Suco de laranja perde 40% do valor e excesso de oferta pressiona produtores

Cotações recuaram com estoques maiores e queda no consumo, enquanto greening mantém custos elevados para a citricultura brasileira.
Redação NC News
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O suco de laranja perdeu cerca de 40% do valor em 12 meses na Bolsa de Nova York, em um cenário marcado por estoques mais elevados, menor consumo e aumento da oferta brasileira. Ao mesmo tempo, os produtores continuam enfrentando custos altos, principalmente por causa do avanço do greening nos pomares.

O cenário representa uma forte mudança depois dos preços recordes registrados entre 2023 e 2025. Com uma safra mais volumosa em 2025/26, a oferta aumentou, mas a demanda internacional não acompanhou o mesmo ritmo.

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Entenda o que aconteceu

A primeira reestimativa do Fundecitrus para a safra 2026/27 aponta produção de 263,15 milhões de caixas de 40,8 quilos no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro.

O número representa alta de 3,1% em relação à projeção anterior, mas ainda fica abaixo das 295 milhões de caixas produzidas na safra 2025/26.

A produção maior do ciclo anterior ajudou a recompor os estoques da indústria. Como as exportações cresceram pouco, sobrou mais produto disponível e os preços começaram a recuar.

Preço da laranja também caiu

A pressão não ficou restrita ao mercado internacional de suco.

Em 12 meses até 3 de agosto, a laranja destinada à indústria caiu cerca de 30%, chegando a R$ 30,57 por caixa, de acordo com o Cepea.

Na Bolsa de Nova York, o suco de laranja recuou aproximadamente 40% no mesmo período, para perto de US$ 154,95 por libra-peso.

A queda acontece depois de um período excepcional para a citricultura. Em 2024, a combinação entre oferta muito restrita e uma das menores safras das últimas décadas levou o suco a níveis historicamente elevados.

Com a recuperação da produção em 2025/26, a relação entre oferta e demanda mudou.

Estoques maiores ajudam a explicar a queda

Na safra 2025/26, os embarques brasileiros cresceram apenas 3,7%, para 805 mil toneladas em equivalente de suco concentrado e congelado (FCOJ), com receita de US$ 2,54 bilhões.

O problema é que a produção havia crescido 27%.

Com a demanda externa avançando em ritmo menor, a indústria acumulou estoques. Esse volume funciona como uma espécie de colchão de oferta e reduz a necessidade de uma alta imediata das cotações mesmo diante de uma safra menor.

Em dezembro de 2025, os estoques brasileiros de suco chegaram a 616,46 mil toneladas, alta de 75,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Consumidor ainda paga caro

A queda nas cotações internacionais ainda não chegou totalmente às prateleiras.

Nos Estados Unidos, um dos principais mercados consumidores, o suco concentrado e congelado era vendido em junho por US$ 4,87 por lata de 473,2 mililitros, um dos maiores valores nominais da série histórica.

Com o preço elevado no varejo, o consumo também caiu.

Dados da Nielsen citados pelo Itaú BBA mostram que as vendas de suco de laranja nos Estados Unidos somaram 274,7 milhões de galões nas 52 semanas encerradas em 11 de julho, uma queda de 8,3%.

Entre os produtos, as vendas de suco reconstituído caíram 12,1%, enquanto o concentrado congelado recuou 15,2%. O NFC, suco não concentrado, teve queda menor, de 5,2%.

Greening mantém produtor sob pressão

Enquanto os preços caem, o produtor continua lidando com custos elevados.

O greening, doença que afeta os pomares, exige manejo mais intensivo e maior frequência de aplicações. Segundo estimativa do Itaú BBA, 49,6 milhões de caixas deixaram de ser colhidas na safra 2025/26 por causa da doença.

Considerando um preço médio de referência de R$ 37 por caixa, o impacto potencial sobre a receita bruta do campo chegou a aproximadamente R$ 1,8 bilhão.

A incidência do greening chegou a 47,6% do cinturão citrícola em 2025/26, segundo o Fundecitrus.

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Estados Unidos continuam importantes para o Brasil

Apesar da queda no consumo, os Estados Unidos continuam sendo um mercado fundamental para o suco brasileiro.

Na safra 2025/26, os americanos aumentaram em 16% as compras de suco brasileiro, chegando a 360 mil toneladas em equivalente FCOJ. O país respondeu por 45% dos embarques brasileiros.

A União Europeia também permanece relevante, mas reduziu as compras. As exportações brasileiras para o bloco somaram 369 mil toneladas, queda de 5,8%, representando 46% das vendas externas.

A produção americana continua prejudicada pelo greening, furacões e redução da área cultivada, especialmente na Flórida. Isso mantém a necessidade de importação, mas o preço elevado do produto limita o consumo.

Mercado muda preferência pelo tipo de suco

Além de consumir menos, o consumidor também está mudando o tipo de produto escolhido.

O NFC, que não passa pelo processo de concentração, ganhou participação nos Estados Unidos e chegou a representar 68,1% do volume vendido, contra 65,8% anteriormente.

A tendência também aparece nas exportações brasileiras. Na safra 2025/26, o NFC respondeu por 43% dos embarques nacionais em equivalente FCOJ, mais que o dobro da participação registrada uma década atrás.

O produto tem maior valor agregado e é associado a uma imagem de bebida mais natural, mas exige frutas de melhor qualidade, processamento específico e uma logística mais complexa.

Entenda o contexto

O mercado de suco de laranja vive uma inversão em relação ao cenário observado poucos anos atrás.

A escassez de frutas e os problemas nas safras anteriores fizeram os preços dispararem. O valor elevado, porém, acabou reduzindo o consumo e estimulando consumidores a buscar alternativas.

Agora, com a recomposição dos estoques e uma produção maior no ciclo passado, o mercado tem mais oferta disponível. A consequência foi uma forte queda nas cotações.

Para o produtor brasileiro, o desafio é ainda maior porque a remuneração caiu enquanto os custos permanecem elevados, principalmente por causa do greening.

A próxima safra deve crescer em relação à projeção anterior, mas ainda ficará abaixo da produção de 2025/26. Além disso, o possível impacto do El Niño durante o período de florada, entre setembro e novembro, adiciona incerteza ao cenário.

O setor, portanto, entra em uma fase de maior seletividade, na qual escala, tecnologia, irrigação, sanidade dos pomares e eficiência operacional podem fazer diferença na capacidade de manter as margens.

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