O presidente Lula mantém a dianteira sobre o senador Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, segundo a nova pesquisa Datafolha, que mostra cenário estável mesmo após o tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
Lula abre vantagem no 2º turno e segue à frente no 1º
No confronto direto, Lula aparece com 48% das intenções de voto no segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro. A diferença de 5 pontos está no limite da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos, mas confirma a liderança do presidente num ambiente eleitoral já polarizado.
No primeiro turno, o quadro também é de vantagem petista. Lula registra 40% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro soma 32%. Outros pré-candidatos aparecem muito atrás, sem ameaçar por ora a hegemonia da disputa entre governo e bolsonarismo.
Os números indicam pouca variação em relação ao último levantamento do instituto. A pesquisa, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-01166/2026, ouviu 2.004 pessoas em todo o país entre os dias 22 e 24 de julho, com nível de confiança de 95%.
Tarifa de 25% dos EUA entra em cena, mas não mexe no cenário
O levantamento ocorre no momento em que entra em vigor a taxa extra de 25% aplicada pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida amplia a tensão diplomática entre Brasília e Washington e abre espaço para a exploração eleitoral do conflito.
Flávio Bolsonaro tenta transformar o episódio em vitrine internacional. “Flávio Bolsonaro viajou aos EUA para tentar adiar as tarifas”, registrou o Datafolha ao resumir a ofensiva do senador. Ele se reúne com o presidente Donald Trump na Casa Branca, envia carta ao governo americano e participa de audiência pública no Escritório do Representante Comercial dos EUA, em Washington, em tentativa de evitar ou postergar o tarifaço.
Lula reage no campo oposto e usa o episódio para reforçar seu discurso de defesa da soberania nacional. Em declarações recentes, o presidente “culpou o senador pelo tarifaço, considerando as taxas um ‘ataque à soberania do Brasil'”. A narrativa busca associar a figura de Flávio Bolsonaro não só ao governo americano, mas também às consequências econômicas internas da medida.
Apesar do barulho diplomático, a pesquisa indica que o eleitorado ainda não traduz o conflito em mudanças significativas de voto. As variações estão dentro da margem de erro, e o cenário segue praticamente congelado desde junho.
Avaliação de governo e rejeição expõem um país dividido
A pesquisa também mede o humor do eleitor em relação à atual gestão. A avaliação do governo Lula continua estável. Para 32% dos entrevistados, a administração é ótima ou boa. Outros 28% consideram o governo regular. Já 38% classificam a gestão como ruim ou péssima. A soma dos que aprovam o trabalho do presidente chega a 49%, contra 48% que desaprovam.
O retrato mostra um país partido ao meio, mas com leve vantagem para o campo governista. Essa divisão se reflete na rejeição dos principais nomes da disputa. Flávio Bolsonaro aparece com 48% de eleitores que declaram não votar nele de jeito nenhum. Lula registra 46% de rejeição.
Os dados sugerem que ambos carregam teto relativamente baixo para crescer fora de suas bolhas. A disputa tende a se concentrar em faixas específicas do eleitorado, como indecisos de baixa renda, segmentos evangélicos não alinhados e eleitores dos grandes centros urbanos mais sensíveis a temas econômicos.
Candidatos de outros campos ideológicos aparecem com taxas menores de rejeição, mas também com pouca intenção de voto. O conjunto reforça a leitura de que a eleição se organiza em torno do embate entre governo e oposição bolsonarista, com pouco espaço para uma terceira via competitiva neste momento.
Economia, exportações e o peso do tarifaço na campanha
A sobretaxa americana de 25% recai sobre uma gama de produtos brasileiros, atingindo em cheio setores exportadores que dependem do mercado dos Estados Unidos. Empresas do agronegócio, da indústria de transformação e de segmentos de commodities relatam preocupação com perda de competitividade e risco de cortes de produção.
Na arena política, Lula tenta transformar esse temor em combustível para sua campanha. O Planalto aciona o discurso de que o governo defende o produtor nacional contra medidas consideradas abusivas de parceiros comerciais. A retórica mira especialmente o eleitorado do interior e das áreas exportadoras, que pode sentir os efeitos da tarifa com maior rapidez.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, aposta na imagem de articulador capaz de abrir portas em Washington. Ao exibir fotos na Casa Branca e relatar conversas diretas com Trump, o senador tenta construir a ideia de que uma eventual vitória sua traria alívio nas relações com os Estados Unidos e, por tabela, redução de barreiras para produtos brasileiros.
Por enquanto, a estratégia não se traduz em ganho de intenção de voto. A estabilidade do Datafolha indica que o eleitor observa o conflito, mas ainda não atribui a ele o peso decisivo na escolha do próximo presidente. O impacto concreto da tarifa no bolso do brasileiro, caso se acentue nas próximas semanas, pode alterar essa percepção.
Campanha entra em fase decisiva sob sombra da crise externa
Com o calendário eleitoral avançando, as campanhas tendem a intensificar o uso do tarifaço na propaganda e nos debates. Lula deve seguir explorando a ideia de que o Brasil não se curva a pressões externas e que a postura de Flávio Bolsonaro fragiliza o país diante de Washington.
O senador, por outro lado, deve dobrar a aposta nas agendas internacionais e em novas interlocuções com autoridades americanas, na tentativa de anunciar algum gesto concreto, mesmo que parcial, de alívio nas taxas. Um recuo, ainda que limitado, seria usado como prova de sua capacidade de negociação.
Se a tarifa de 25% se mantiver e os efeitos forem sentidos na economia real — sobretudo em empregos e renda de cadeias exportadoras — a opinião pública pode reagir de forma mais brusca. Nesse cenário, tanto o governo quanto o principal adversário podem ser cobrados: Lula, pela condução da política externa; Flávio Bolsonaro, por sua proximidade com o governo Trump e pelo papel que o Planalto tenta lhe atribuir no surgimento da crise.
Enquanto o choque externo não chega plenamente ao cotidiano do eleitor, a fotografia do Datafolha sugere que o país assiste a mais um capítulo de uma polarização conhecida, agora sob a influência direta de decisões tomadas em Washington. As próximas pesquisas vão mostrar se o tarifaço se consolida como tema central desta eleição ou se permanece como ruído de fundo numa disputa que, por ora, segue previsível e travada.