Daniel Vorcaro se prepara para nova delação decisiva

Daniel Vorcaro tenta uma nova delação com apoio do ex-juiz Wolkart, apesar do ceticismo das autoridades.
Redação NC News
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Interlocutores da família de Daniel Vorcaro sondam a contratação de Erik Navarro Wolkart, ex-juiz do TRF-2, para levar adiante uma terceira proposta de colaboração premiada. O movimento tenta destravar o impasse que isola o ex-CEO do Banco Master desde sua prisão em 18 de novembro.

Defesa busca uma delação “pra valer”

Nesta semana, emissários dos Vorcaro procuram a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal para avisar que pretendem colocar Wolkart no comando de uma nova estratégia de defesa. A ideia, segundo esses interlocutores, é formular “uma terceira proposta de colaboração premiada — que, nas palavras desses emissários, agora seria pra valer”.

O recado usa como principal credencial de Wolkart sua passagem pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região até 2023. Desde então, ele abandona a toga e passa a investir na própria imagem nas redes sociais, onde se apresenta como especialista no uso de inteligência artificial na advocacia.

Nas plataformas digitais, comenta de patrocínio de clube de futebol a estratégias de influenciadores, muitas vezes em vídeos informais, de toalha na cintura. Nos perfis recentes, quase não toca em direito penal ou delações premiadas, área em que agora é chamado a atuar.

Ceticismo entre investigadores

A reação entre investigadores da PF e procuradores que acompanham o caso é fria. Integrantes das equipes ouvidos pela reportagem afirmam que a simples troca de rosto na defesa não altera o quadro se Vorcaro mantiver a postura das primeiras tentativas de delação.

Segundo um investigador, “uma troca na defesa só faria diferença na situação do ex-CEO do Master se ele se dispuser a entregar tudo o que sabe, algo em que a esta altura quase ninguém acredita”. O diagnóstico resume o humor predominante entre quem analisa, linha a linha, os anexos já apresentados.

As duas propostas anteriores de colaboração premiada, rejeitadas pela PGR, pouco avançam além do material já levantado pela PF em celulares apreendidos. Em trechos cruciais, Vorcaro omite pontos considerados centrais para desvendar o esquema em torno do Banco Master, alvo da maior intervenção já feita pelo Banco Central em um conglomerado financeiro.

A desconfiança cresce porque o ex-banqueiro tenta embarcar para o exterior em avião particular quando é detido pela PF, e a operação que o leva à prisão apreende R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo, além de itens de luxo. Para investigadores, esses elementos indicam capacidade de movimentar recursos e contatos que ainda não aparecem por completo em sua narrativa.

Racha na defesa e bastidores familiares

A possível chegada de Wolkart agrava tensões num time jurídico já desgastado. Desde a segunda prisão de Vorcaro, uma sucessão de criminalistas de peso passa pelo caso e se afasta. Hoje, a defesa formal tenta conter o que vê como interferência externa desorganizada.

Wolkart se aproxima de Vorcaro por meio da mãe do ex-banqueiro, Aline, e da irmã, Natália, segundo apurações de bastidor. Natália é advogada, pastora e casada com Fabiano Zettel, apontado por investigadores como operador financeiro do esquema ligado ao Master. Ela atua no jurídico do banco antes da liquidação da instituição. Além de Daniel e do cunhado, também estão presos o pai, Henrique, e o primo, Felipe, o que transforma o caso em um epicentro de crise familiar.

Fontes relatam que o ex-juiz chega a visitar Vorcaro no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha, para apresentar sua proposta. O gesto acende o sinal amarelo entre os atuais advogados, que correm à unidade prisional para cobrar uma posição do cliente.

Na conversa, Vorcaro garante que não pretende trocar de defesa e manda o recado ser reproduzido em conversas com jornalistas. Os advogados, por sua vez, avisam que não aceitarão a entrada de novos nomes capazes de “tumultuar” um caso que já exige gestão milimétrica de riscos criminais, financeiros e de imagem pública.

Procurado sobre as sondagens junto a Vorcaro, Wolkart prefere o silêncio. Mantém-se ativo nas redes, mas evita comentários sobre colaboração premiada ou processos penais em curso.

Escândalo financeiro com reflexos políticos

O processo contra o ex-CEO do Master nasce de um escândalo financeiro que envolve suspeitas de irregularidades no banco e na gestão de recursos de terceiros, hoje sob lupa da PF e da PGR. A intervenção do Banco Central atinge em cheio o grupo, expõe a governança do conglomerado e alimenta dúvidas sobre práticas de compliance dentro da instituição.

A fortuna de Vorcaro se constrói na esteira da compra do antigo Banco Máxima, em meio a dificuldades do controlador anterior. Ele se projeta como uma figura de sucesso no mercado, frequenta círculos de alta renda, circula com itens de luxo e vira personagem de redes sociais ao organizar festas com artistas internacionais e ostentação explícita.

O caso, porém, não se limita ao sistema financeiro. Peças da investigação e relatos de bastidor mencionam, ainda que de forma indireta, nomes do entorno político de Jair Bolsonaro, como o senador Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. A ligação passa por relações de bastidor e por personagens em comum, em um momento em que a própria família Bolsonaro tenta administrar crises internas e disputas entre aliados.

Até agora, essas menções não se traduzem em acusações formais contra figuras políticas, mas alimentam o interesse de investigadores e da opinião pública pelo alcance potencial de uma eventual delação robusta de Vorcaro.

O que está em jogo com a terceira delação

A nova tentativa de colaboração premiada é tratada, dentro da família, como carta derradeira para reduzir a exposição penal de Vorcaro e dos parentes envolvidos. Se a proposta for apresentada e aceita, a PGR pode ganhar acesso a documentos, mensagens e relatos que ajudem a costurar o mapa completo das operações investigadas em torno do Master.

Uma delação consistente tem potencial para apontar responsabilidades de executivos, operadores financeiros e eventuais beneficiários políticos ainda fora do radar. Pode fortalecer futuras denúncias criminais, pedidos de bloqueio de bens e ações de ressarcimento ao erário.

Para o próprio Vorcaro, a equação é direta: quanto mais relevantes e comprováveis forem as informações entregues, maior a chance de negociar redução de penas, progressão de regime e benefícios futuros. Se insistir em meias revelações, arrisca continuar preso e ver minguar o interesse das autoridades por sua versão dos fatos.

O sistema financeiro acompanha o caso com apreensão. Novos detalhes sobre a engrenagem do Master podem pressionar outras instituições a revisar controles internos, elevar custos de auditoria e endurecer a relação com reguladores. Eventuais conexões políticas confirmadas por provas também podem reconfigurar alianças e aumentar a temperatura em Brasília.

Por enquanto, a movimentação em torno de Wolkart permanece como uma promessa de mudança mais do que um fato consumado. O ex-juiz ainda não assume formalmente a defesa, e a própria disposição de Vorcaro em contar “tudo o que sabe” continua sob suspeita.

Os próximos dias dirão se a família consegue unificar a estratégia, se Wolkart aceitará entrar oficialmente no processo e se a PGR enxergará na terceira proposta algo diferente das duas anteriores. Enquanto isso, o ex-banqueiro segue preso, o impasse jurídico se arrasta e o caso permanece no centro de um tabuleiro que mistura dinheiro, poder político e uma família em frangalhos.

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