O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi retirado de sua residência sob forte esquema de segurança e transferido para uma unidade militar na madrugada deste sábado (7), após protestos e confrontos entre manifestantes e policiais em Assunção. O político, destituído do cargo na sexta-feira (6), estava em prisão domiciliar por determinação do Ministério Público, no âmbito das investigações sobre o colapso do Ueno Bank.
Centenas de manifestantes se concentraram nas proximidades da residência do ex-presidente, no bairro Mburucuyá, para exigir que ele fosse encaminhado a um presídio comum. A mobilização começou como uma vigília, mas terminou em confrontos com a Polícia Nacional. Durante a operação, agentes utilizaram meios de dispersão, e houve registro de pelo menos um policial ferido.
Pouco antes da meia-noite, um comboio com quatro caminhonetes deixou a residência transportando Peña até o Regimento de Escolta Presidencial, unidade das Forças Armadas responsável pela segurança de autoridades. Imagens divulgadas pela imprensa paraguaia mostram manifestantes arremessando ovos e gritando insultos contra os veículos. A transferência foi justificada pelas autoridades como uma medida de segurança.
Ex-presidente do Paraguai é preso após impeachment em meio a escândalo bancário
Protestos contra Santiago Peña terminam em confronto com a polícia
A manifestação começou na sexta-feira, quando moradores e integrantes de movimentos populares passaram a se reunir diante da residência do ex-presidente.
Os participantes exigiam que Peña deixasse a prisão domiciliar e fosse levado para uma unidade prisional comum, argumentando que a medida representava um tratamento privilegiado diante da gravidade das suspeitas investigadas.
Com o passar das horas, a concentração aumentou e o clima ficou mais tenso. Manifestantes tentaram avançar sobre as barreiras de proteção instaladas pela polícia nas proximidades da casa.
Durante os confrontos, agentes utilizaram munições de borracha e gás lacrimogêneo para dispersar grupos que tentavam ultrapassar o bloqueio.
Um comissário da Polícia Nacional ficou ferido após ser atingido por um projétil.
A corporação afirmou que havia identificado a possível presença de infiltrados envolvidos nos episódios de violência. Entretanto, até o momento, não foram apresentadas publicamente provas que permitam confirmar a participação desses grupos.
Ex-presidente foi levado para unidade especial das Forças Armadas
Diante da dificuldade de manter a segurança nas proximidades da residência, as autoridades decidiram transferir Santiago Peña para o Regimento de Escolta Presidencial (REP), em Assunção.
O local é uma unidade militar responsável pela proteção do presidente da República, de seus familiares, de ex-presidentes e de autoridades estrangeiras durante visitas oficiais ao país.
A retirada aconteceu pouco antes da meia-noite, em uma operação que envolveu ao menos quatro caminhonetes.
Durante a saída do comboio, manifestantes arremessaram ovos contra os veículos oficiais e gritaram palavras de ordem contra Peña.
O ex-presidente passou a noite sob custódia na unidade militar, enquanto o Ministério Público dava continuidade aos procedimentos relacionados à investigação criminal.
A transferência não representa uma condenação judicial. Peña permanece investigado e tem direito à defesa.
Santiago Peña deve prestar depoimento ao Ministério Público
O ex-presidente foi convocado para prestar depoimento neste sábado (7), no âmbito das investigações sobre possíveis irregularidades ligadas ao Ueno Bank.
O Ministério Público informou que a audiência seria realizada presencialmente. Inicialmente prevista para a Unidade Especializada em Crimes Econômicos e Anticorrupção, a oitiva foi transferida para a sede da Procuradoria-Geral do Estado por razões de segurança.
Peña é investigado por suspeitas que incluem lesão de confiança, tráfico de influência e administração em benefício próprio.
O ex-presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Dagoberto Carvallo Spalding, também foi detido no mesmo caso e convocado para prestar esclarecimentos.
A investigação busca determinar se houve participação de autoridades públicas em possíveis irregularidades financeiras envolvendo o banco.
A defesa de Peña contesta a necessidade da detenção e afirma que o ex-presidente está disposto a colaborar com as autoridades.
Crise do Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro
A crise política no Paraguai começou após a intervenção do Banco Central no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país.
O banco, que atendia aproximadamente 3 milhões de clientes, teve suas atividades suspensas depois que a autoridade monetária identificou problemas graves de solvência.
As investigações também apontam suspeitas de operações financeiras irregulares envolvendo empresas ligadas ao grupo controlador da instituição.
O Ueno Bank concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos, incluindo recursos relacionados à Previdência Social.
O bloqueio das operações deixou consumidores sem acesso imediato às contas, provocou protestos em diferentes cidades e ampliou a pressão sobre o governo.
Peña havia mantido participação societária em uma empresa ligada ao grupo controlador do banco até 2025. Essa relação passou a ser questionada durante a investigação e pelo Congresso paraguaio.
Entretanto, a existência de vínculos empresariais anteriores não comprova, por si só, a prática de crimes.
Crise do Ueno Bank deixa quase 3 milhões sem acesso ao dinheiro e ameaça governo do Paraguai
Impeachment derrubou Santiago Peña da Presidência
Santiago Peña foi destituído do cargo na sexta-feira (6), após o Senado paraguaio concluir o processo de impeachment aberto em meio à crise bancária.
O afastamento foi aprovado por 44 senadores, encerrando o mandato presidencial iniciado em agosto de 2023.
Na quinta-feira (5), Peña havia anunciado sua renúncia, mas o Congresso prosseguiu com o julgamento político.
Com a destituição, o então vice-presidente Pedro Alliana assumiu o comando do Paraguai, com mandato previsto até agosto de 2028.
Poucas horas depois da decisão do Senado, agentes da Polícia Nacional compareceram à residência de Peña para executar uma ordem de detenção emitida pelo Ministério Público.
Inicialmente, foi determinado que ele permanecesse em prisão domiciliar até a apresentação às autoridades responsáveis pela investigação.
A concentração de manifestantes diante do imóvel, entretanto, levou à mudança do local de custódia.
Professores anunciam greve nacional em meio à crise
A crise do Ueno Bank também provocou mobilizações de categorias profissionais preocupadas com a situação dos depósitos e dos recursos previdenciários.
A Federação de Educadores do Paraguai (FEP), entidade que reúne mais de 40 mil professores associados, convocou uma paralisação nacional por tempo indeterminado a partir de segunda-feira (9).
A categoria também anunciou uma grande manifestação para exigir garantias sobre os recursos ligados à Caja Fiscal e aos fundos de aposentadoria.
A principal preocupação envolve a recuperação do dinheiro aplicado na instituição financeira e a proteção dos benefícios previdenciários.
Além dos professores, estudantes da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional de Assunção e integrantes de organizações civis participaram de mobilizações exigindo responsabilização pelas irregularidades investigadas.
Atos também foram registrados em cidades do interior, ampliando a dimensão nacional da crise.
Próximos passos
O Ministério Público deverá avançar na análise das provas reunidas para determinar eventuais acusações formais contra Santiago Peña e outros investigados.
A Justiça também poderá avaliar a manutenção da custódia na unidade militar ou a adoção de outra medida cautelar.
Paralelamente, o governo de Pedro Alliana enfrenta a pressão para acelerar o ressarcimento dos clientes do Ueno Bank e garantir a proteção dos recursos públicos afetados pela crise.
A paralisação convocada pelos professores para segunda-feira (9) poderá ampliar as manifestações, enquanto a população aguarda respostas sobre o destino dos depósitos bloqueados e a responsabilização dos envolvidos.
Até o momento, as suspeitas contra Peña permanecem sob investigação, sem condenação criminal definitiva.