Miguel Falabella, 69, rompe a própria barreira de discrição e fala abertamente sobre seus dois filhos, o primeiro neto e uma pneumonia silenciosa recente, em entrevista ao Roda Viva.
Filhos, neto e a decisão de se blindar
O ator revela ao vivo que é pai de Theo e Cassiano, filhos biológicos de uma amiga, e que acaba de se tornar avô. A novidade vem depois de décadas em que ele manteve a paternidade fora do debate público. “Tenho um netinho”, diz, com um sorriso que contrasta com a fama de controlar rigorosamente o que expõe da vida íntima.
Falabella explica que escolhe o silêncio por considerar que só ele, não os filhos, é figura pública. Quis evitar que a família virasse pauta de curiosidade e julgamento. “Nunca quis ter rótulos. Me blindei mesmo. Nunca transformei a vida em espetáculo”, afirma. Lembra que começa a carreira em um ambiente marcado por forte preconceito e acredita que a discrição protege sua trajetória profissional.
“Na época em que vivemos com preconceito, talvez eu não tivesse feito metade do que eu fiz (…) Eu nunca tive nenhum problema com a minha vida.”
Ele reforça que vive afetos e relações com liberdade, mas prefere que isso não se torne combustível para manchetes.
“Eu nunca levantei bandeiras, mas eu sempre vivi muito à vontade. Não acho que a minha vida seja, acho que o meu trabalho é muito mais interessante do que a minha vida”, afirma, ao comentar como encara a curiosidade sobre sua intimidade.
Boatos cruéis e o preço da fama
A proteção, conta, não o livra de boatos devastadores. Falabella lembra o período em que espalham que ele teria HIV e chegam a publicar que estaria morto. O episódio atinge sua rotina profissional e a relação direta com o público. “Falaram que eu, Claudia Raia e alguns artistas tínhamos. Foi horrível”, recorda.
Na narrativa mais dura da noite, ele descreve a sensação de se tornar persona non grata por causa de notícias falsas.
“Lembro que fui fazer espetáculo em Londrina e saiu no jornal que eu tinha morrido no Hospital das Clínicas em São Paulo. Aí me falaram: ‘Não tem nenhum ingresso vendido’ (…). No Natal, entrei em uma loja e ela foi se esvaziando (…) Foi cruel.”
O relato expõe a fragilidade da reputação de um artista diante de rumores maldosos, antes da era das redes sociais e das respostas imediatas.
Ainda assim, o ator diz que nunca se interessou em usar a própria vida como arma de contra-ataque. Relembra que, ao publicar recentemente no Instagram uma foto de Alexandre Altoé, se surpreende com a reação desmedida de parte dos seguidores, intrigados com a identidade do rapaz. A curiosidade o incomoda mais do que lisonjeia.
“Nunca me interessei pela vida de ninguém, nunca permiti que se interessassem pela minha”, comenta, ao criticar o “desespero” gerado por uma imagem.
Pneumonia silenciosa e a experiência de quase partida
Falabella narra também o episódio mais recente e delicado de sua vida: uma pneumonia silenciosa que o derruba há cerca de três semanas. Estava sozinho no Rio quando o corpo acende o sinal vermelho. “Eu tive uma pneumonia três semanas atrás. Foi uma pneumonia silenciosa: de repente, me deitei e acordei muito mal”, conta.
Sem ninguém por perto, ele chama um carro por aplicativo e segue ao hospital. O diagnóstico é rápido, a internação é imediata, e ele pede algo para dormir. “Apaguei. Acordei no meio da noite com a sensação de paz tão grande (…). Mas pensei: ‘Tem tanta gente de quem quero me despedir e abraçar. Não quero ir hoje’. Não tive medo. Foi uma experiência tão estranha.”
O relato mistura serenidade e susto. Falabella não dramatiza a doença, mas a descreve como um ponto de inflexão. A ideia de que poderia simplesmente não acordar o leva a reorganizar prioridades e a olhar a própria trajetória com urgência renovada. Ao contar a história em rede nacional, ele dá dimensão pública a um alerta privado: problemas respiratórios graves podem surgir sem aviso, principalmente em pessoas mais velhas, e exigem atenção imediata.
Livro sobre as mulheres da vida e uma nova fase
A passagem pelo hospital se converte em projeto literário e em síntese de uma vida cercada de figuras femininas fortes. Falabella anuncia o desejo de escrever um livro sobre as mulheres marcantes de sua história pessoal e profissional. “A ideia me deu o desejo de priorizar. Quero fazer as coisas que eu quero fazer, quero escrever um livro sobre essas grandes mulheres que passaram na minha vida”, explica.
O título já está escolhido: “Eu as tive em meus braços”. “Sou eu lembrando dessas grandes mulheres que eu tive em meus braços. Já tenho até nome: Eu as tive em meus braços”, detalha. O projeto aponta para uma nova fase da carreira, mais voltada à memória e às relações afetivas, e menos ao personagem público afiado que o grande público associa a humor, dramaturgia e televisão.
A abertura rara sobre filhos, neto, doença e boatos sinaliza uma mudança de chave. O ator, que por décadas se blinda, agora negocia um novo pacto com a exposição: fala do que importa a ele, à sua saúde e à sua família, sem abrir mão da defesa da privacidade. A entrevista reacomoda a imagem de Miguel Falabella diante do público, que passa a enxergar também o avô recente que saiu de uma internação decidido a escrever sobre quem o sustentou ao longo da vida.
Os próximos meses devem mostrar se essa franqueza se repete em novos projetos, em especial no livro anunciado, e como essa aproximação mais íntima será recebida por fãs, colegas e pelo próprio mercado editorial. A pneumonia silenciosa, transformada em relato de consciência e escolha, tende a seguir ecoando tanto em sua obra quanto na maneira como ele encara a própria vulnerabilidade.