Lula e Flávio querem reduzir dependência de fertilizantes importados, mas divergem nas propostas

residente aposta na Petrobras e nos bioinsumos, enquanto candidato do PL defende explorar reservas nacionais de potássio e fosfato; especialistas apontam desafios para ampliar a produção.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A dependência brasileira de fertilizantes importados entrou no debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência no segundo turno das eleições de 2026. Os dois defendem ampliar a produção nacional de insumos agrícolas, mas apresentam caminhos diferentes para reduzir a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro às oscilações do mercado internacional.

Enquanto Lula aposta na participação da Petrobras, na recuperação de fábricas e no incentivo aos bioinsumos, Flávio Bolsonaro propõe aproveitar reservas minerais brasileiras, especialmente de potássio e fosfato. Apesar das diferenças, os programas de governo ainda deixam questões em aberto sobre os investimentos necessários, os prazos de execução e a capacidade de substituir parte das importações.

LEIA TAMBÉM

Fertilizantes pressionam custos e pioram relação de troca para o produtor

Lula aposta na Petrobras e na retomada de fábricas

O plano de governo de Lula prevê a continuidade dos investimentos na indústria nacional de fertilizantes, mantendo a Petrobras como uma das principais participantes da estratégia para ampliar a produção brasileira.

Durante o terceiro mandato do presidente, a estatal retomou iniciativas relacionadas às unidades de fertilizantes em Sergipe, Bahia e Paraná, além das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.

O projeto da UFN-III, que estava paralisado desde 2015, voltou a receber investimentos como parte da estratégia de ampliar a capacidade brasileira de produção de fertilizantes nitrogenados.

O governo argumenta que a produção nacional é necessária para diminuir a exposição do agronegócio a conflitos internacionais, restrições comerciais e aumentos nos custos de importação.

Outra prioridade apresentada no programa é o desenvolvimento de bioinsumos, produtos de origem biológica que podem ser utilizados na nutrição das plantas e em diferentes etapas do manejo agrícola.

A proposta é ampliar as alternativas disponíveis aos produtores e reduzir a dependência de determinados insumos químicos importados.

Flávio Bolsonaro defende exploração de potássio e fosfato

O senador Flávio Bolsonaro apresenta uma estratégia voltada ao aproveitamento das reservas minerais existentes no território brasileiro.

Seu plano de governo prevê apoiar a produção nacional de fertilizantes utilizando recursos como potássio e fosfato, matérias-primas essenciais para a fabricação de produtos utilizados nas lavouras.

O candidato argumenta que a dependência de fornecedores estrangeiros aumenta a vulnerabilidade do produtor rural e pode pressionar os preços dos alimentos.

A proposta está associada a outras medidas direcionadas ao agronegócio, como investimentos em infraestrutura logística, ampliação da capacidade de armazenamento e fortalecimento do seguro rural.

Entretanto, o programa não detalha como seriam financiados os investimentos necessários para ampliar a exploração mineral e transformar essas matérias-primas em fertilizantes disponíveis ao mercado.

Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome

A elevada dependência externa é um dos principais desafios enfrentados pelo setor agrícola brasileiro. Estimativas utilizadas no debate sobre a indústria nacional indicam que aproximadamente 85% dos fertilizantes consumidos no país são importados.

Essa situação expõe os produtores às variações do dólar, aos custos do transporte internacional e às mudanças na oferta dos países fornecedores.

Os fertilizantes são utilizados para fornecer nutrientes essenciais às plantações e têm papel importante na produtividade de culturas como soja, milho, café, algodão e cana-de-açúcar.

Quando os preços internacionais aumentam, os custos de produção também podem subir, reduzindo as margens de rentabilidade dos agricultores.

Além disso, conflitos geopolíticos e restrições comerciais podem provocar dificuldades no abastecimento, especialmente em períodos de maior demanda por insumos.

Reservas minerais não garantem produção imediata

Embora o Brasil possua reservas de potássio e fosfato, especialistas apontam que a existência desses recursos não significa que eles possam ser rapidamente transformados em fertilizantes.

No caso do fosfato, parte das reservas brasileiras apresenta menor concentração do mineral quando comparada às jazidas de importantes fornecedores internacionais, como Marrocos.

O processamento também depende de outros insumos industriais, incluindo amônia e enxofre, que podem precisar ser importados.

A situação é ainda mais complexa no mercado de potássio. Segundo dados citados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, a produção nacional representa menos de 3% do consumo brasileiro.

O país possui uma mina de potássio em operação em Sergipe e projetos de exploração em outras regiões, incluindo a Amazônia.

Essas iniciativas, porém, enfrentam desafios relacionados ao licenciamento, à infraestrutura, aos custos de implantação e à viabilidade econômica.

Quais são as diferenças entre as propostas?

A principal diferença entre os programas está na estratégia apresentada para ampliar a autonomia brasileira na produção de fertilizantes.

Lula prioriza a atuação da Petrobras, a recuperação de unidades industriais e o desenvolvimento de tecnologias alternativas, como os bioinsumos.

Flávio Bolsonaro enfatiza o aproveitamento das reservas minerais nacionais, principalmente de potássio e fosfato, para aumentar a oferta de matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes.

Apesar dessas diferenças, os dois candidatos reconhecem a importância de reduzir a dependência externa e ampliar a segurança do abastecimento.

Os programas, no entanto, não apresentam informações suficientes para determinar quanto cada estratégia custaria, em quanto tempo poderia produzir resultados ou qual parcela das importações seria efetivamente substituída.

Setor exige planejamento e investimentos de longo prazo

A expansão da indústria brasileira de fertilizantes depende de diferentes etapas, desde a extração das matérias-primas até a construção de fábricas, o processamento industrial e a distribuição dos produtos.

O setor também necessita de infraestrutura logística, disponibilidade de energia, financiamento e condições regulatórias adequadas para investimentos de longo prazo.

Em 2026, o Congresso Nacional avançou na discussão do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), iniciativa voltada ao incentivo da produção nacional e à redução da dependência de importações.

Para os produtores rurais, o fortalecimento da indústria brasileira pode contribuir para diminuir riscos relacionados ao abastecimento e às oscilações internacionais, embora não garanta, por si só, fertilizantes mais baratos.

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, as propostas dos candidatos para o setor integram o debate sobre os custos da produção agrícola e a capacidade do Brasil de ampliar sua autonomia em um mercado estratégico para a economia.

Carregar Comentários