Zuenir Ventura, que morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, construiu uma trajetória que atravessou algumas das principais transformações políticas, culturais e sociais do Brasil nas últimas sete décadas. Jornalista, escritor e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele ficou conhecido por transformar grandes acontecimentos nacionais em reportagens e livros que ajudaram a contar a história recente do país.
Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, Zuenir teve uma infância distante do ambiente intelectual que marcaria sua vida adulta. Trabalhou ainda jovem como pintor de paredes ao lado do pai e passou por empregos como contínuo de banco, faxineiro e balconista antes de chegar ao jornalismo. A carreira começou em 1956, quando trabalhava como arquivista.
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Do arquivo para a redação
A entrada de Zuenir no jornalismo aconteceu enquanto ele cursava Letras Neolatinas e trabalhava à noite como arquivista na Tribuna da Imprensa.
Um episódio envolvendo o escritor francês Albert Camus ajudou a mudar seu caminho profissional. Quando surgiu a necessidade de alguém escrever um artigo sobre o autor, de quem Zuenir era admirador, ele se ofereceu para produzir o texto.
O trabalho abriu espaço para que deixasse o arquivo e passasse a atuar diretamente na redação. A partir daí, iniciou uma carreira que se estenderia por décadas.
Passagens por algumas das principais redações do país
Ao longo da carreira, Zuenir ocupou funções de repórter, editor e chefe de redação em diferentes jornais e revistas brasileiros.
Passou pelo Correio da Manhã e pelas revistas Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ. Também teve uma longa trajetória no Jornal do Brasil, onde participou de projetos editoriais e se consolidou como uma das referências do jornalismo cultural.
Nos anos 1960, recebeu uma bolsa para estudar no Centro de Formação dos Jornalistas de Paris, experiência que ampliou sua formação profissional.
1968 virou sua obra mais conhecida
Uma das obras mais importantes da carreira de Zuenir nasceu da experiência de acompanhar um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil.
Em
1968 — O Ano que Não Terminou, lançado em 1988, o jornalista reconstruiu acontecimentos políticos e culturais daquele ano, marcado pela mobilização estudantil, pela Passeata dos Cem Mil e pelo endurecimento da ditadura militar com a edição do Ato Institucional nº 5.
O livro se tornou uma referência sobre o período e também serviu de inspiração para a minissérie
Anos Rebeldes.
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Reportagem sobre Chico Mendes rendeu prêmios
Outra passagem marcante de sua trajetória ocorreu após o assassinato do ambientalista e líder seringueiro Chico Mendes.
Em 1989, Zuenir publicou uma série de reportagens intitulada
O Acre de Chico Mendes. O trabalho lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog.
Anos depois, ele voltou ao tema no livro
Chico Mendes — Crime e Castigo, no qual revisitou o caso e seus desdobramentos.
Cidade Partida retratou a violência no Rio
Em 1994, Zuenir lançou outro de seus trabalhos mais conhecidos:
Cidade Partida.
O livro-reportagem mergulhou na realidade da violência urbana e das desigualdades sociais do Rio de Janeiro, abordando as diferentes realidades existentes dentro da mesma cidade.
A obra recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem e foi traduzida para outros idiomas, consolidando também a atuação de Zuenir como escritor.
Defesa dos direitos humanos marcou a carreira
A atenção aos direitos humanos atravessou boa parte da produção jornalística e literária de Zuenir.
Temas como desigualdade, violência, democracia, cultura e questões sociais apareceram repetidamente em suas reportagens, livros e crônicas.
Em 2008, ele recebeu uma homenagem especial das Nações Unidas por sua contribuição à defesa dos direitos humanos no Brasil.
Imortal da Academia Brasileira de Letras
Em 30 de outubro de 2014, Zuenir Ventura foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Ele se tornou o sétimo ocupante da cadeira 32, sucedendo o escritor Ariano Suassuna. A posse ocorreu em 6 de março de 2015, quando foi recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.
A chegada à ABL representou mais um reconhecimento de uma trajetória construída entre o jornalismo e a literatura.
Uma carreira de quase sete décadas
Zuenir permaneceu ligado ao jornalismo durante grande parte da vida. Além da reportagem e das funções de direção e edição, tornou-se conhecido também como cronista.
Foi professor universitário e publicou livros que transitaram entre reportagem, memória, crônica e ficção.
Entre suas obras estão ainda
Inveja — Mal Secreto,
Minhas Histórias dos Outros,
1968 — O Que Fizemos de Nós e
Sagrada Família.
Zuenir morreu aos 95 anos
Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em casa, no Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras.
O jornalista enfrentava uma pneumonia. O velório está previsto para esta quarta-feira (23), na sede da ABL, no Centro do Rio de Janeiro, seguido do sepultamento no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista.
Zuenir deixa a esposa, Mary Ventura, os filhos Mauro e Elisa e uma obra que acompanha diferentes momentos da história contemporânea brasileira.
Entenda o legado
A trajetória de Zuenir Ventura ficou marcada pela combinação entre reportagem, memória e interpretação dos acontecimentos que testemunhou.
Da ditadura militar às discussões sobre violência urbana, passando pela Amazônia, cultura e direitos humanos, o jornalista transformou parte da experiência como repórter em livros que continuaram circulando décadas depois dos acontecimentos retratados.
Ao chegar à Academia Brasileira de Letras depois de mais de meio século de atuação profissional, Zuenir consolidou uma carreira construída tanto nas redações quanto na literatura brasileira.
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