O Grupo Casas Bahia entrou em uma nova frente de batalha para preservar o caixa enquanto tenta reorganizar suas finanças. A varejista pediu à Justiça de São Paulo que determine ao Banco do Brasil a devolução de R$ 422 milhões que foram debitados de suas contas após o banco honrar garantias relacionadas a fornecedores da companhia.
O pedido ocorre poucos dias depois de a empresa entrar com um pedido de recuperação judicial, em um processo que envolve R$ 17,3 bilhões em dívidas. A preocupação agora é evitar que novos bloqueios e retenções de recursos comprometam o dinheiro necessário para manter a operação da companhia.
Segundo a petição apresentada pela Casas Bahia, o Banco do Brasil atuou como fiador em garantias contratadas pela empresa junto à Apple e à Mapfre Seguros. Depois de realizar os pagamentos previstos nas garantias, o banco teria debitado o equivalente das contas da varejista para se reembolsar.
A movimentação ocorreu na sexta-feira (21), segundo os advogados da empresa. Na segunda-feira (24), a Casas Bahia recorreu à Justiça para tentar recuperar o dinheiro.
R$ 422 milhões no centro da disputa
Para a Casas Bahia, a retirada dos recursos acontece em um momento especialmente delicado. A companhia sustenta que os valores deveriam ser submetidos às regras da recuperação judicial e que a retenção prejudica diretamente sua capacidade de manter o fluxo de caixa.
A empresa também afirma que não está enfrentando apenas a disputa com o Banco do Brasil.
De acordo com a varejista, outros credores e instituições financeiras passaram a restringir o acesso a recursos ou a reter valores. Entre eles está o BTG Pactual. Empresas de pagamentos, como Cielo, Getnet e Redecard, também teriam realizado retenções de recebíveis. No caso da Getnet, o montante ultrapassaria R$ 14 milhões.
A preocupação é que a sequência de bloqueios provoque um efeito dominó: com menos dinheiro disponível, a empresa pode enfrentar dificuldades para pagar fornecedores e manter o abastecimento das lojas.
Recuperação judicial envolve R$ 17,3 bilhões
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia foi apresentado em agosto e envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo.
O passivo total da companhia, porém, é ainda maior e chega a cerca de R$ 28 bilhões, considerando também débitos que ficam fora da recuperação judicial. Entre os credores estão grandes bancos e fornecedores.
A recuperação judicial é utilizada pela empresa para tentar reorganizar suas obrigações financeiras e evitar que a pressão dos credores provoque uma interrupção de suas atividades.
Nesse cenário, o caixa se tornou um dos principais pontos de tensão.
Empresa teme impacto nas operações
Na ação apresentada à Justiça, a Casas Bahia argumenta que a saída de recursos em meio ao processo de recuperação pode comprometer sua capacidade operacional.
A empresa aponta risco de dificuldades no fornecimento de produtos, principalmente daqueles com maior demanda. A varejista também afirma possuir cerca de 29 mil ações trabalhistas em andamento, o que amplia a pressão sobre sua estrutura financeira.
A companhia busca, portanto, preservar os recursos disponíveis enquanto negocia uma saída para o elevado endividamento.
Um dos mecanismos considerados fundamentais nesse momento é o chamado stay period, período de proteção previsto na recuperação judicial que pode suspender execuções e determinados bloqueios por até 180 dias. A medida tem justamente o objetivo de criar um intervalo para que a empresa consiga negociar com seus credores sem sofrer uma corrida imediata sobre seu patrimônio.
Justiça ainda não decidiu sobre os R$ 422 milhões
Até o momento, a Justiça de São Paulo ainda não decidiu se determinará a devolução dos R$ 422 milhões ao caixa da Casas Bahia.
A disputa coloca em lados opostos a necessidade de preservação da empresa e os interesses dos credores que buscam receber os valores devidos.
Para a varejista, recuperar o dinheiro pode representar uma injeção importante de liquidez justamente no momento em que tenta impedir que a crise financeira avance sobre suas operações.
A situação será acompanhada de perto porque os primeiros dias de uma recuperação judicial costumam ser decisivos. Se os recursos continuarem sendo bloqueados ou retidos em diferentes frentes, a capacidade de funcionamento da empresa pode ficar ainda mais pressionada.
Entenda o contexto
A Casas Bahia atravessa uma das maiores crises financeiras de sua história. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial diante de um endividamento de R$ 17,3 bilhões incluído no processo, enquanto o passivo total chega a cerca de R$ 28 bilhões.
Agora, além de negociar uma reestruturação com os credores, a empresa tenta impedir que bancos, fornecedores e empresas de pagamento retirem recursos de seu caixa.
A disputa pelos R$ 422 milhões debitados pelo Banco do Brasil é uma das primeiras grandes batalhas dessa recuperação e pode ser decisiva para preservar a liquidez da varejista durante o processo.