Renan Santos, ex-líder do Movimento Brasil Livre (MBL), é oficializado candidato à Presidência da República pelo partido Missão em 20 de julho, em Brasília. A sigla, reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral em novembro de 2025, entra na disputa nacional vendendo a imagem de um projeto “completamente digital” e de ruptura com os polos encarnados por Lula e Flávio Bolsonaro.
Um outsider que mira a polarização
A candidatura ganha corpo num ambiente em que a política brasileira continua organizada em torno da disputa entre petismo e bolsonarismo. Renan tenta transformar o desgaste dessa polarização em capital eleitoral, oferecendo-se como alternativa para quem rejeita os dois campos. Em sua leitura, o país teria ficado prisioneiro de um duelo que bloqueia reformas profundas.
Natuza Nery, jornalista que acompanha a pré-campanha, resume a estratégia de comunicação: “Renan aumentou sua exposição nas redes sociais e buscou se apresentar como o candidato que é ao mesmo tempo anti-Lula e anti-Flávio Bolsonaro”. A frase sintetiza o eixo central da narrativa do Missão: atacar os dois principais polos ao mesmo tempo, sem se reconhecer como uma nova vertente do bolsonarismo nem como desdobramento da centro-direita tradicional.
Essa posição tem custo e oportunidade. De um lado, afasta eleitores cativos de Lula e de Flávio Bolsonaro. De outro, mira um contingente expressivo de brasileiros que se declara cansado da briga permanente e que passou os últimos anos votando “contra alguém”, não “a favor de algo”.
Do MBL às urnas nacionais
A trajetória de Renan ajuda a explicar a proposta do Missão. Um dos fundadores do MBL em 2014, ele ganha projeção na condução das manifestações que pressionam pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016. O movimento, então, se torna símbolo da nova direita de rua, organizada em redes sociais, com linguagem de memes e estética de protesto juvenil.
Em 2018, o MBL embarca na candidatura de Jair Bolsonaro e contribui para a onda que o leva ao Planalto. O casamento, porém, dura pouco. Com o avanço do governo, choques de agenda, estilo e acusação de autoritarismo levam ao rompimento ainda durante o mandato de Bolsonaro. Renan se reposiciona como crítico do ex-aliado e busca reconstruir sua identidade política longe do bolsonarismo raiz.
Desse laboratório nasce o Missão, legenda que herda quadros e métodos do MBL, mas busca distância da imagem de movimento apenas de rua. O reconhecimento pelo TSE em novembro de 2025 dá à sigla o direito de disputar a Presidência já neste ciclo eleitoral. A direção decide antecipar a própria estreia nacional com a candidatura de Renan e tentar transformar a força digital em votos.
Thomas Traumann, comentarista político, define o DNA da legenda: “Missão é partido que nasce ‘completamente digital’”. A frase descreve não só a estética, mas a estrutura: comunicação prioritária em redes, militância organizada em grupos de mensagens e pouca dependência de diretórios tradicionais.
Propostas duras e inspiração externa
No conteúdo, Renan se inspira em dois líderes estrangeiros que viram referência para setores inconformados com o status quo latino-americano: o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele. Do primeiro, absorve o discurso de choque liberal na economia; do segundo, o modelo de guerra frontal ao crime organizado.
O programa do Missão fala em “desfavelização” como eixo da política urbana, numa combinação de remoção de áreas dominadas por facções e intervenção massiva em habitação. Propõe uma “guerra ao crime organizado” com medidas de endurecimento penal e reestruturação de forças de segurança, em linha com a retórica de Bukele em El Salvador.
Na gestão do Estado, defende a fusão de municípios, com a promessa de reduzir custos administrativos e enxugar estruturas locais consideradas ineficientes. É uma agenda que mexe diretamente com prefeitos, vereadores e máquinas regionais inteiras. Em política social, o choque é maior: o plano fala no fim do Bolsa Família, programa que hoje é o principal mecanismo de transferência de renda do governo federal.
A combinação dessas propostas coloca o Missão em confronto direto com pilares construídos ao longo das últimas décadas: o modelo de proteção social baseado em renda mínima e a organização municipalista que sustenta alianças políticas país afora. A candidatura se apresenta como ruptura, não como ajuste fino.
Quem ganha e quem perde com o Missão
A presença de Renan na corrida presidencial tende a fragmentar ainda mais o campo antipetista, já disputado por figuras próximas a Jair e Flávio Bolsonaro e por candidatos de centro-direita. A diferença é que o Missão aposta mais no conflito com o bolsonarismo do que na aliança tática. Ao bater nos dois lados, tenta se colocar como terceira via real, e não como linha auxiliar de nenhum polo.
Se a estratégia der certo, lideranças que sobrevivem eleitoralmente graças à polarização podem perder terreno. Isso vale tanto para parlamentares alinhados ao governo Lula quanto para nomes que orbitam a família Bolsonaro. Um crescimento consistente de Renan nas pesquisas obrigaria os dois campos a recalcular narrativas, buscando reabsorver o eleitorado antipolarização ou demonizar o novato.
No plano local, a proposta de fusão de municípios ameaça redes de poder sedimentadas. Prefeituras pequenas, câmaras municipais e estruturas regionais que vivem de repasses federais e estaduais veriam suas posições em risco. Governadores e deputados estaduais, por sua vez, precisariam se posicionar diante de uma agenda que mexe com seus currais eleitorais.
O fim do Bolsa Família, se algum dia aprovado nos termos propostos, alteraria o desenho da proteção social no país. Milhões de famílias hoje dependem do benefício para compor renda mínima. A discussão sobre o que entraria no lugar tende a mobilizar especialistas, movimentos sociais e governadores de estados mais pobres.
Mídia, redes e o teste das urnas
A candidatura de Renan chega às telas e aos fones antes de ganhar corpo nas ruas. O podcast “O Assunto”, do g1, dedica um episódio especial à sua trajetória e ao programa do Missão. Desde 2019, o podcast soma mais de 168 milhões de downloads em plataformas de áudio e 14,2 milhões de visualizações no YouTube, números que dão dimensão da vitrine ocupada pelo novo candidato.
O Missão tenta transformar essa exposição em engajamento permanente. Lives, cortes em vídeo, newsletters e grupos em aplicativos de mensagem formam a espinha dorsal da campanha. A aposta é que uma legenda nascida na internet tenha vantagem na disputa por atenção, sobretudo entre eleitores jovens e desiludidos com a política tradicional.
O teste real, porém, virá nas próximas semanas, quando pesquisas de intenção de voto começarem a medir o impacto da oficialização. Se Renan aparecer acima da margem de erro, tende a virar alvo prioritário de ataques dos dois polos que critica. Se estacionar, corre o risco de repetir a trajetória de outras candidaturas que brilharam nas redes, mas não atravessaram a barreira das urnas.
Enquanto isso, a agenda inspirada em Milei e Bukele promete esquentar o debate público. Até que ponto o eleitor brasileiro aceita uma guinada mais dura na segurança pública e um choque de corte em programas sociais? A resposta começa a ser construída agora, com o Missão tentando converter curtidas em votos e transformar um outsider digital em protagonista da política nacional.