Estudantes empurram barcos na lama para conseguir chegar à escola durante seca no Amapá

Seca severa no Arquipélago do Bailique baixou o nível dos rios e obriga alunos a arrastar embarcações, caminhar pela lama e atravessar trechos de mata para chegar às aulas.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

No Arquipélago do Bailique, no Amapá, ir para a escola virou um desafio diário para estudantes que dependem do transporte pelos rios. Com a seca severa, o nível das águas baixou e deixou trechos dos canais tomados por lama, impedindo a passagem das embarcações.

Para conseguir chegar às aulas, os alunos precisam desembarcar, empurrar os barcos atolados e seguir a pé por trechos de mata. A região fica a cerca de 180 quilômetros de Macapá e reúne diversas comunidades que dependem do transporte fluvial.

VEJA TAMBÉM:

Amazônia preservada registra aumento de 3,2 °C na temperatura durante estação seca

Entenda o que aconteceu

A seca reduziu o nível dos rios e dificultou a navegação nos canais utilizados pelo transporte escolar. Em alguns pontos, a quantidade de água é tão pequena que as embarcações não conseguem avançar e ficam presas nos bancos de lama.

A estudante Cheuda de Pinho, de 18 anos, registrou em vídeo parte do trajeto que precisa fazer para chegar à escola.

“A gente faz esse mesmo trajeto todo dia: tem que empurrar a rabeta, mas ela não passa de tão seco que está.”
Segundo ela, depois de determinado ponto, os estudantes precisam deixar o barco e entrar na mata para conseguir chegar à comunidade.

Alunos esperam a maré para conseguir voltar para casa

A rotina escolar também passou a depender diretamente da variação da maré.

Quando o rio enche, as embarcações conseguem avançar. Já nos períodos de maré baixa, os barcos podem ficar encalhados e os estudantes precisam esperar na margem até que surja uma alternativa de transporte.

Em alguns casos, os alunos aguardam por horas em casas de apoio ou nas margens dos rios até conseguirem uma carona para atravessar os trechos que estão sem condições de navegação.

Caminhada na lama aumenta risco de acidentes

Além do esforço físico, os estudantes também enfrentam riscos durante os deslocamentos.

Com os trechos dos rios mais rasos, arraias ficam entre os animais que podem provocar acidentes. Moradores relatam que os jovens precisam entrar no leito dos rios para puxar as embarcações quando elas encalham.

Uma moradora que acolhe três estudantes em sua residência contou que os jovens acabam escolhendo enfrentar o risco de acidentes para não ficarem isolados.

A situação também afeta a rotina das comunidades, que dependem dos rios para acessar serviços básicos e se deslocar entre as localidades.

Seca pode durar meses no Bailique

O problema não é pontual. A estiagem faz parte do chamado “verão amazônico”, período que normalmente ocorre entre julho e dezembro.

A situação fica ainda mais complicada durante a chamada “maré morta”, quando a variação do nível da água é menor. Com pouca água nos canais, a navegação pode ficar completamente interrompida por vários dias.

LEIA TAMBÉM:

Taxa de seca em Manaus entra novamente no radar da ANTAQ e reacende debate sobre custo logístico na Amazônia

Governo diz que avalia situação

A Secretaria de Estado de Transportes (Setrap) informou que enviou uma equipe ao local para avaliar as condições enfrentadas na região.

Segundo a secretaria, os técnicos trabalham em conjunto com a Defesa Civil e está prevista uma vistoria com apoio do Grupo Tático Aéreo (GTA) para analisar a área.

O governo informou que detalhes do diagnóstico serão divulgados depois da avaliação técnica.

Entenda o contexto

A seca no Bailique vem afetando diretamente a mobilidade das comunidades. Em setembro, moradores já relatavam que o acúmulo de lama e areia no leito dos rios dificultava a passagem de embarcações e deixava comunidades isoladas.

Além da educação, a estiagem interfere no acesso a medicamentos, atendimento de saúde e outros serviços essenciais. Moradores também já haviam relatado a necessidade de novas intervenções para retirar os sedimentos dos canais.

A dificuldade de acesso às escolas não é inédita. Documentos do Ministério Público Federal também registraram problemas enfrentados por estudantes do Bailique durante períodos de seca, incluindo dificuldades de deslocamento para atividades educacionais.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS:

Jacaré de 2,5 metros invade jardim de casa e avança contra policiais nos EUA

Remake de ‘Zelda: Ocarina of Time’ pode finalmente explicar os maiores furos da linha do tempo da franquia

PF deflagra operação contra suspeita de desvios e afasta prefeito de Coari no Amazonas

 

Carregar Comentários