Elefante Sandro toma banho de terra em Mato Grosso e inicia nova vida após 40 anos em cativeiro

Após 40 anos em cativeiro, elefante inicia nova vida em santuário no Mato Grosso
Redação NC News
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O elefante Sandro, de 54 anos, deixa para trás mais de quatro décadas em cativeiro em Sorocaba e inicia uma nova rotina no Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães, após uma viagem de cerca de 1.600 quilômetros.

O animal chega ao novo lar com status de primeiro macho do santuário e passa pelos primeiros sinais de adaptação, como o banho de terra que protagoniza minutos depois de pisar no recinto.

Viagem longa, saída rápida

A transferência começou na quarta-feira (16), quando Sandro embarcou em uma caixa de transporte no Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba. O trajeto até o interior de Mato Grosso foi realizado com paradas para alimentação, descanso e monitoramento das condições de saúde do animal.

Na última etapa, em Campo Verde, a equipe precisou trocar a caixa para um caminhão menor, capaz de enfrentar o trecho final de estrada até o santuário. A logística envolveu motoristas, veterinários, tratadores e técnicos especializados, atentos aos sinais de estresse de um animal de mais de cinco toneladas.

Ao chegar à propriedade em Chapada dos Guimarães, pouco depois do início da tarde, Sandro surpreendeu quem o acompanhava. Assim que o portão da caixa foi aberto, às 13h31, ele caminhou para fora em menos de um minuto.

“A saída da caixa ocorreu de forma espontânea, sem que o animal fosse forçado pelas equipes responsáveis pelo acompanhamento. Assim que o recinto foi aberto, às 13h31, o elefante saiu em menos de um minuto, surpreendendo a todos”, relatou a equipe do Santuário de Elefantes Brasil.

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Banho de terra como cartão de visita

Os primeiros passos no novo terreno revelaram um comportamento que tranquilizou os cuidadores. Sandro investigou o solo, cheirou o ambiente e, em seguida, começou a lançar terra sobre o próprio corpo. A cena foi registrada pelos profissionais presentes.

“O comportamento foi registrado após Sandro concluir uma viagem de cerca de 1,6 mil quilômetros desde o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), onde viveu por décadas”, descreveu a equipe do santuário.

O gesto foi mais do que um ritual curioso para quem observou de longe.

“O ‘banho’ é um comportamento comum entre elefantes e ajuda, entre outras funções, a proteger a pele”, explicou o grupo responsável pelo manejo.

Em meio à poeira suspensa, o macho pareceu inaugurar uma fase em que teria mais autonomia para escolher onde caminhar, quando se refrescar e como explorar o espaço.

Macho solitário, fêmeas ao redor

A chegada de Sandro inaugurou uma nova configuração dentro do santuário. Ele se tornou o primeiro macho a viver na área, que hoje abriga seis fêmeas resgatadas de diferentes contextos de cativeiro. O encontro, porém, não foi imediato nem físico.

Por decisão técnica, o macho permaneceu em um recinto separado, mas próximo o suficiente para ver, ouvir e sentir o cheiro das demais.

“A separação leva em consideração o comportamento natural da espécie e também a política de não reprodução adotada pela instituição”, afirma o santuário.

Raphael, integrante da equipe, ressaltou o desafio inédito para o animal, que viveu boa parte da vida com poucos contatos sociais.

“Embora já tenha convivido com outros animais da mesma espécie no passado, esta será a primeira vez que ele estará em um ambiente com tantas fêmeas por perto”, diz.

A expectativa era de que, aos poucos, ele utilizasse as vocalizações e o olfato para estabelecer algum tipo de vínculo, mesmo sem dividir o mesmo cercado.

Do circo ao santuário, com luto no caminho

A trajetória de Sandro ajudou a dimensionar o impacto da mudança. Antes de chegar ao zoológico de Sorocaba, ele viveu em circo, experiência marcada por apresentações e confinamento intenso. No parque paulista, passou mais de quatro décadas em um recinto limitado, com piso artificial e poucos estímulos naturais.

Durante anos, dividiu o espaço com a elefanta Haisa, companheira constante até a morte dela, há cerca de seis anos. Desde então, o macho passou a viver sozinho, rotina que preocupou cuidadores e mobilizou defensores do bem-estar animal. O tratador Sergio Domingues acompanhou parte importante dessa história no zoológico, criando laços com o animal e defendendo uma solução que lhe oferecesse mais liberdade.

Em Chapada dos Guimarães, o cenário foi outro. O santuário ofereceu áreas extensas, com vegetação variada, terra, árvores e um lago. A ideia era que Sandro aprendesse a circular por diferentes relevos, encontrasse sombra natural e utilizasse o corpo com menos restrições, o que tenderia a favorecer a saúde das articulações, dos pés e do sistema cardiovascular.

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Desafios de manejo e impacto para o debate público

O novo capítulo não elimina preocupações. A equipe já mapeia, por exemplo, a aversão de Sandro ao barulho de equipamentos eletrônicos, como drones. O som agudo desses aparelhos assusta o animal, o que exige a revisão de protocolos de monitoramento aéreo e da realização de imagens para divulgação.

Esse cuidado reforça uma marca do santuário: adaptar ferramentas humanas ao ritmo do elefante, e não o contrário. O manejo diário passa a contemplar observação discreta, checagens de saúde menos invasivas e um esforço permanente para reduzir estímulos que possam provocar estresse.

A transferência também mexe com outros setores. Zoológicos e circos perdem um exemplar emblemático, o que tende a reacender questionamentos sobre a manutenção de grandes mamíferos em recintos tradicionais. Entidades de proteção animal enxergam na mudança um argumento concreto para defender ambientes mais naturais e políticas de bem-estar como prioridade.

O turismo ecológico local, por sua vez, ganha um residente de grande apelo simbólico. Ainda que a visitação ao santuário seja controlada, a presença de um macho idoso em processo de reabilitação ajuda a consolidar a área como referência em resgate e cuidados éticos com elefantes no Brasil.

Os próximos meses serão decisivos. O foco recai sobre a saúde física e emocional de Sandro, a resposta dele ao novo ambiente e a forma como se relacionará, ainda que à distância, com as seis fêmeas. O sucesso dessa adaptação pode abrir caminho para novas transferências de grandes mamíferos e consolidar um modelo brasileiro de manejo que concilia conservação, bem-estar e transparência pública.

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