Roberto Mancini volta ao centro do tabuleiro do futebol italiano. A Federação Italiana de Futebol (FIGC) negocia a sua volta ao comando da seleção e trata o acerto como iminente.
Negociação em reta final em meio à crise
A movimentação ocorre nesta semana, na sede da FIGC, em clima de urgência. A seleção encara uma crise técnica e política ao mesmo tempo, sem treinador definido a menos de dois meses da estreia na Liga das Nações.
O presidente da federação, Giovanni Malagò, confirma publicamente que a escolha recai sobre o técnico campeão europeu. “Estou conversando com Roberto Mancini sobre ele ser o novo técnico: estamos esperando a assinatura”, afirma. Segundo ele, falta apenas o último gesto de caneta para o retorno ser oficializado.

Mancini comandou a seleção entre 2018 e 2023 e conquistou a Eurocopa 2020, título que recolocou a Itália entre as seleções mais respeitadas do continente. Hoje, ele está livre no mercado após sua passagem pelo Al-Saad, o que facilita o acordo e reduz entraves de rescisão.
Guardiola disse não, Pirlo não saiu do papel
A escolha por Mancini nasce também da frustração com outros planos. A FIGC tentou seduzir Pep Guardiola, mas ouviu um não categórico. Em seguida, avançou com Andrea Pirlo, aposta de renovação e nome bem visto internamente.

As conversas com Pirlo chegaram perto de um desfecho positivo, mas ruíram na reta final. Malagò barrou o acerto, o que detonou uma reação em cadeia dentro da federação. A instabilidade culmina na renúncia dos diretores Paolo Maldini e Leonardo, duas figuras de peso na gestão esportiva italiana.

Sem consenso e com o calendário apertando, a cúpula da FIGC volta-se para a solução mais conhecida e testada. Mancini já conhece a estrutura, os jogadores e o ambiente político em torno da Azzurra, o que torna o risco, na visão interna, menor do que apostar em um projeto totalmente novo.
Rearranjo de poder: Ranieri e Chiellini ganham espaço
A crise técnica abre também uma disputa silenciosa por espaço na cúpula da seleção. Para conter o vácuo criado pelas renúncias, Claudio Ranieri aceita o cargo de diretor técnico, responsável por amarrar o cotidiano esportivo e a ponte com os clubes.
O ex-zagueiro Giorgio Chiellini surge como favorito para assumir a direção de seleções, função estratégica na definição de metodologia, integração entre categorias de base e elenco principal, além da construção da identidade de jogo.
Esse rearranjo tenta blindar Mancini de turbulências políticas e entregar um núcleo de confiança à sua volta. Ao mesmo tempo, expõe a fragilidade da estrutura administrativa da FIGC, obrigada a remontar sua cúpula às pressas às vésperas de uma sequência pesada de jogos.
Pressão imediata: Bélgica, França e Turquia pela frente
O relógio não ajuda. A Itália estreia na Liga das Nações em 25 de setembro, em casa, contra a Bélgica. Na mesma Data Fifa, enfrenta também França e Turquia, adversários que exigem padrão de jogo consolidado e grupo mentalmente forte.
Se o acordo com Mancini for confirmado nos próximos dias, o treinador terá pouco tempo para treinos presenciais. A tendência é que ele concentre o trabalho em análises de vídeo, conversas individuais com líderes do elenco e uma convocação que misture a base do seu ciclo anterior com novidades pontuais.
Setores como comissão técnica, preparação física e departamento de desempenho devem ser redesenhados. Mancini costuma trabalhar com auxiliares de confiança, o que pode significar saídas e entradas rápidas no staff. Essa reconfiguração, feita em prazo curto, carrega risco de falhas de comunicação e de sobrecarga para o elenco.
Segurança conhecida x inovação adiada
A aposta no retorno de Mancini é lida, dentro e fora da Itália, como escolha pela segurança. A FIGC privilegia um técnico com currículo consolidado, bom histórico recente com a seleção e forte respeito no vestiário.
Essa opção tem custo. O movimento adia uma renovação mais profunda de ideias, que poderia vir com um nome de perfil diferente, como o próprio Pirlo. A recusa de Guardiola e o naufrágio das conversas com Pirlo expõem também dificuldades da federação em atrair e sustentar projetos de técnicos de alto perfil, em um cenário em que clubes europeus oferecem salários maiores e maior controle esportivo.
Para o elenco, a volta de Mancini pode significar retomada de princípios já conhecidos: posse de bola, saída organizada desde a defesa e uso intenso de meio-campistas técnicos. Jogadores que perderam espaço após sua saída enxergam chance de reconquista. Jovens em ascensão, por outro lado, dependerão de como o treinador equilibrará meritocracia recente com gratidão ao grupo que o ajudou a erguer a Eurocopa.
No mercado, o movimento reduz a especulação em torno do nome de Mancini, que volta a ficar atrelado à seleção e não a clubes europeus de ponta ou eventuais projetos no Brasil, como já foi ventilado. Termos como “Roberto Mancini transfermarkt”, “Roberto Mancini City” ou “Roberto Mancini Sampdoria” voltam a ganhar busca, agora sob a ótica de como sua carreira o credencia a segunda passagem pelo comando da Azzurra.
O que está em jogo para a seleção italiana
Se Mancini conseguir resultados rápidos na Liga das Nações, a federação ganha tempo para consolidar a nova estrutura com Ranieri e, possivelmente, Chiellini. A estabilidade técnica ajudaria a recompor a imagem da Itália no cenário europeu e atrair jogadores em dúvida sobre priorizar clube ou seleção.
Um início ruim reabriria o debate sobre a falta de ousadia na escolha do treinador e poderia aprofundar a crise interna. O ambiente político ainda está frágil após as saídas de Maldini e Leonardo, e uma sequência negativa de resultados daria combustível a grupos que defendem ruptura mais radical na gestão esportiva.
Enquanto a assinatura não vem, a FIGC tenta transmitir serenidade. Malagò fala em “últimos detalhes” e evita entrar em prazos públicos, mas o calendário não espera. O próximo ciclo da seleção italiana começa, na prática, agora, com o retorno de um técnico que conhece a casa e volta com a missão explícita de reconstruí-la.