Ao fim de sua 39ª Conferência Nacional, em São Paulo, o Partido da Causa Operária (PCO), liderado por Rui Costa Pimenta, decidiu orientar sua militância e seus eleitores a anular o voto no segundo turno presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), alegando que nenhum dos dois representa hoje os interesses da classe trabalhadora nem o projeto de revolução socialista defendido pela legenda.
A resolução aprovada no domingo (11), no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), e divulgada na segunda-feira (12), marca uma ruptura com a estratégia adotada em disputas anteriores, quando o PCO apoiou Lula. O partido afirma que o atual governo petista se integrou ao “regime” por meio de alianças com o Supremo Tribunal Federal (STF) e setores da direita, além de adotar uma política econômica vista como favorável aos bancos.
LEIA TAMBÉM
Decisão em conferência e críticas a Lula
A orientação pelo voto nulo foi apresentada pela direção nacional durante o informe político do presidente do partido e candidato à Presidência, Rui Costa Pimenta, e aprovada pelos delegados presentes. No primeiro turno, Pimenta recebeu 15.024 votos em todo o país.
Segundo o PCO, apoiar Lula neste momento significaria subordinar a classe trabalhadora a uma aliança que, na avaliação da sigla, está comprometida com o grande capital e com a preservação do atual arranjo institucional.
“Nossa posição é pela independência de classe e pela revolução. Não vemos que o Lula neste momento preencha essas condições”, afirmou Rui Costa Pimenta.
O dirigente argumenta que a candidatura petista deixou de expressar a oposição ao chamado “regime do golpe” e passou a defender sua estabilidade. Para ele, a aliança do PT com o STF é o ponto central dessa virada.
“O PT fez uma aliança com aquilo que tem de pior no regime político brasileiro, que é o STF. O PT compactuou com o atentado do STF contra os direitos democráticos da população. Ele não é um candidato de oposição que representa a oposição das massas ao regime político”, disse.
O partido também critica a política econômica do governo, citando o arcabouço fiscal e a ênfase no equilíbrio das contas públicas como mecanismos que, na prática, priorizariam os interesses do sistema financeiro. Para o PCO, esse conjunto de fatores impede que Lula seja apresentado como alternativa de transformação em favor dos trabalhadores.
Rejeição a Bolsonaro e defesa do voto nulo
Embora rejeite qualquer equivalência entre Lula e Flávio Bolsonaro, o PCO afirma que isso não altera sua conclusão sobre a necessidade do voto nulo. A candidatura do senador é classificada como reacionária e incompatível com o programa revolucionário do partido.
Rui Costa Pimenta afirmou que, apesar de algumas peças da campanha de Bolsonaro se apresentarem como defensoras de “liberdades democráticas”, isso não muda o caráter geral da candidatura.
“Logicamente que a candidatura do Flávio Bolsonaro não é revolucionária, não votaríamos nele de jeito nenhum. É uma candidatura que expressa, de um ponto de vista geral, tendências reacionárias”, declarou, em sua exposição à conferência.
Para o PCO, a pressão de setores da esquerda institucional pelo chamado voto útil em Lula, com o argumento de barrar a direita, ignora a natureza e o programa da legenda. Pimenta reiterou que a sigla se considera um partido da classe operária e, por princípio, prioriza candidaturas próprias ou de outros nomes que, mesmo não sendo revolucionários, possam impulsionar a mobilização popular.
“Nós somos um partido revolucionário, nós somos um partido da classe operária, nós só votamos em candidatos operários e, em geral, candidatos do PCO, que são candidatos revolucionários. O resto que pode acontecer é tudo exceção e, em geral, a exceção da exceção”, afirmou.
“Eleição não faz revolução”, diz Pimenta
Em sua fala à conferência, Rui Costa Pimenta voltou a criticar a ideia de que a solução para os problemas da classe trabalhadora passa pela disputa institucional. Ele diz que a participação do PCO nas eleições tem caráter tático, subordinado à estratégia de organizar a classe operária para um confronto mais amplo com a burguesia.
“Nós queremos a revolução socialista, a derrota da burguesia, e não vai ser a eleição que vai promover isso. Os objetivos fundamentais da classe operária só podem ser obtidos através da mobilização operária”, afirmou.
Pimenta também rebateu a narrativa, difundida por aliados de Lula, de que uma vitória de Flávio Bolsonaro levaria automaticamente à instalação de uma ditadura fascista no país. Para o presidente do PCO, o medo não pode substituir a análise da situação concreta nem transformar o voto em um candidato específico em obrigação moral para a esquerda.
Impacto na esquerda e próximos passos do PCO
A decisão tende a repercutir principalmente entre setores da esquerda radical e frações da classe trabalhadora que se identificam com o discurso de ruptura do PCO. Ao recusar o alinhamento automático com Lula contra Bolsonaro, o partido se distancia da lógica de unidade eleitoral em torno do “menos pior” e reforça a crítica às limitações do sistema político.
Na prática, a orientação pelo voto nulo pode reduzir a capacidade de setores petistas de apresentarem uma frente única de esquerda no segundo turno, ainda que o peso eleitoral direto do PCO seja limitado. Ao mesmo tempo, a legenda insiste que sua decisão não representa apoio velado a Bolsonaro, mas uma recusa a legitimar qualquer uma das duas candidaturas em disputa.
De acordo com dirigentes presentes à conferência, os próximos passos passam pelo reforço da atuação em sindicatos, movimentos sociais e comitês de base, com o objetivo de transformar a insatisfação com o quadro eleitoral em organização permanente. A linha defendida por Pimenta é que a campanha pelo voto nulo sirva também como instrumento de propaganda para a tese de que apenas a ação direta e a mobilização operária podem produzir mudanças estruturais.
Internamente, a resolução é apresentada como reafirmação da identidade do PCO como partido revolucionário, disposto a romper com alianças consideradas contraditórias com seu programa. Externamente, a mensagem é dirigida à esquerda institucional: a legenda quer cobrar uma revisão de rumos, especialmente no que vê como conciliação com o Judiciário, o sistema financeiro e parte da direita parlamentar.
Entenda o contexto
A nova orientação contrasta com a postura do PCO em disputas passadas, quando o apoio a Lula foi justificado como parte da luta contra governos e forças identificadas pela legenda como representantes diretos da burguesia e do “golpismo”. A direção sustenta que o cenário mudou com o atual mandato, especialmente pela aproximação do PT com o STF e lideranças da direita no Congresso.
Na leitura do partido, essa reconfiguração teria retirado de Lula o papel de polo de oposição ao regime político surgido após o impeachment de Dilma Rousseff, o que abre espaço para que o PCO volte a insistir em uma linha de “independência de classe” no plano eleitoral.