PT abre mão de 14 governos para ampliar poder do presidente Lula

Partido busca ampliar o número de candidaturas competitivas e costurar acordos nos estados de olho na eleição de 2026
Redação NC News
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O PT redesenha o mapa eleitoral dos estados e abre mão de candidaturas próprias a governador em 14 unidades da Federação, numa estratégia focada em fortalecer a campanha de reeleição do presidente Lula. A sigla mantém 12 cabeças de chapa e aguarda a definição em Roraima, onde a convenção está marcada para 4 de agosto.

A decisão muda o centro de gravidade do projeto petista. O partido sacrifica espaço direto nos governos estaduais para apostar em palanques mais robustos e unificados, capazes de impulsionar a disputa presidencial num país em que o poder do governador continua decisivo.

Mapa das alianças e primeira ruptura no Rio Grande do Sul

Nos 14 estados em que não lança candidato próprio, o PT apoia nomes de legendas aliadas e, em muitos casos, negocia a vaga de vice-governador ou uma cadeira na disputa ao Senado. Estão nessa lista Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins.

O movimento mais simbólico ocorre no Rio Grande do Sul. Pela primeira vez desde o início das disputas estaduais após a redemocratização, os petistas deixam de ter cabeça de chapa e se alinham a Juliana Brizola, do PDT. Ela aparece com 24% das intenções de voto, segundo pesquisa Quaest, tecnicamente empatada com Luciano Zucco, do PL, que registra 22%. O apoio petista tenta transformar a vantagem numérica em liderança consolidada e, ao mesmo tempo, garantir um palanque competitivo para Lula num estado historicamente disputado.

No Rio de Janeiro, o partido faz outra aposta pragmática. Lula sobe no palanque do prefeito Eduardo Paes, do PSD, líder nas pesquisas para o governo fluminense. Em troca, a deputada federal Benedita da Silva concorre ao Senado na mesma chapa. A equação é clara: Paes oferece estrutura, tempo de TV e capilaridade regional; o PT entrega sua militância e o peso do presidente num dos maiores colégios eleitorais do país.

Onde o PT mantém cabeça de chapa e o que está em jogo

O partido preserva candidaturas próprias em 12 estados: Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia e São Paulo. Nesses casos, a prioridade é manter governadores aliados ou tentar conquistar governos estratégicos, sem abrir mão da identidade petista.

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, a escolha é especialmente sensível. A disputa pelo cargo de governador em SP influencia diretamente o tom da eleição presidencial e o equilíbrio de forças no Sudeste. A cúpula petista calcula que vale correr o risco de manter um nome próprio no estado mais rico, ainda que em outros pontos do mapa tenha preferido recuar para fortalecer parceiros.

O cenário segue indefinido apenas em Roraima, onde a convenção local marcada para 4 de agosto deve decidir se o PT terá cabeça de chapa, vice ou se limitará o papel a um apoio formal a um nome aliado. A decisão ali, embora em um colégio eleitoral pequeno, se encaixa na lógica nacional de montar uma rede de palanques alinhada ao Planalto.

Virada pragmática e o papel dos governadores na campanha

Para o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getulio Vargas, o movimento traduz uma guinada pragmática. Ele lembra que, num país de dimensões continentais, a campanha presidencial depende diretamente da força dos governadores e das lideranças locais. “É muito difícil fazer uma campanha num país deste tamanho sem ter aliados locais que façam a campanha pelo presidente enquanto ele está em outro lugar”, afirma. “Tem que ter gente fazendo a campanha para ele. E só o presidente, eventualmente, visitando aquele estado de tempos em tempos não é suficiente”.

Grin enxerga continuidade em relação à chamada Frente Democrática articulada contra a extrema direita. Segundo ele, o arranjo que uniu siglas de centro e esquerda ao redor de Lula deixa de ser uma solução emergencial e passa a moldar a forma como o PT disputa o poder. “O PT tem entendido, e sobretudo depois da vitória no 2º turno em 2022, que essa chamada Frente Democrática, ela parece que não é algo episódico, tende a ser uma tendência”, diz o professor.

A cientista política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, destaca que, embora o desenho atual pareça ousado, o raciocínio não é novo no partido. Em disputas presidenciais competitivas anteriores, o PT também abriu mão de governos estaduais quando a troca resultava em alianças nacionais mais sólidas. “O objetivo central continua sendo maximizar a coalizão presidencial, não expandir governadores petistas”, resume.

Quem ganha, quem perde e o efeito em 2026

A conta política tem vários lados. Em 14 estados, o PT renuncia à possibilidade de comandar o Executivo local e à visibilidade diária que o cargo de governador produz. Prefere um papel de coadjuvante formal em governos de aliados, ainda que com espaço em vices, secretarias e no Senado. No curto prazo, isso pode reduzir a presença direta da legenda em decisões orçamentárias e em projetos de infraestrutura, áreas em que o governador costuma concentrar poder.

Em contrapartida, candidatos como Eduardo Paes, Juliana Brizola e outros aliados regionais saem fortalecidos. Ganham o apoio de uma máquina partidária nacional e da figura de Lula, ainda o maior cabo eleitoral do campo progressista. A mensagem para esses parceiros é a de que o Planalto está disposto a ceder protagonismo estadual em troca de lealdade presidencial.

Dentro do PT, a escolha tende a alimentar debates. Em diretórios historicamente competitivos, dirigentes e militantes resistem a abrir mão de candidaturas construídas ao longo de décadas. A ausência de um nome próprio ao governo pode desmobilizar parte do eleitorado mais fiel e dificultar a renovação de quadros estaduais. O desafio será manter a identidade petista viva nos estados em que a sigla aparece apenas como coadjuvante na urna.

No plano nacional, porém, a expectativa é de uma campanha mais coesa em 2026. Com alianças desenhadas em 14 governos potenciais e 12 candidaturas próprias, Lula busca um equilíbrio próximo ao adotado na eleição anterior, quando o partido também combinou chapas próprias com apoios robustos a aliados. A aposta é que palanques estaduais fortes, conectados à imagem do presidente, aumentem a chance de repetir a vitória e consolidem a Frente Democrática como modelo duradouro de disputa pelo poder.

As próximas semanas, com a definição em Roraima e a formalização das chapas estaduais, vão mostrar se a estratégia se traduz em unidade interna ou se abre flancos de insatisfação. O desempenho dos aliados nas corridas para governador, em especial em praças como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, será o primeiro termômetro do custo e do benefício de um PT disposto a ceder espaço agora para tentar manter o comando do país depois.

 

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