O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky substitui nesta quarta-feira, 22, o comandante das Forças Armadas do país, em Kiev, no momento mais profundo de reforma militar desde o início da guerra com a Rússia. Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, deixa o posto para dar lugar ao general Drapaty, em meio a dias de protestos e forte pressão interna por mudanças na condução do conflito.
Pressão nas ruas e desgaste na guerra
A troca no topo da hierarquia militar ocorre enquanto a Ucrânia atravessa um período de fadiga de guerra e de crescente descontentamento com o custo humano do confronto, que já dura anos. Manifestações recentes em Kiev e em outras cidades expõem a impaciência de parte da sociedade com a estratégia adotada até agora, especialmente depois de uma reforma ministerial repentina e da queda do ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, de 35 anos.
O movimento de Zelensky busca, ao mesmo tempo, responder às ruas e redesenhar a estratégia militar num momento em que o país tenta manter seus avanços no campo de batalha com recursos limitados. A decisão chega também sob escrutínio internacional: o Fundo Monetário Internacional acaba de aprovar um novo aporte de US$ 690 milhões à Ucrânia, enquanto aliados como o Canadá ampliam o envio de armamentos e assistência.
A queda de Syrskyi e a ascensão de Drapaty
A substituição de Syrskyi é anunciada de forma direta pela presidência em Kiev. “Zelensky substituiu Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, por Drapaty”, registram Yuliia Dysa e Olena Harmash, da Reuters, em relato que sintetiza a dimensão da mudança. Trata-se de um dos generais mais conhecidos da guerra, responsável por coordenar a defesa da capital nos primeiros dias da invasão russa e comandante das Forças Armadas desde o início de 2024.
O prestígio construído no início do conflito convive, porém, com críticas crescentes a um estilo de comando considerado rígido, acusado por militares de linha de frente de resultar em perdas excessivas de tropas em batalhas prolongadas. Essas queixas, que circulam há meses em bastidores, ganham volume depois da recente crise política em torno do Ministério da Defesa, quando a saída de Fedorov expõe fissuras no núcleo da segurança ucraniana.
Drapaty, por sua vez, chega ao cargo com a imagem de general de “nova geração”. Aos 43 anos, comandou as forças terrestres entre 2024 e 2025 e é identificado com uma visão mais aberta ao uso de tecnologia, drones e inteligência em tempo real. Sua carreira é moldada por mais de uma década de combate direto contra as tropas russas, experiência que o aproxima da tropa e de veteranos que hoje têm voz ativa nos protestos.
Crise política, tecnologia e disputas internas
A crise que desemboca na mudança de comando tem origem na reforma ministerial anunciada na semana passada por Zelensky. A demissão de Mykhailo Fedorov, um reformista com perfil tecnológico, apenas seis meses após assumir a Defesa, acende um sinal de alerta em Kiev e em capitais aliadas. Analistas passam a questionar se o país corre o risco de desperdiçar os ganhos recentes no front.
Críticos acusam o presidente de favorecer Syrskyi em uma disputa velada com Fedorov, que defendia a centralidade de sistemas digitais, ciberdefesa e armamentos de precisão no esforço de guerra. A leitura de parte da sociedade é que a velha guarda militar, mais afeita a táticas convencionais, sufocara a agenda de inovação.
A resposta das ruas é rápida. Veteranos de guerra se articulam em redes sociais e convocam manifestações em defesa do retorno de Fedorov e de uma guinada tecnológica na estratégia militar. Dmytro Koziatynskyi, um dos organizadores dos protestos, celebra hoje a nomeação de Drapaty no X, antiga Twitter, chamando a decisão de “presente” no dia em que completa aniversário.
O próprio Drapaty adota um tom de ruptura controlada em sua primeira manifestação pública. “Trabalharei com responsabilidade, total concentração e respeito pelas pessoas que hoje defendem nosso país”, escreve em sua conta no Facebook, em mensagem lida como um gesto direto às bases militares e às famílias dos soldados.
Nova estratégia para uma guerra de desgaste
A troca de comando acontece enquanto a Ucrânia aposta em uma combinação de ataques à infraestrutura energética russa e golpes contra a logística militar de Moscou. A estratégia mira a principal fonte de receitas do Kremlin e tenta esticar a capacidade de resposta da Rússia em múltiplas frentes.
Ao apresentar o novo comandante, Zelensky insiste em que o plano não muda nos seus pilares, mas precisa de nova energia na execução. “As operações das Forças de Defesa da Ucrânia estão em andamento e devem continuar de forma constante. O plano da Ucrânia para sanções de longo alcance e nosso programa de ataques de médio alcance serão executados com absoluta precisão”, afirma o presidente, ao lado de Drapaty.
A leitura em Kiev e entre aliados é que uma liderança mais sintonizada com o uso intensivo de tecnologia pode facilitar a coordenação do fluxo de armas e recursos estrangeiros. Drones de longo alcance, sistemas antiaéreos de última geração e munições inteligentes dependem de doutrina flexível, interoperabilidade e comando capaz de dialogar com parceiros internacionais.
Ainda assim, o futuro de figuras centrais da recente turbulência continua incerto. Zelensky diz ter oferecido a Fedorov um “cargo digno” para supervisionar a área tecnológica do Estado, mas o ex-ministro repete que aceita apenas voltar à Defesa. Em nota nas redes, ele descreve a escolha de Drapaty como “um sopro de ar fresco e uma nova fonte de esperança na luta de pessoas livres pela liberdade e pela justiça” e define o novo comandante como “a voz da mudança que já não podia mais ser ignorada”.
Quem ganha, quem perde e o que vem agora
A nomeação de Drapaty redistribui forças dentro da máquina de guerra ucraniana. Oficiais alinhados a Syrskyi tendem a perder espaço em postos estratégicos, enquanto grupos que pedem renovação ganham novo fôlego. Para Zelensky, o risco é duplo: se a nova fase militar não trouxer resultados perceptíveis no campo de batalha e na redução de baixas, a cobrança política tende a recair diretamente sobre a presidência.
O moral das tropas e da população também entra em jogo. A mudança pode ser lida como gesto de escuta às ruas e às famílias de soldados, sinalizando disposição para corrigir rotas. Se Drapaty conseguir alinhar comando político, cúpula militar e base social, a Ucrânia pode sair da atual crise com uma estrutura mais coesa para enfrentar uma guerra que se consolidou como disputa de desgaste prolongado.
Aliados observam cada movimento em Kiev para calibrar o apoio. O novo pacote de US$ 690 milhões do FMI oferece fôlego imediato às contas públicas, mas a continuidade do suporte militar e financeiro depende, em boa medida, da percepção de que o país usa esses recursos com eficiência. A reformulação no topo das Forças Armadas passa a ser, também, um teste de governança e de capacidade de adaptação da Ucrânia.
Os próximos dias devem trazer as primeiras ordens de Drapaty e sua visão detalhada de como reorganizar frentes de combate, rotação de tropas e emprego de novas tecnologias. A forma como ele lidará com comandantes regionais, veteranos influentes e a sociedade civil indicará se a promessa de “voz da mudança” se traduz em resultados concretos ou se a Ucrânia mergulhará em novo ciclo de disputas internas em plena guerra.