Quase nove em cada dez alegações sobre saúde verificadas pela Agência Lupa entre março de 2017 e junho de 2026 foram classificadas como falsas. O levantamento analisou 764 afirmações e identificou 667 conteúdos enganosos, o equivalente a 87,3% do total.
Os dados fazem parte do relatório “Raio-X da Desinformação em Saúde”, produzido pelo Observatório Lupa com apoio do grupo de educação médica Afya. O documento reúne quase uma década de checagens e mostra como promessas de cura, informações distorcidas e o uso indevido da imagem de profissionais da saúde ajudam a dar aparência de credibilidade a conteúdos falsos.
É importante destacar que o percentual se refere às alegações selecionadas e verificadas pela agência, e não a todas as informações sobre saúde publicadas na internet. Entre os conteúdos analisados, apenas 26 afirmações, ou 3,4%, foram classificadas como verdadeiras.
Falsos especialistas e mensagens alarmistas estão entre as estratégias
Uma das táticas mais frequentes identificadas pelo relatório foi o uso de falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,6% das alegações falsas. Isso inclui atribuir declarações inventadas a médicos reais, retirar falas de contexto ou apresentar pessoas como especialistas sem comprovação.
O uso do medo e de uma linguagem alarmista apareceu em 17,1% dos casos. Esse tipo de mensagem costuma associar vacinas, tratamentos ou produtos a consequências graves, sem apresentar evidências suficientes.
Outra estratégia é distorcer pesquisas e dados científicos, prática identificada em 15,7% das alegações. O relatório também aponta promessas de soluções simples para problemas complexos, como tratamentos supostamente capazes de curar doenças ou substituir medicamentos convencionais. Essa abordagem apareceu em 12,6% dos casos.
Vacinas continuam entre os principais alvos
A desinformação sobre vacinação permaneceu frequente mesmo depois da fase mais crítica da pandemia de Covid-19. Das 244 alegações sobre imunizantes examinadas no levantamento, 212 foram classificadas como falsas, o equivalente a 86,9%.
Durante a pandemia, as checagens sobre saúde aumentaram significativamente, com destaque para conteúdos relacionados à Covid-19. Nos anos seguintes, também ganharam espaço mensagens sobre supostas formas de eliminar efeitos das vacinas, além de publicações sobre diabetes, câncer e nutrição.
O levantamento mostra que a desinformação muda de tema e formato, mas continua recorrendo a mecanismos semelhantes para convencer o público, como o apelo emocional, a distorção de evidências e a promessa de resultados rápidos.
Promessas de cura também servem para vender produtos
O relatório identificou casos em que a desinformação sobre saúde é usada para estimular a compra de produtos e serviços. Entre 18 verificações relacionadas à exploração comercial, 17 envolviam algum tipo de oferta ao público.
A diabetes foi a doença mais explorada nesses conteúdos. Anúncios prometiam controlar ou reverter a condição, dispensar o uso de insulina e permitir mudanças na alimentação sem restrições. Algumas publicações também utilizavam imagens de médicos e celebridades sem autorização ou simulavam a aparência de páginas jornalísticas para parecer confiáveis.
Essas estratégias podem levar pessoas a gastar dinheiro com produtos sem eficácia comprovada e, em situações mais graves, abandonar tratamentos necessários. Suplementos alimentares, por exemplo, não devem ser apresentados como substitutos de medicamentos ou como cura para doenças.
WhatsApp aparece em mais de 70% das checagens
O WhatsApp foi a plataforma mais recorrente entre os conteúdos analisados, aparecendo em 70,5% das verificações consideradas pelo relatório. O Facebook foi identificado em 25,3% dos casos, enquanto o Instagram apareceu em 7%.
Os números, no entanto, não significam que o WhatsApp seja necessariamente a origem da maior parte das informações falsas sobre saúde. O estudo considera conteúdos encontrados ou encaminhados por diferentes canais, e uma mesma publicação pode circular em mais de uma plataforma.
Como identificar informações falsas sobre saúde
O relatório recomenda que plataformas digitais facilitem as denúncias de falsas curas, reduzam a monetização de conteúdos com alegações terapêuticas sem comprovação e suspendam anúncios de produtos que já tenham recebido alertas sanitários.
Para os usuários, alguns cuidados ajudam a evitar golpes e riscos à saúde:
- Confira a fonte: procure a informação em órgãos oficiais, instituições de pesquisa e veículos que identifiquem suas fontes.
- Desconfie de curas milagrosas: promessas de resultados rápidos ou garantidos merecem atenção redobrada.
- Verifique quem está falando: fotos, nomes e registros de médicos podem ser usados indevidamente para dar credibilidade a anúncios.
- Não interrompa tratamentos por causa de publicações: mudanças em medicamentos, vacinas ou terapias devem ser discutidas com profissionais de saúde.
A principal orientação é verificar a informação antes de compartilhar e buscar aconselhamento profissional antes de tomar decisões que possam afetar a saúde.