Um assessor ligado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria providenciado o jato particular utilizado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar o Brasil após a derrota na eleição presidencial. A informação foi publicada nesta quinta-feira (29) pelo jornal norte-americano The New York Times, que ouviu autoridades dos Estados Unidos e pessoas familiarizadas com a operação. Segundo a reportagem, Jason Miller, aliado da família Bolsonaro e integrante da estrutura de comunicação da Casa Branca, teria participado da organização do transporte.
A apuração também aponta que Trump autorizou a entrada temporária de Flávio, da esposa e das duas filhas nos Estados Unidos. O senador chegou a Miami na quarta-feira (28), após passar pela Argentina e pelo Equador, mesmo estando sujeito a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibia sua saída do território brasileiro. A Polícia Federal investiga as circunstâncias da viagem e o possível descumprimento da ordem judicial.
Aliado de Trump confirma que fuga de Flávio Bolsonaro foi arquitetada pelos EUA
Assessor de Trump teria organizado transporte do senador
Segundo o The New York Times, Jason Miller teria sido responsável por providenciar a aeronave particular utilizada por Flávio Bolsonaro para chegar aos Estados Unidos.
Miller é um aliado político da família Bolsonaro e possui vínculos com a estrutura de comunicação da administração Trump.
Uma pessoa familiarizada com a logística da viagem afirmou ao jornal que os preparativos começaram na segunda-feira (26), depois que o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes do senador.
A informação sugere que a organização do deslocamento ocorreu quando Flávio já estava submetido a restrições judiciais relacionadas à possibilidade de deixar o país.
Entretanto, a participação de Miller foi atribuída a fontes ouvidas pelo jornal americano. Não foi apresentada confirmação pública independente de que a Casa Branca tenha financiado o transporte ou disponibilizado recursos oficiais para a viagem.
Também não foi esclarecido quem pagou pelo fretamento da aeronave e se outros integrantes do governo norte-americano participaram da organização.
Trump autorizou entrada temporária de Flávio nos Estados Unidos
Outra informação divulgada pelo jornal diz respeito à situação migratória do senador.
Segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo New York Times, Flávio e seus familiares receberam autorização para entrar no país por meio do mecanismo conhecido como parole.
Esse procedimento permite que determinadas pessoas ingressem e permaneçam temporariamente nos Estados Unidos por razões humanitárias urgentes ou por benefício público significativo, mediante avaliação das autoridades competentes.
O parole não equivale à concessão automática de residência permanente nem representa necessariamente o reconhecimento de uma condição de refugiado.
Na quarta-feira (28), Donald Trump já havia confirmado publicamente que o governo americano autorizou a entrada do parlamentar.
O presidente, entretanto, evitou apoiar a declaração em que Flávio se apresentou como o verdadeiro vencedor da eleição brasileira e afirmou que não pretendia se envolver diretamente na controvérsia política.
Flávio poderá solicitar residência permanente
Uma autoridade americana também afirmou ao New York Times que Flávio Bolsonaro deverá solicitar futuramente o green card, documento que permite residência permanente nos Estados Unidos.
Segundo a fonte, o pedido poderá receber processamento acelerado, embora não exista confirmação de que a autorização definitiva tenha sido concedida.
O jornal mencionou como comparação o caso do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador, que obteve residência permanente nos Estados Unidos em julho deste ano.
A possibilidade de um pedido de green card ainda depende de procedimentos migratórios e de decisões das autoridades responsáveis.
Portanto, a autorização temporária de entrada não deve ser confundida com a concessão de residência permanente.
Passaportes foram cancelados após ordem do STF
A viagem ocorreu depois que a Polícia Federal solicitou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro, conforme decisão do ministro Alexandre de Moraes.
A determinação foi tomada no contexto de investigações que envolvem o senador e o advogado Willer Tomaz, relacionadas a suspeitas de irregularidades financeiras.
Outra frente de investigação examina movimentações vinculadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As suspeitas ainda são objeto de apuração e não representam uma condenação dos investigados.
De acordo com a reportagem americana, Flávio não entregou os documentos dentro do prazo estabelecido, e as autoridades brasileiras providenciaram o cancelamento dos passaportes e a emissão de um alerta migratório.
O New York Times também relatou ter identificado indícios, por meio de registros públicos norte-americanos, de que o senador apresentou um passaporte diplomático brasileiro já cancelado ao chegar aos Estados Unidos.
Essa informação acrescenta uma nova questão à investigação sobre os documentos utilizados durante o deslocamento internacional.
Viagem passou pela Argentina e pelo Equador antes de Miami
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil na noite de terça-feira (27), acompanhado da esposa e das duas filhas.
Segundo informações atribuídas às autoridades migratórias argentinas, a família entrou no país vizinho por volta das 22h50, utilizando a Ponte da Fraternidade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na Argentina.
Cerca de 40 minutos depois, os integrantes da família embarcaram em uma aeronave da empresa privada Baires Fly.
O voo seguiu para Guayaquil, no Equador, onde realizou uma escala antes de continuar até Miami, na Flórida.
A chegada aos Estados Unidos ocorreu na manhã de quarta-feira (28).
O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos confirmou ao jornal americano que Flávio e os familiares passaram por inspeção das autoridades de fronteira e receberam autorização para ingressar no país.
A Polícia Federal brasileira informou não ter localizado registros oficiais da saída do parlamentar pelos controles migratórios nacionais e investiga as circunstâncias da viagem.
Polícia Federal investiga possível descumprimento de decisão judicial
A investigação brasileira busca esclarecer como Flávio Bolsonaro deixou o território nacional, quais documentos foram utilizados e se houve participação de terceiros na organização do deslocamento.
A possível atuação de empresários, intermediários e pessoas ligadas ao governo americano também poderá ser relevante para reconstruir os acontecimentos.
A Polícia Federal ressaltou, porém, que o descumprimento de restrições de circulação e o cancelamento de documentos não significam automaticamente que uma pessoa deva ser considerada foragida, nem justificam, isoladamente, uma prisão.
Qualquer medida adicional depende da análise das circunstâncias específicas do caso e de decisão judicial.
A reportagem do New York Times acrescenta informações sobre a participação de pessoas ligadas à administração Trump, mas ainda não estabelece eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.
Casa Branca não detalhou participação no transporte
Questionada sobre a operação, a Casa Branca remeteu às declarações públicas de Donald Trump, que já havia confirmado a autorização para a entrada do senador brasileiro nos Estados Unidos.
O governo americano não apresentou, nas informações divulgadas até o momento, detalhes sobre a contratação da aeronave ou sobre a possível participação de Jason Miller na logística da viagem.
O presidente argentino, Javier Milei, também não comentou o caso, segundo a reportagem.
Após chegar a Miami, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta em que afirmou ser alvo de perseguição política e agradeceu a Trump e Milei pelo apoio recebido.
Na primeira versão do documento, o senador se apresentou como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de domingo (25).
Posteriormente, alterou parte da declaração, passando a se identificar como líder do Brasil. O senador também alegou fraude eleitoral, mas não apresentou provas que sustentassem a acusação.
Próximos passos
A Polícia Federal deverá continuar investigando as circunstâncias da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e a possível participação de terceiros na organização do transporte.
As novas informações sobre Jason Miller e a autorização migratória concedida pelos Estados Unidos poderão ampliar os questionamentos sobre o envolvimento de pessoas ligadas à administração Trump.
Também permanecem sem esclarecimento público o financiamento do jato particular e a extensão da participação de integrantes do governo norte-americano na operação.
Enquanto isso, Flávio permanece nos Estados Unidos e poderá iniciar os procedimentos para solicitar residência permanente, conforme as informações atribuídas às autoridades americanas.
Até o momento, a autorização de entrada foi confirmada publicamente, mas a participação operacional da Casa Branca no fretamento da aeronave ainda depende de esclarecimentos adicionais.