A visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil neste fim de semana colocou o Palácio do Planalto em estado de atenção. Embora o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trate como legítima a participação do argentino na convenção nacional do PL, auxiliares afirmam que há um limite para a atuação do chefe de Estado no país: ataques às urnas eletrônicas, ao sistema eleitoral brasileiro ou às instituições.
Segundo integrantes do governo, caso Milei faça declarações nesse sentido durante o evento que oficializará a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, a resposta deverá ser pública e institucional.

O que preocupa o governo?
Milei desembarca no Brasil nesta sexta-feira (24) e terá agenda em São Paulo no sábado. Antes da convenção do PL, ele se reúne com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Não está prevista qualquer reunião com Lula. Segundo o Planalto, a Presidência foi informada da viagem apenas por questões diplomáticas e de segurança.
Nos bastidores, auxiliares do presidente afirmam que discursos de apoio a Flávio Bolsonaro fazem parte do debate político, mas entendem que críticas ao sistema eleitoral brasileiro ou às urnas eletrônicas representam uma situação diferente e podem motivar uma manifestação oficial do governo.
Por que o Planalto vê um movimento coordenado?
A avaliação dentro do governo é de que questionamentos ao processo eleitoral brasileiro fazem parte de uma estratégia internacional adotada por lideranças da direita para colocar em dúvida a credibilidade das eleições.
Essa preocupação aumentou após declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, sobre o cenário político brasileiro e diante de manifestações recentes de aliados do bolsonarismo relacionadas às urnas eletrônicas.
Na visão de integrantes do Planalto, esses episódios seguem uma linha semelhante de contestação ao sistema eleitoral.
Lula já respondeu a críticas recentes
Na última segunda-feira (20), Lula reagiu às declarações de Marco Rubio envolvendo a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Na ocasião, o presidente afirmou que o secretário norte-americano poderia “vir montar um comitê” no Brasil e disse que pretende derrotar seus adversários “nas urnas” para defender a democracia brasileira.
Segundo auxiliares, essa resposta serve como indicativo da postura que poderá ser adotada caso Milei faça declarações semelhantes durante sua passagem pelo país.
Aproximação entre Milei e Bolsonaro
A viagem reforça a relação política entre Javier Milei e o grupo liderado por Jair Bolsonaro.
Esta será a terceira visita do presidente argentino ao Brasil desde que assumiu o comando da Casa Rosada, em dezembro de 2023.
Em julho de 2024, Milei participou da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Balneário Camboriú (SC), ao lado de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, sem participar de compromissos com o governo federal.
Outro episódio que marcou essa aproximação ocorreu nesta viagem. A defesa de Jair Bolsonaro solicitou autorização ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes para que Milei pudesse visitar o ex-presidente, mas o pedido foi negado.
Sem a visita, a agenda do argentino ficou concentrada na reunião com Tarcísio e na convenção nacional do PL.
ENTENDA O CONTEXTO
A visita de Javier Milei acontece em meio ao início da disputa eleitoral brasileira e em um cenário de forte polarização política. O governo Lula afirma que acompanhará atentamente o discurso do presidente argentino e considera aceitáveis manifestações de apoio político, mas avalia que ataques às urnas eletrônicas ou ao sistema eleitoral brasileiro exigiriam uma resposta institucional. A viagem também reforça a proximidade entre Milei e o grupo político de Jair e Flávio Bolsonaro, que mantêm alinhamento em pautas conservadoras.