Candidatos ao GDF pedem investigação de repasses de R$ 1,4 milhão a empresa ligada à família de Celina Leão

Representação entregue ao MPDFT aponta 14 pagamentos mensais de R$ 100 mil feitos por empresa contratada pelo governo a negócio controlado pelo marido e pela filha da governadora
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Candidatos ao Governo do Distrito Federal se uniram nesta terça-feira (8/9) para pedir ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) a investigação de repasses que somam R$ 1,4 milhão feitos por uma empresa com contratos com o GDF a uma companhia ligada à família da governadora e candidata à reeleição, Celina Leão (PP).

A representação foi entregue por Leandro Grass, José Roberto Arruda, Kiko Caputo, Paula Belmonte e Ricardo Cappelli durante reunião com o procurador-geral de Justiça do DF, Georges Seigneur, na sede do MPDFT. O documento pede a abertura de investigação cível e criminal, além do encaminhamento do caso à Procuradoria Regional Eleitoral para análise de possíveis impactos na disputa eleitoral.

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Entenda o que aconteceu

A representação tem como base uma denúncia publicada pelo jornal O Globo sobre pagamentos realizados pela Real JG Facilities, empresa que mantém contratos com o Governo do Distrito Federal, à Faceng Engenharia.

Segundo as informações reunidas pelos candidatos, foram realizados 14 pagamentos mensais de R$ 100 mil entre maio de 2025 e junho de 2026, totalizando R$ 1,4 milhão. O documento também aponta um repasse adicional de R$ 100 mil em julho de 2026, feito pela 3J Facilities.

Trecho da representação entregue ao MPDFT detalha os repasses de R$ 1,4 milhão à empresa ligada à família de Celina Leão.
Trecho da representação entregue ao MPDFT detalha os repasses de R$ 1,4 milhão à empresa ligada à família de Celina Leão.

A Faceng Engenharia é controlada por Fabrício Faleiro Ferreira, marido de Celina Leão, e tem como sócia Bruna Victória Leão Machado de Araújo, filha da governadora.

Pagamentos começaram quando Celina era vice-governadora

De acordo com a representação, os repasses começaram quando Celina Leão ainda ocupava o cargo de vice-governadora e continuaram depois que ela assumiu o comando do Executivo, em março de 2026.

O documento destaca que R$ 400 mil teriam sido pagos à Faceng após Celina assumir a chefia do governo, considerando os quatro repasses realizados entre março e junho deste ano.

Os candidatos sustentam que a continuidade dos pagamentos durante o período em que Celina passou a comandar o Executivo justifica a apuração pelo Ministério Público.

A representação, porém, registra que a existência do pedido de investigação não representa condenação antecipada. Caberá aos órgãos competentes analisar a documentação e verificar se houve irregularidade.

Empresa que fazia os pagamentos tem contrato com o GDF

Um dos pontos destacados pelos candidatos é a existência de contrato entre a Real JG Facilities e a Vice-Governadoria do Distrito Federal.

O acordo foi firmado em agosto de 2024, no valor de R$ 2,23 milhões, com vigência de cinco anos. Segundo a representação, o contrato prevê prestação de serviços com dedicação exclusiva de mão de obra, além do fornecimento de insumos e equipamentos, incluindo serviços de copeiragem e infraestrutura.

A representação questiona a relação entre a empresa contratada pelo poder público e os pagamentos realizados à empresa ligada ao marido e à filha da governadora.

Segundo o documento, os envolvidos sustentam que os pagamentos seriam resultado de transações comerciais privadas, relacionadas ao acompanhamento de obras particulares no Distrito Federal e em Goiás.

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Representação questiona documentos e serviços

Os candidatos também apontam o que consideram inconsistências nas informações apresentadas sobre os pagamentos.

De acordo com a representação, as notas fiscais seriam genéricas e não detalhariam as obras ou serviços realizados. O documento cita ainda a ausência de Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) relacionadas às atividades mencionadas.

Outro ponto levantado é uma suposta divergência sobre a própria natureza dos serviços. Enquanto a defesa de Fabrício Faleiro Ferreira teria informado que os pagamentos estavam relacionados ao acompanhamento de obras privadas, o departamento jurídico da Real JG teria afirmado que a contratação da Faceng não envolvia execução direta de obras.

Os candidatos também questionam a compatibilidade entre a atividade principal cadastrada da Faceng Engenharia, relacionada à manutenção de aeronaves, e os serviços descritos nas notas fiscais e relacionados a obras civis, hidráulicas e elétricas.

Esses pontos foram apresentados ao Ministério Público como elementos que, na avaliação dos candidatos, precisam ser esclarecidos durante uma eventual investigação.

Candidatos dizem ter deixado diferenças eleitorais de lado

Durante a entrega da representação, José Roberto Arruda afirmou que a iniciativa reúne candidatos de diferentes partidos em torno do pedido de apuração.

Aqui é um movimento suprapartidário. Deixamos de lado as nossas naturais diferenças ideológicas, diferentes projetos para Brasília, para nos unirmos em torno do mínimo de transparência do atual governo.

Arruda também afirmou que o grupo considera a apresentação da documentação ao Ministério Público um dever cívico.

O que estamos fazendo é um dever cívico de levar ao Ministério Público a documentação e pedir investigação séria sobre este caso.

Paula Belmonte defende esclarecimento dos fatos

Paula Belmonte também destacou o caráter conjunto da representação e afirmou que o objetivo dos candidatos é pedir uma investigação, sem antecipar julgamento sobre o caso.

Não estamos aqui para fazer julgamento. Estamos aqui para pedir investigação. Quando uma contratada do governo transfere R$ 1,4 milhão para um negócio ligado à família de quem governa, Brasília tem o direito de saber por quê.

A candidata afirmou ainda que as diferenças entre os concorrentes ao Palácio do Buriti não deveriam impedir o pedido de esclarecimento sobre os repasses.

Nós somos adversários nesta eleição. Temos diferenças, projetos e visões diferentes para Brasília. Mas há uma coisa que precisa estar acima de qualquer disputa: o interesse público.

O que os candidatos pedem ao Ministério Público

Além da investigação cível e criminal, a representação solicita a obtenção de documentos relacionados às operações, como contratos, notas fiscais, ordens de serviço, medições e comprovantes de pagamento.

Os candidatos também pedem que sejam identificados os empreendimentos que teriam sido objeto dos serviços prestados pela Faceng Engenharia.

O documento solicita ainda o encaminhamento do caso à Procuradoria Regional Eleitoral, para análise de eventual repercussão na disputa eleitoral, e à Procuradoria-Geral da República, para as providências que forem consideradas de competência do órgão em relação à governadora.

Entenda o contexto

A representação apresentada nesta terça-feira coloca sob análise do Ministério Público uma relação comercial que, segundo os envolvidos, teria natureza privada, mas que é questionada pelos candidatos devido à existência de contratos da empresa pagadora com o Governo do Distrito Federal.

A defesa do marido de Celina Leão e a Real JG sustentam que os pagamentos decorreriam de uma relação comercial privada, ligada ao acompanhamento de obras. O governo, por sua vez, afirma que a contratação da Real JG pelo poder público ocorreu por meio de pregão eletrônico regular e que não interfere nos negócios privados da empresa.

Agora, caberá ao Ministério Público analisar a representação e a documentação apresentada pelos candidatos para decidir se há elementos que justifiquem a abertura de investigação e quais providências deverão ser adotadas.

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