O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) selou uma trégua com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), durante um almoço no Palácio da Alvorada nesta quarta-feira (26). O encontro serviu para retomar o diálogo entre o Executivo e o Congresso e destravar pautas prioritárias do governo.
A reunião ocorre a pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, e às vésperas do esforço concentrado do Congresso, previsto entre 31 de agosto e 4 de setembro. Será a última janela de votações antes da campanha eleitoral avançar sobre a rotina do Legislativo.
Entre os principais assuntos que devem avançar estão o fim da escala de trabalho 6×1, a PEC da Segurança Pública, a chamada “taxa das blusinhas”, o programa Redata, voltado à instalação de data centers, e o marco legal dos minerais críticos. As medidas têm potencial para se transformar em vitrines da campanha de Lula à reeleição.
Fim da escala 6×1 volta ao centro do debate
Uma das principais pautas do acordo é a proposta que pretende acabar com a escala de trabalho 6×1. O texto já foi aprovado pela Câmara e está em tramitação no Senado, onde deverá ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O senador Omar Aziz (PSD-AM), relator da proposta, deverá apresentar seu parecer na próxima semana. A previsão é que a CCJ analise o texto durante o esforço concentrado, em uma tentativa de acelerar a tramitação antes do período eleitoral.
A proposta é considerada uma das principais bandeiras trabalhistas de Lula para a eleição. Pesquisa Datafolha citada pela imprensa aponta que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1. A oposição, entretanto, tenta apresentar alternativas ao texto e questiona a velocidade da tramitação.
O avanço da proposta também representa uma mudança no relacionamento entre Planalto e Senado. O texto estava parado enquanto Lula e Alcolumbre atravessavam um período de tensão política. A retomada do diálogo abriu espaço para que a matéria voltasse à pauta.
“Taxa das blusinhas” também pode avançar
Outro tema com forte potencial eleitoral é a medida provisória que suspendeu a cobrança de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas por pessoas físicas dentro do programa Remessa Conforme.
A MP perde a validade em 8 de setembro e, por isso, precisa ser analisada pelo Congresso antes desse prazo. O acordo firmado no Alvorada prevê que a comissão responsável pela matéria seja instalada na próxima semana, com expectativa de votação durante o esforço concentrado.
A pauta ganhou importância política porque a cobrança, conhecida popularmente como “taxa das blusinhas”, afeta diretamente consumidores que compram produtos de baixo valor em plataformas internacionais. Lula já havia defendido publicamente o avanço da medida.
Segurança Pública e outras pautas
A PEC da Segurança Pública também está entre os assuntos que deverão avançar. A proposta já passou pela Câmara e agora tramita no Senado, onde será analisada pela CCJ.
Lula afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a PEC seja aprovada. A proposta busca reorganizar competências e mecanismos de atuação na área de segurança, um dos temas de maior peso na campanha eleitoral deste ano.
Também entraram na negociação o Redata, projeto que cria incentivos para a instalação de data centers no Brasil, e o marco legal dos minerais críticos. O primeiro tem potencial de atrair investimentos estimados em até R$ 500 bilhões, segundo o governo.
Apesar do acordo político, nem todas as matérias têm votação garantida em plenário na próxima semana. O compromisso mais concreto anunciado pelos presidentes das Casas envolve a MP das compras internacionais. Os demais projetos dependem da tramitação nas comissões e das negociações entre os parlamentares.
Reaproximação com o Congresso
A reunião representa uma tentativa de Lula de reconstruir uma relação mais estável com os comandos da Câmara e do Senado. O distanciamento entre o Planalto e Alcolumbre vinha dificultando o avanço de algumas das principais propostas defendidas pelo governo.
Agora, com a aproximação entre os três principais nomes da articulação institucional, o governo ganhou uma janela para transformar pautas populares em resultados legislativos antes das eleições.
O movimento ocorre justamente no momento em que Lula intensifica sua campanha pela reeleição e busca apresentar ao eleitorado medidas com impacto direto sobre a vida cotidiana, como jornada de trabalho, preços de compras internacionais e segurança pública.
Mais do que uma simples negociação entre Executivo e Legislativo, o acordo coloca o Congresso no centro da estratégia eleitoral de Lula. A poucas semanas das urnas, cada projeto aprovado poderá se transformar em uma bandeira para a campanha — e cada derrota, em munição para os adversários.
Entenda o contexto
O encontro entre Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre ocorre em um momento decisivo do calendário político de 2026. O Congresso terá apenas uma semana de votações presenciais antes do avanço do período eleitoral, e o governo tenta utilizar essa janela para destravar propostas que estavam paradas ou avançando lentamente. O fim da escala 6×1 e a suspensão da chamada “taxa das blusinhas” são especialmente relevantes por terem forte apelo popular e poderem ser incorporados ao discurso eleitoral do presidente. A reaproximação com os chefes das duas Casas, portanto, não representa apenas uma trégua institucional: também cria condições para que Lula apresente resultados concretos antes do primeiro turno.