Polícia aponta que empresário da Saúde movimentou R$ 5,6 milhões com operadores do PCC

Investigação revela esquema de lavagem de dinheiro em que Thiago Telles pagava taxa para receber dinheiro vivo do tráfico. Empresas do grupo têm contratos milionários com o governo de Goiás.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O empresário Thiago Telles, figura central na operação da Polícia Civil de São Paulo que investiga o uso de verbas da Saúde para lavagem de dinheiro, teria movimentado R$ 5,68 milhões em transações com intermediários do Primeiro Comando da Capital (PCC) entre os anos de 2023 e 2025.

A apuração indica que as empresas sob o controle de Telles atuavam em um sofisticado esquema para “esquentar” dinheiro oriundo do tráfico de drogas, exploração de jogos de azar e fraudes. O agravante é que parte desse núcleo empresarial possui contratos milionários com o governo de Goiás, intermediados por uma Organização Social (OS).
A taxa de 4% e o dinheiro vivo

O relatório da Polícia Civil — baseado em comprovantes bancários extraídos de celulares apreendidos na Operação Falso Mercúrio (dezembro de 2025) e na Operação Falsa Las Vegas (deflagrada nesta quinta-feira, 28) — detalha o modus operandi da fraude financeira.

O conjunto de firmas ligadas a Telles pagou R$ 3,8 milhões aos operadores do PCC e recebeu de volta R$ 1,8 milhão. A dinâmica, segundo os investigadores, funcionava como uma “compra” de dinheiro em espécie.

O empresário repassava altos valores às contas bancárias dos criminosos para justificar movimentações contábeis. Em troca, o PCC devolvia o montante em dinheiro vivo a Telles para que ele utilizasse em outras atividades fora do radar do sistema financeiro. Pelo “serviço” de lavagem e fornecimento de espécie, a facção cobrava uma taxa de 4% sobre cada operação.

O “Tom Cruise” e a empresa em comum

No submundo da facção, Thiago Telles, que se apresenta no meio corporativo como diretor de novos negócios e presidente da Mediplus, era conhecido pelo apelido de “Tom Cruise”. Para a polícia, a ostentação do cargo executivo esconde sua real função: a de operador e “beneficiário final” da lavagem de dinheiro do PCC.

A empresa Mediplus Serviços Médicos é o principal elo entre o dinheiro público e as contas da facção.

De um lado, a firma recebeu cerca de R$ 37 milhões entre 2020 e 2025 prestando serviços aos hospitais estaduais de Goiás, geridos pela OS Imed. Do outro, os extratos da polícia mostram que a mesma Mediplus transferiu R$ 2,3 milhões para intermediários do PCC entre 2023 e 2024.
O elo da Medic360

A investigação também esbarrou em uma segunda empresa prestadora de serviços médicos que atua em Goiás: a Medic360 Serviços Médicos. A companhia faturou R$ 34 milhões do governo goiano (via Imed) apenas em 2025.

A polícia identificou que a Medic360 realizou transferências suspeitas que coincidem com os pagamentos de Telles. Em um único dia, 16 de abril de 2024, enquanto a Mediplus enviava R$ 361 mil aos operadores da facção, a Medic360 repassou outros R$ 426 mil ao mesmo grupo.

O dinheiro caiu nas contas de revendedoras de veículos que, segundo o Coaf, funcionam como laranjas para as transações ilícitas do Primeiro Comando da Capital.
Defesas

Em nota, a empresa Mediplus declarou que “não praticou nenhum ato ilícito” e negou as acusações de envolvimento com o crime organizado. O empresário Thiago Telles não se manifestou oficialmente sobre as revelações do inquérito. A Secretaria de Saúde de Goiás já havia se manifestado informando que as contratações são de responsabilidade da OS responsável pelos hospitais.

Nota Secretaria de Estado da Saúde – Governo de Goiás

Os contratos firmados pela Organização Social referem-se exclusivamente a serviços de apoio operacional e administrativo indispensáveis ao funcionamento da unidade, como tecnologia da informação, fornecimento de insumos, suporte técnico e capacitação profissional.

A contratação de fornecedores pelas Organizações Sociais é de responsabilidade exclusiva da entidade gestora, não dependendo de autorização prévia da Secretaria de Estado da Saúde. À SES-GO cabe fiscalizar rigorosamente a execução do contrato de gestão, o cumprimento de metas, indicadores de desempenho, qualidade da assistência prestada e a correta aplicação dos recursos públicos — atribuições exercidas permanentemente e com absoluto rigor técnico.

Importante destacar que a própria Secretaria da Saúde já encaminhou denúncias e informações aos órgãos de controle e investigação em situações anteriores, o que contribuiu diretamente para a deflagração de operações policiais. O fato evidencia o compromisso da atual gestão com a transparência, o fortalecimento dos mecanismos de controle e a política de tolerância zero contra qualquer indício de irregularidade ou mau uso do dinheiro público.

A SES-GO e a Controladoria-Geral do Estado mantêm monitoramento contínuo sobre todos os contratos de gestão em vigor. Desde 2023, o Governo de Goiás ampliou a estrutura de fiscalização com a criação da Subsecretaria de Controle Interno e Compliance e com a atuação direta de delegado da Polícia Civil no âmbito da pasta para apuração imediata de qualquer suspeita envolvendo recursos públicos.

Carregar Comentários