação em um mercado volátil.
Agora, caberá à Justiça e aos credores avaliar um novo plano de reestruturação. Uma análise jurídica anexada aos autos resume o objetivo: “O novo processo agora deverá definir as condições para a reestruturação das dívidas e o futuro das empresas ligadas ao grupo”. Até o momento, o Grupo SHC não se manifestou publicamente sobre o pedido.
Qual o valor da dívida da JAC Motors na recuperação judicial?
O novo pedido de recuperação judicial do Grupo SHC envolve R$ 239,5 milhões em dívidas. Esse é o passivo listado na documentação apresentada à Justiça e concentra, sobretudo, obrigações com bancos e fundos financeiros.
Dentro desse montante, chama atenção a exposição de pelo menos um grande banco, que tem mais de R$ 100 milhões a receber. Outros credores financeiros também aparecem com valores significativos, e parte deles enfrenta dificuldades para retomar veículos dados em garantia, o que tende a ser um dos pontos mais sensíveis nas negociações.
Essa não é a primeira vez que o grupo chega a esse tipo de situação. O SHC passou por outro processo de recuperação judicial, iniciado com dívidas de R$ 517,7 milhões, cujo plano foi homologado após aprovação dos credores. “O plano de recuperação foi homologado em setembro de 2019, após aprovação dos credores”, registrou o grupo à época. O procedimento anterior foi encerrado em maio do ano passado, e o novo pedido ocorre cerca de um ano e cinco meses depois.
O que acontece com os clientes da JAC Motors durante a recuperação judicial?
Para quem já comprou um carro da JAC Motors Brasil, o pedido de recuperação judicial não significa, automaticamente, a paralisação de vendas ou do atendimento de pós-venda, mas aumenta a incerteza sobre o futuro da operação. Em regra, esse tipo de processo busca preservar as atividades da empresa enquanto ela negocia com credores.
Na prática, a continuidade de serviços como revisões, peças de reposição e garantias depende da capacidade do grupo de manter caixa e da disposição de concessionárias e oficinas credenciadas em seguir operando. Como a recuperação judicial congela parte das dívidas e reorganiza pagamentos, a intenção é justamente dar fôlego para que a empresa continue funcionando e não entre em falência imediata.
Por outro lado, a situação financeira fragilizada tende a afetar prazos de entrega de veículos, oferta de modelos e disponibilidade de estoque de peças. Fornecedores podem restringir crédito, e parte da rede de concessionárias pode optar por reduzir operações ou migrar para outras marcas, o que impacta a capilaridade do atendimento.
Do ponto de vista jurídico, contratos com consumidores — como garantias de fábrica e financiamentos já firmados — continuam válidos. Se no futuro o plano de recuperação não for cumprido e a Justiça decretar a falência, clientes passam a depender da atuação de importadores independentes, oficinas especializadas e do estoque remanescente de peças da rede, cenário que costuma tornar manutenção e revenda mais difíceis e, em alguns casos, mais caras.
Enquanto o novo plano não é apresentado e votado pelas assembleias de credores, o foco estará nas negociações com bancos e fundos, na tentativa de alongar prazos, reduzir encargos e evitar o desmonte imediato da operação da JAC Motors no país.
Entenda o contexto
A crise atual da JAC Motors Brasil se soma a uma trajetória marcada por ciclos de expansão rápida e recuos bruscos. A entrada da marca no país foi agressiva: em 2011, o grupo inaugurou 50 concessionárias em um único dia, buscando ganhar visibilidade diante de montadoras tradicionais. A rede chegou a ser apoiada por uma parceria de décadas com outra marca, que garantia volume e capilaridade.
Quando o mercado automotivo desacelerou e regras de programas de incentivo às montadoras mudaram, o grupo viu o negócio encolher e as margens apertarem. Na primeira recuperação judicial, o SHC afirmou em comunicado que “o grupo atribuiu as dificuldades à retração do mercado automotivo e às restrições do programa Inovar-Auto”, além do fim de sua antiga parceria comercial.
Em paralelo, o ambiente macroeconômico recente tem pressionado empresas dependentes de crédito e consumo. Juros altos encarecem o financiamento ao consumidor e o capital de giro das companhias. O quadro atinge outros grandes nomes do varejo e de bens duráveis: redes como Casas Bahia, com pedido de recuperação para R$ 17,3 bilhões, e Marabraz, com cerca de R$ 140 milhões em dívidas em reestruturação, também recorreram aos tribunais para tentar ganhar fôlego.
Levantamentos recentes apontam dezenas de processos de recuperação judicial em andamento no país, somando mais de duas centenas de empresas. Especialistas relacionam esse aumento à permanência dos juros elevados e à desaceleração da economia, o que atinge com mais força segmentos de tíquete alto, como o de automóveis.
