O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo ordena que o candidato ao Senado Guilherme Derrite (PP) retire do ar um vídeo em que acusa Fernando Haddad (PT) de comprar drogas com dinheiro público na Cracolândia quando era prefeito da capital. A Justiça classifica o material como notoriamente falso e capaz de distorcer o debate eleitoral em curso no estado.
Juiz vê ataque que ultrapassa crítica política
A decisão, assinada pelo juiz Ronnie Herbert Barros Soares, atinge diretamente uma das principais frentes da campanha de Derrite nas redes sociais. No vídeo, o ex-secretário de Segurança Pública ataca o programa “De Braços Abertos”, criado na gestão Haddad para atender usuários de drogas com trabalho remunerado e acompanhamento social.
Nas imagens, Derrite afirma que a iniciativa ficou conhecida como “bolsa crack” e acusa o adversário de financiar o consumo de entorpecentes. “O Haddad, que foi prefeito, instituiu uma política pública chamada Braços Abertos, que ficou conhecida como ‘bolsa crack’. Seria um absurdo se não fosse verdade, se não tivesse acontecido na cidade de São Paulo. Ele usou recurso público para comprar droga para os usuários de entorpecente, na Cracolândia, que nós resolvemos”, diz o candidato ao Senado.
Ao analisar a representação, o juiz conclui que o vídeo não apenas exagera, mas distorce a política pública a ponto de criar um fato inexistente. No despacho, Soares afirma que se trata de “conteúdo notoriamente inverídico ou gravemente descontextualizado com potencial de comprometer a regularidade do processo eleitoral”.
O magistrado também escreve que, em avaliação preliminar, a documentação apresentada indica que a fala de Derrite “extrapola o campo da crítica política e assume contornos de imputação fática determinada, apta a influenciar a percepção do eleitorado acerca de tema sensível do debate eleitoral”. A ordem é para remoção do vídeo das plataformas em que foi publicado, sob pena de sanções.
Haddad reage e vincula ataque a onda de fake news
Fernando Haddad reage à decisão judicial vinculando o caso a uma série de ataques que diz sofrer de grupos associados à extrema direita e ao entorno do governo paulista. Ele afirma que a estratégia se repete a cada ciclo eleitoral e tenta reescrever sua gestão na capital com base em informações falsas.
Ao comentar o episódio, Haddad recupera dados de sua passagem pela prefeitura para sustentar que sua política na área social se baseia em resultados verificáveis. “Em 2022 eu ganhei a eleição na capital do Tarcísio porque penso que muita mentira que foi contada naquela ocasião foram sendo revistas. O Tarcísio me acusou de não ter enfrentado a fila de creche como prefeito. Eu revi os número do MEC e eu fui o prefeito que mais abriu vaga de Educação infantil na história da cidade. Foram 101 mil vagas de creche em 4 anos”, afirma o petista.
Haddad lembra ainda que já foi alvo de acusação semelhante, feita por um ex-secretário de Segurança Pública, e diz que a Justiça também determinou a retirada daquele conteúdo. “O secretário [de Segurança Pública] do Tarcísio já devidamente punido me acusou de ter comprado droga e distribuído na Cracolândia. Imagina um Secretário de Segurança que é candidato, acusar um adversário de comprar droga para distribuir. A Justiça puniu, mandou tirar do ar, mas esse tipo de coisa num país ainda muito polarizado, tem efeito [ruim] para a democracia”, afirma.
Programa na Cracolândia vira eixo da disputa
No centro da polêmica está o programa “De Braços Abertos”, implementado na região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo. A iniciativa combina oferta de emprego em frentes de serviço da prefeitura, moradia em hotéis sociais e acompanhamento de saúde, em troca do compromisso dos participantes com rotinas mínimas de convivência e redução de danos.
Derrite transforma esse desenho em munição política e tenta associar o programa à facilitação do consumo de drogas. A linha de ataque mira um ponto sensível do eleitorado paulista: a sensação de insegurança no centro da cidade e a percepção de fracasso de políticas anteriores na Cracolândia. A estratégia, porém, esbarra agora em um limite jurídico explícito traçado pelo TRE-SP.
Haddad responde enfatizando a avaliação de resultados feita por organismos externos. “Nós não fazemos nada com que não seja baseado em evidências. Nós vamos voltar para fake news de novo. Nós vamos voltar para mentira. A Open Society, que é uma ONG internacional, fez uma avaliação do ‘Braços Abertos’ e garantiu que dois terços das pessoas atendidas reduziram o consumo de droga”, diz o candidato ao governo.
Liberdade de expressão em choque com combate à desinformação
A determinação do TRE-SP ecoa um movimento mais amplo da Justiça Eleitoral para conter a disseminação de fake news durante as campanhas. A corte não discute a dureza das críticas entre adversários, mas estabelece que acusações factuais precisam ter lastro mínimo na realidade para circular em época de voto.
Na prática, a decisão protege Haddad de uma imputação de crime com potencial de dano imediato à sua imagem num momento em que a corrida estadual se acirra. Ao mesmo tempo, pressiona Derrite, que constrói parte de sua identidade política como secretário de Segurança Pública exonerado e linha-dura na repressão ao crime, a recalibrar o tom de seus ataques nas redes.
Nos bastidores, o recado é claro para marqueteiros e candidatos: vídeos curtos e de forte apelo emocional, hoje peça central da disputa digital, entram no radar da Justiça. A tentativa de explorar a indignação do eleitor com a Cracolândia por meio de narrativas falsas passa a ter custo jurídico mais alto.
Enquanto a equipe de campanha de Derrite ainda não se manifesta sobre a determinação, aliados de Haddad veem na decisão um incentivo para acionar a Justiça sempre que julgarem que a crítica descamba para calúnia. Advogados eleitorais apontam que esse tipo de precedente tende a multiplicar pedidos de remoção de conteúdo até o fim da eleição.
O que vem a seguir na campanha paulista
Num ambiente já polarizado, o caso alimenta o debate sobre os limites da liberdade de expressão em disputas políticas. A intervenção do TRE-SP não impede críticas duras à política de drogas ou à gestão da Cracolândia, mas sinaliza que não haverá espaço para transformar programas públicos em fantasia criminal sem prova.
A tendência é de aumento no monitoramento, tanto pelo Judiciário quanto pelas próprias plataformas digitais, de discursos que associem adversários a práticas ilícitas sem respaldo documental. Para candidatos que investem em mensagens inflamadas, o episódio serve de alerta: a estratégia pode render engajamento rápido, mas também ordens de retirada, multas e questionamentos sobre credibilidade.
Até o fim da campanha, o embate em torno do vídeo de Derrite deve permanecer como símbolo dessa fronteira móvel entre crítica política e desinformação. A Justiça Eleitoral se coloca como árbitro desse limite. Resta ver se os candidatos vão adaptar o discurso ao novo ambiente de vigilância ou insistir na aposta em ataques que testam, dia após dia, a resistência das regras do jogo democrático.