A dificuldade para encontrar trabalhadores no campo está deixando de ser apenas um problema de contratação e passando a influenciar decisões estratégicas dentro das propriedades rurais. É o que aponta uma análise publicada pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, na edição de agosto da revista Hortifruti Brasil.
Na produção de frutas e hortaliças, o desafio é ainda maior porque muitas atividades continuam dependendo de trabalho manual, especialmente etapas como plantio, manejo e colheita.
Segundo os pesquisadores, em muitas propriedades a questão já não é apenas conseguir formar uma equipe para a próxima safra. A escassez de trabalhadores começa a influenciar decisões como quanto investir, se é possível ampliar a produção e quais tecnologias podem ser adotadas para manter a atividade competitiva.
Mais tecnologia no campo
O movimento não é exclusivo do Brasil. A análise do Cepea mostra que produtores de diferentes países também estão buscando alternativas diante da redução da oferta de trabalhadores.
Entre as respostas estão mecanização, automação, qualificação profissional e novas formas de organizar a produção.
Na prática, isso significa que atividades que tradicionalmente dependiam de muitas pessoas começam a incorporar máquinas, equipamentos e tecnologias capazes de executar parte do trabalho ou aumentar a produtividade de cada trabalhador.
A transformação, porém, não acontece de forma igual em todas as culturas.
Na horticultura, a dependência do trabalho humano ainda é significativa. Por isso, a disponibilidade de mão de obra se tornou um fator cada vez mais importante para a gestão e a competitividade das propriedades.
Por que isso interessa ao consumidor?
A discussão vai muito além do campo.
Frutas, verduras e legumes fazem parte da alimentação diária da população, e qualquer mudança na forma de produzir pode afetar a oferta, os custos e, consequentemente, os preços desses alimentos.
A adoção de tecnologia pode ajudar o produtor a manter a produção mesmo com menos trabalhadores disponíveis. Por outro lado, exige investimento e adaptação, principalmente de propriedades que possuem menor capacidade financeira.
O estudo do Cepea reuniu evidências científicas, experiências internacionais e relatos de produtores e empresas da cadeia de frutas e hortaliças para analisar como o setor está reagindo à mudança no mercado de trabalho.
O cenário mostra que a falta de mão de obra está deixando de ser apenas uma questão trabalhista e passando a fazer parte das decisões sobre produção, investimento e tecnologia no campo.
E, para o consumidor, a consequência pode aparecer na própria forma como os alimentos chegam à mesa.
Fonte: Cepea – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP.