Dívida pública dispara e próximo governo terá pouco tempo para reagir após eleição

Endividamento chegou a R$ 10,8 trilhões e especialistas defendem medidas ainda em 2026 para conter a pressão sobre as contas públicas
Redação NC News
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A dívida pública brasileira atingiu 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em junho de 2026, o equivalente a R$ 10,8 trilhões, e colocou as contas do país entre os principais desafios que o próximo presidente terá de enfrentar depois das eleições. O estoque da dívida bruta era de 71,7% do PIB em dezembro de 2022.

O alerta de economistas é que não haverá muito tempo para o próximo governo começar a agir. A avaliação é que medidas para conter o avanço das despesas precisam ser negociadas ainda em 2026 e apresentadas logo nos primeiros meses de 2027.

Por que a dívida preocupa tanto?

O problema não está apenas no tamanho atual do endividamento, mas na velocidade com que ele vem crescendo.

Em três anos e meio do atual governo, a dívida bruta aumentou 10,2 pontos percentuais, passando de 71,7% para 81,9% do PIB. Para especialistas, a trajetória pode ficar ainda mais difícil caso o crescimento das despesas públicas não seja controlado.

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, estima que a dívida poderá alcançar 95,7% do PIB no último ano do próximo governo.

Se nenhuma mudança for feita, o endividamento pode superar 100% do PIB em 2032 e chegar a 115% do PIB daqui a dez anos. A IFI calcula ainda em 80% a probabilidade de a dívida ultrapassar 90% do PIB entre 2026 e 2030.

O que o próximo presidente terá de fazer?

A avaliação dos especialistas é que o próximo presidente precisará começar o ajuste fiscal praticamente no início do mandato.

Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, afirma que o governo eleito terá de apresentar medidas ainda depois da eleição para que elas possam produzir efeitos já no primeiro trimestre de 2027. Entre as discussões citadas estão mudanças nos gastos tributários, Previdência e reforma administrativa.

A ideia é construir uma estratégia que permita controlar as despesas e melhorar a trajetória da dívida.

O cenário, portanto, é diferente daquele observado em 2022. Naquele momento, o governo negociou uma mudança constitucional que ampliou as despesas do Orçamento da União em cerca de R$ 168 bilhões.

Agora, segundo a avaliação apresentada por economistas, o movimento precisaria ser na direção oposta: aperto nas contas e redução de despesas obrigatórias.

Salário mínimo e BPC podem entrar na discussão
Um dos pontos levantados pelos especialistas envolve o crescimento de despesas obrigatórias.

O economista Fábio Giambiagi, especialista em contas públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), defende que o próximo governo tome decisões ainda em novembro e dezembro para afetar regras relacionadas ao salário mínimo de 2027.

Giambiagi também cita possíveis mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e no Fundeb.

O BPC é um benefício destinado a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência que atendam aos critérios estabelecidos pela legislação. A discussão sobre seu crescimento, portanto, envolve diretamente uma parcela vulnerável da população.

Qualquer alteração nessa área, por isso, tende a gerar forte debate político e social.

O arcabouço fiscal corre risco?

Outro ponto de atenção é o chamado arcabouço fiscal, conjunto de regras que estabelece limites para o crescimento das despesas públicas.

A IFI defende a manutenção do mecanismo, mas propõe uma regra mais rígida para o resultado das contas públicas, chamada de “meta fiscal pura”. Na prática, a proposta busca fazer com que o governo cumpra o resultado prometido sem excluir determinados gastos do cálculo.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já sinalizou a possibilidade de reforçar o arcabouço em 2027. Uma das ideias mencionadas é reduzir de 2,5% para 1,5% o limite de crescimento das despesas. Para o economista Alexandre Manoel, porém, essa mudança isoladamente não seria suficiente.

Como a dívida afeta o brasileiro?

A dívida pública pode parecer um assunto distante da rotina das famílias, mas seus efeitos podem aparecer no crédito e nos juros.

O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirma que o governo é o maior devedor da economia e que o aumento da dívida pode pressionar as taxas de juros.

Na prática, juros elevados podem encarecer empréstimos, financiamentos e outras formas de crédito para famílias e empresas.

Por isso, a discussão fiscal não envolve apenas números do governo. Ela também pode afetar o custo do dinheiro e as condições para consumo e investimentos.

Eleições devem deixar debate fiscal em segundo plano
Apesar da gravidade do cenário, economistas avaliam que a situação das contas públicas não deverá ser o principal fator para definir o voto dos eleitores na eleição de outubro.

O assunto, porém, deve ser utilizado politicamente pela oposição para pressionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados.

Os adversários do governo vêm criticando a política fiscal e o aumento da dívida, mas, segundo a análise apresentada na reportagem, ainda não apresentaram propostas concretas para enfrentar o problema.

A tendência é que a discussão ganhe força depois da eleição, quando o novo presidente precisar definir as prioridades econômicas para o início do mandato.

ENTENDA O CONTEXTO

A dívida bruta do governo passou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 81,9% em junho de 2026, chegando a R$ 10,8 trilhões.

A IFI projeta que, sem mudanças na trajetória dos gastos, o endividamento poderá chegar a 95,7% do PIB no fim do próximo governo, ultrapassar 100% em 2032 e alcançar 115% em dez anos.

O alerta dos economistas é que o próximo presidente precisará agir rapidamente. A expectativa é que as negociações comecem ainda em 2026 e que medidas sejam apresentadas nos primeiros meses de 2027.

O desafio envolve controlar as despesas, preservar a sustentabilidade das contas públicas e, ao mesmo tempo, enfrentar a resistência política a mudanças em áreas como salário mínimo, benefícios sociais, Previdência e gastos obrigatórios.

A eleição, portanto, pode definir não apenas quem comandará o país, mas também qual será a estratégia escolhida para enfrentar a dívida nos primeiros meses do próximo mandato.

 

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