Isabelle Drummond se despede de Naiane, de “Coração Acelerado”, neste fim de julho, enquanto corre entre gravações finais, ensaios e a preparação para um show da novela em Goiânia.
A reta final marca uma virada delicada na trajetória de uma atriz que trabalha desde os 6 anos e, ao mesmo tempo, tenta abrir espaço para descanso, novos projetos e o desejo de construir uma família.
Despedida sem pausa e férias cronometradas
O fim da novela não traz folga imediata. Isabelle ainda cumpre semanas de gravação e se dedica ao show especial de “Coração Acelerado” na capital goiana no fim do mês, evento que deve mobilizar fãs e elenco.
Ela conta que a pausa verdadeira só chega em agosto, e mesmo assim com prazo de validade. “Férias mesmo só vou tirar em agosto, quando pretendo passar um mês fora do país. Mas preciso voltar no final do mês porque já tenho compromissos de trabalhos agendados. Posso me considerar uma inimiga do desemprego, tenho esse histórico”, diz.
A definição sintetiza o ritmo que acompanha a artista desde a infância. “Sou artista e trabalhadora desde os 6 anos de idade. Faz parte da minha personalidade. Gosto de férias, mas de férias produtivas”, afirmou em entrevista recente.
O planejamento ilustra um cenário comum no entretenimento: mesmo quando uma novela termina, contratos, campanhas e novos projetos mantêm a engrenagem ligada. A janela de um mês vira mais ajuste de rota do que interrupção da carreira.
Naiane, redes sociais e a vida como produto
Naiane, sua personagem em “Coração Acelerado”, funciona como espelho distorcido da cultura digital. É uma influenciadora que transforma cada gesto em conteúdo, cada drama íntimo em espetáculo para as redes.
Isabelle, que cultiva imagem discreta e evita exposição excessiva, precisou atravessar uma fronteira pessoal para habitar esse universo. “A Naiane me trouxe esse lugar digital, da vida pessoal vista como um produto, algo muito comum para os influenciadores hoje. Ela é toda feita de excessos, enquanto eu sou extremamente minimalista. Esta experiência foi muito expansiva e me trouxe ótimas reflexões”, conta.
As cenas que levam ao limite a lógica de likes, engajamento e cancelamentos acabam servindo de comentário sobre o presente. A atriz admite que, embora a novela brinque com o absurdo, muitos enredos nascem de situações reais vistas diariamente nas redes.
Esse choque entre o perfil reservado da artista e a persona ruidosa de Naiane ajuda a iluminar um debate que mobiliza bastidores da televisão e do meio digital: até onde vale transformar intimidade em capital simbólico e financeiro. Para uma geração de atrizes e atores acostumados a ver a própria vida discutida online, cada escolha de exposição tem peso.
Reencontro com Leandra Leal e memória de carreira
A despedida de Naiane também traz uma espécie de retorno ao passado. Em “Coração Acelerado”, Isabelle volta a contracenar com Leandra Leal, que interpreta sua mãe na trama. As duas estiveram juntas em “Cheias de Charme”, em 2012, quando a então adolescente descobria o horário das 19h.
“Quando fiz ‘Cheias de Charme’, eu era menor de idade. Hoje, a Lelê já tem dois filhos, e nossa perspectiva é totalmente diferente”, diz Isabelle. O reencontro agora, ambas em fases de vida distintas, deu outro peso às cenas de mãe e filha “loucas, completamente equivocadas e desconectadas da vida real”, como ela descreve nos bastidores. “Foi muito bonito nos reconhecermos neste novo lugar para construir esta relação. Nos inspiramos muito uma na outra nesse processo.”
A memória de quem cresceu diante das câmeras reaparece com força na reta final da novela. Ao revisitar o início de carreira, a atriz reconhece o impacto de tantos anos em ritmo acelerado, quase sem intervalos, e a necessidade de calibrar ambição profissional, saúde e vida pessoal.
Fé, trabalho feminino e desejo de maternar
Fora de cena, Isabelle se define como cristã praticante. A fé, segundo ela, orienta decisões e a forma como lida com o sucesso. Em meio à transição entre projetos, a atriz fala em “equilíbrio” como objetivo constante, algo que envolve tempo para oração, família, amigos e descanso.
Nesse contexto, ganha peso seu desejo de ser mãe. “Quero ser mãe, mas ainda tenho que pensar um pouco. Existem formas diferentes de ser mãe. Não sei como será ainda, mas pretendo”, afirma. A fala ecoa entre fãs que acompanham sua vida afetiva e se perguntam sobre casamento, filhos, rotina doméstica.
Em vez de detalhes íntimos, Isabelle entrega reflexão. “Sou da teoria de que trabalhamos seis dias e descansamos um, mas esse trabalho não precisa ser remunerado. Cuidar de casa, dos filhos, realizar trabalhos sociais ou cuidar dos animais também são trabalhos. A mulher sempre trabalhou muito, mesmo quando não tinha permissão social para ter uma profissão.”
A defesa da valorização do cuidado, muitas vezes invisível e não pago, insere sua fala num debate mais amplo sobre o papel do trabalho feminino na economia e na vida cotidiana. Ao somar maternidade em perspectiva, carreira consolidada e espiritualidade, a atriz articula uma imagem de mulher que não abre mão do ofício artístico, mas reivindica outras dimensões da própria biografia.
Próximos passos e expectativas
Com “Coração Acelerado” na reta final, o show em Goiânia e novos compromissos já alinhados, Isabelle atravessa a transição sem hiato. A curiosidade sobre qual será sua próxima novela ou série cresce na mesma medida em que o público acompanha suas falas sobre maternidade e vida pessoal.
No curto prazo, o roteiro está traçado: concluir as gravações, subir ao palco com o elenco, embarcar para o exterior em agosto e voltar antes do fim do mês para cumprir a agenda. No médio prazo, permanece em aberto como e quando a maternidade entrará nessa equação.
A resposta, por enquanto, fica suspensa entre orações, reuniões de trabalho e voos marcados. O que se desenha é uma nova etapa em que a “inimiga do desemprego” tenta, ao menos por algumas semanas, desacelerar o próprio coração.