Preso no Complexo da Papuda, em Brasília, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro entrega sua defesa ao criminalista Daniel Leon Bialski para tentar reabrir as negociações de uma delação premiada sobre fraudes financeiras bilionárias, corrupção e uso de milícia privada. A mudança de advogado ocorre após a rejeição, pela Polícia Federal, da segunda proposta de colaboração apresentada pelo empresário.
A contratação, fechada na semana passada dentro da Papudinha, unidade da Papuda onde Vorcaro está detido, marca uma guinada na estratégia jurídica do ex-banqueiro. O caso corre no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro André Mendonça e é visto por investigadores como peça central para destravar apurações sensíveis no eixo Brasília–Rio de Janeiro.
Nova defesa mira retomada das negociações
Bialski assume o processo com um objetivo explícito. “Bialski assume a defesa do ex-banqueiro com a missão de restabelecer as conversas para um eventual acordo de colaboração premiada com as autoridades”, dizem interlocutores ligados à nova equipe. Na prática, o advogado tenta reconstruir uma ponte que ruiu em maio, quando a Polícia Federal rechaçou a segunda tentativa de delação de Vorcaro e o antigo defensor, José Luís Mendes Oliveira Lima, deixou o caso.
Desde então, as conversas sobre colaboração ficam paralisadas, aumentando a pressão sobre o ex-banqueiro, acusado de comandar um esquema de fraudes financeiras que movimenta valores na casa dos bilhões, com pagamento de propina a servidores públicos e uso de milícia privada para intimidar opositores. Vorcaro segue preso preventivamente, enquanto o inquérito avança no STF sob sigilo.
A chegada de Bialski ocorre após uma reunião reservada com Vorcaro na Papudinha, acompanhada pelo advogado Sergio Leonardo. O criminalista começa a mergulhar no material do processo e nos rascunhos de delação já apresentados para definir que rota adotar. A expectativa no entorno do novo defensor é de que uma proposta mais consistente, com provas robustas e narrativa menos dispersa, possa ser levada novamente à mesa da PF, do Ministério Público e do ministro André Mendonça.
Perfil político do novo advogado e impacto no STF
O nome escolhido por Vorcaro não é casual. “O criminalista Daniel Leon Bialski é o novo advogado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, preso por suspeita de chefiar um esquema de fraudes financeiras bilionárias, corrupção de servidores públicos e uso de milícia privada para ameaçar opositores”, resume um aliado do ex-banqueiro.
Bialski constrói fama nos últimos anos defendendo figuras de destaque da política nacional. Atua para o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, ligado ao meio evangélico e herdeiro político do bolsonarismo fluminense, e para o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Também representa a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a ex-deputada Carla Zambelli e ex-ministros da gestão Jair Bolsonaro, como Onyx Lorenzoni e Milton Ribeiro.
O trânsito de Bialski nesse universo confere peso político à movimentação de Vorcaro. No entorno do STF, a leitura é que a nova composição da defesa tende a profissionalizar as tratativas, encurtar ruídos e calibrar melhor o alcance das informações oferecidas pelo ex-banqueiro, em especial aquelas que tocam agentes públicos, contratos sensíveis e eventuais elos com governos estaduais, como o do Rio de Janeiro.
Quem ganha e quem perde com uma delação reaberta
Uma colaboração premiada de Vorcaro, se aceita, pode redesenhar inquéritos de corrupção e crimes financeiros hoje espalhados em diferentes frentes. A investigação conhecida como caso Master, que mira o grupo ligado ao ex-banqueiro, já aponta suspeitas de operações irregulares, lavagem de dinheiro e uso de empresas de fachada para driblar regras do sistema financeiro.
Para o Judiciário e para os órgãos de controle, um acordo bem estruturado abre a chance de seguir o rastro de contratos, identificar beneficiários ocultos e chegar a eventuais mandantes políticos que hoje permanecem nas sombras. O relato de um operador interno, munido de documentos, registros de pagamentos e mensagens, costuma encurtar anos de investigação.
Dentro do próprio esquema, uma delação de Vorcaro é vista como ameaça direta. Executivos, intermediários e agentes públicos que se beneficiam do fluxo de dinheiro irregular podem ser expostos, ter patrimônios bloqueados e enfrentar novas ações penais. Políticos que, em tese, cruzaram com o ex-banqueiro em doações ou acordos informais também entram no radar.
Pressão sobre Cláudio Castro e ambiente político do Rio
A presença de Bialski, já identificado ao entorno do ex-governador do Rio, Cláudio Castro, adiciona um ingrediente político ao caso. O advogado atua na defesa de Castro em processos eleitorais e investigações de cunho criminal, o que alimenta especulações sobre possíveis cruzamentos entre os relatos de Vorcaro e a arena fluminense.
Hoje, buscas ligadas a Cláudio Castro incluem perguntas como “Cláudio Castro hoje”, “Cláudio Castro, o que aconteceu” e “Cláudio Castro cassação”, reflexo da combinação de governo conturbado, investigações e disputas judiciais. Oficialmente, não há decisão que o afaste em definitivo do cenário político, mas a associação constante do nome do ex-governador a escândalos fragiliza sua imagem e afeta também seu partido e aliados.
Uma eventual delação de Vorcaro que mencione fluxos de recursos em campanhas, contratos estaduais ou interlocutores próximos de Castro pode inflamar pedidos de novas apurações e reforçar ações que miram sua responsabilidade política e criminal. A defesa do ex-governador, porém, nega irregularidades e trabalha para afastar o vínculo direto com esquemas financeiros como o atribuído a Vorcaro.
Próximos passos sob a lupa do STF
O ministro André Mendonça, relator do caso no STF, acompanha os movimentos com atenção. Caberá a ele arbitrar eventuais pedidos da defesa, como prazos para apresentação de uma nova proposta de delação, pedidos de diligências complementares ou ajustes em medidas cautelares impostas a Vorcaro.
A curto prazo, o roteiro inclui a revisão integral do material já entregue à PF, a montagem de um anexo mais robusto com foco em fatos verificáveis e a abertura formal de um canal de negociação com investigadores e procuradores. Bialski tenta, assim, distanciar-se da imagem de “terceira tentativa” fracassada e apresentar algo descrito no entorno de Vorcaro como “última carta” para reduzir sua pena.
Se a delação prosperar, o impacto político e jurídico tende a se espalhar por diferentes esferas, com potencial de atingir figuras do Executivo, do Legislativo e do setor privado. Caso as tratativas naufraguem novamente, o ex-banqueiro seguirá preso, o processo criminal pode se estender por anos e o silêncio forçado de quem conhece o funcionamento interno do esquema manterá zonas de sombra em investigações que cobram respostas rápidas da Justiça.