Donald Trump e Xi Jinping se encontram em Washington nesta semana em uma tentativa de preservar uma trégua comercial que continua sob pressão e ampliar o diálogo entre Estados Unidos e China sobre inteligência artificial, terras raras e cadeias estratégicas de suprimentos.
Xi chega à capital americana nesta quarta-feira (23), em sua primeira visita à Casa Branca em mais de uma década. Trump pretende recebê-lo pessoalmente na Base Conjunta Andrews antes da programação oficial de quinta-feira (24), que terá cerimônia de Estado, reunião bilateral e jantar na Casa Branca.
Por trás da recepção diplomática, porém, seguem abertas divergências profundas sobre comércio, tecnologia, Taiwan, Irã e a disputa pela liderança mundial em inteligência artificial.
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Trégua comercial expira em novembro
O ponto mais imediato da reunião será o futuro da trégua comercial entre as duas potências.
O entendimento atual foi acertado por Trump e Xi em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025 e ajudou a interromper uma escalada tarifária entre Washington e Pequim.
A trégua expira em 10 de novembro de 2026.
A China busca uma extensão mais longa do acordo, enquanto interlocutores americanos vêm discutindo uma renovação mais curta, mantendo espaço para novas negociações e cobranças sobre o cumprimento dos compromissos já assumidos.
Acordos assinados em maio ainda estão em implementação
Trump e Xi já haviam se reunido pessoalmente em maio, durante visita do presidente americano a Pequim.
Na ocasião, os dois governos anunciaram uma série de compromissos econômicos e criaram o Conselho de Comércio EUA-China e o Conselho de Investimento EUA-China.
O Conselho de Comércio foi criado para administrar o intercâmbio de produtos considerados não sensíveis e discutir reduções recíprocas de tarifas.
Negociadores dos dois países passaram a trabalhar em uma estrutura que pode reduzir tarifas sobre mercadorias de valor equivalente a pelo menos US$ 30 bilhões de cada lado.
China ainda não cumpriu integralmente promessas comerciais
Parte dos compromissos anunciados em maio ainda está em processo de implementação.
Pequim prometeu ampliar compras de produtos agrícolas americanos e aprovou inicialmente a aquisição de 200 aeronaves Boeing para companhias chinesas.
Levantamentos recentes indicam, porém, que as importações agrícolas chinesas devem ficar abaixo de algumas metas estabelecidas e que as compras das aeronaves avançam de forma mais lenta do que Washington esperava.
Esses pontos devem entrar na cobrança americana durante as reuniões desta semana.
Terras raras viram uma das principais armas de negociação
Os minerais críticos estão entre os temas mais sensíveis da relação bilateral.
A China domina etapas importantes da extração, processamento e refino de terras raras usadas em semicondutores, veículos elétricos, equipamentos militares e sistemas de energia.
Os Estados Unidos afirmam que os fluxos de determinados minerais e ímãs chineses continuam abaixo do nível esperado mesmo depois dos compromissos firmados anteriormente.
Washington também questiona restrições chinesas relacionadas a equipamentos e tecnologias utilizados na produção desses materiais.
Bessent diz que China tem dado “chutes por baixo d’água”
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, adotou uma metáfora esportiva para descrever a combinação de cooperação pública e disputa silenciosa entre os dois países.
“Às vezes descrevo isso como uma partida de polo aquático em que nossos líderes ficam passando a bola, mas, debaixo d’água, os chineses parecem ter dado muitos chutes ultimamente”, afirmou Scott Bessent.
O secretário acrescentou que os Estados Unidos podem reagir se considerarem que Pequim continua tomando medidas prejudiciais aos interesses americanos.
“Se for necessário, vamos revidar”, disse Bessent.
A metáfora foi criticada pela imprensa estatal chinesa, que inverteu a acusação e afirmou que Washington é quem vem ampliando restrições econômicas e tecnológicas.
Inteligência artificial sobe para o topo da agenda
A disputa por inteligência artificial passou a ocupar um espaço central nas relações entre Estados Unidos e China.
Washington acusa empresas chinesas de utilizar modelos americanos para acelerar o treinamento de seus próprios sistemas por meio de técnicas de destilação.
Pequim rejeita acusações de apropriação indevida e afirma que os Estados Unidos tentam manter uma vantagem tecnológica por meio de controles de exportação e restrições ao acesso a chips avançados.
A escalada fez os dois governos começarem a discutir não apenas competição, mas também segurança e gestão de incidentes envolvendo sistemas avançados de IA.
EUA propõem canal de emergência sobre IA
Durante as negociações preparatórias realizadas em Nova York no domingo (20), Bessent apresentou à delegação chinesa a proposta de criar um mecanismo de notificação para incidentes graves relacionados à inteligência artificial.
A ideia é estabelecer um canal permanente para que os dois governos possam comunicar eventos envolvendo riscos à segurança nacional ou sistemas avançados de IA.
A proposta vem sendo comparada a uma espécie de “telefone vermelho” tecnológico entre Washington e Pequim, embora o desenho final do mecanismo ainda esteja sendo negociado.
A China aceitou manter o diálogo sobre o tema, mas não divulgou todos os detalhes de sua posição.
Trump restringiu robôs e outras tecnologias chinesas
A aproximação diplomática ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos continuam ampliando restrições contra setores considerados estratégicos.
Em julho, a Comissão Federal de Comunicações americana anunciou medidas para impedir a entrada de novos robôs humanoides, robôs quadrúpedes e determinados inversores de energia produzidos por empresas chinesas.
O governo justificou a decisão com argumentos de segurança cibernética, proteção de dados e risco à infraestrutura tecnológica americana.
Pequim classificou medidas desse tipo como protecionistas e acusa Washington de ampliar excessivamente o conceito de segurança nacional para limitar concorrentes chineses.
Taiwan e Irã também entram na reunião
A cúpula não será exclusivamente econômica.
Taiwan continua sendo uma das questões mais delicadas da relação bilateral. Pequim considera a ilha parte de seu território e se opõe à venda de armas americanas ao governo taiwanês.
A relação da China com o Irã também deve aparecer nas conversas, especialmente em meio ao conflito no Oriente Médio e às tentativas americanas de aumentar a pressão econômica sobre Teerã.
Durante a reunião realizada em Pequim em maio, Trump e Xi haviam concordado publicamente que o Irã não deveria possuir uma arma nuclear e defenderam a reabertura do Estreito de Ormuz.
Xi terá recepção de Estado na Casa Branca
A programação oficial começa antes mesmo da reunião principal.
Trump receberá Xi pessoalmente na Base Conjunta Andrews nesta quarta-feira.
Na quinta-feira, o presidente chinês e a primeira-dama Peng Liyuan serão recebidos na Casa Branca por Trump e Melania Trump em uma cerimônia formal de Estado.
A programação inclui execução dos hinos nacionais, revista militar e um sobrevoo de aeronaves B-2 e F-22.
À noite, Trump e Melania oferecerão um jantar de Estado na Casa Branca.
CEOs americanos devem participar do jantar
Executivos de algumas das maiores empresas de tecnologia e indústria dos Estados Unidos foram convidados para eventos ligados à visita.
Empresas como Apple, Nvidia, Tesla e outras mantêm interesses comerciais relevantes na China e acompanham de perto qualquer mudança na relação entre Washington e Pequim.
Para essas companhias, o país asiático pode representar simultaneamente mercado consumidor, polo de produção, concorrente tecnológico e fonte de risco regulatório.
A presença empresarial reforça o peso econômico da visita, embora diplomatas e analistas não esperem uma solução completa para as principais divergências em apenas uma reunião.
Reunião preparatória ocorreu em Nova York
Antes da chegada de Xi, negociadores dos dois países passaram horas reunidos em Nova York no domingo.
Bessent, o representante comercial americano Jamieson Greer e o vice-premiê chinês He Lifeng discutiram comércio, IA e minerais estratégicos.
“Essas conversas ajudam a preparar o terreno para o presidente Trump avançar os interesses econômicos americanos e entregar resultados ao povo americano”, afirmou Bessent após o encontro.
As equipes técnicas continuaram trabalhando depois da reunião para preparar possíveis anúncios que possam ser apresentados pelos presidentes na quinta-feira.
Objetivo imediato é impedir nova escalada
A reunião ocorre em um momento em que nenhum dos dois governos abandonou seus instrumentos de pressão.
Os Estados Unidos continuam utilizando tarifas, controles de exportação e listas de restrição para limitar determinadas empresas e tecnologias chinesas.
A China mantém mecanismos de controle sobre minerais estratégicos, investimentos estrangeiros e exportações consideradas sensíveis.
Por isso, o objetivo mais concreto da cúpula tende a ser manter canais de comunicação e evitar que as disputas econômicas e tecnológicas voltem a se transformar em uma guerra comercial aberta.
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Entenda O Contexto
A relação entre Estados Unidos e China atravessa uma fase de competição administrada depois da forte escalada tarifária registrada em 2025.
Trump e Xi chegaram a uma trégua comercial em Busan, na Coreia do Sul, em outubro daquele ano. O acordo foi ampliado durante a visita do presidente americano a Pequim em maio de 2026.
Naquela reunião, foram criados os conselhos bilaterais de Comércio e Investimento, e a China assumiu compromissos relacionados a compras agrícolas, aeronaves Boeing e fluxo de terras raras.
Desde então, os dois lados continuaram impondo restrições em áreas consideradas estratégicas. Washington ampliou controles sobre tecnologias chinesas, enquanto Pequim manteve restrições sobre minerais e setores sensíveis.
Agora, Xi chega a Washington na quarta-feira (23). A reunião formal com Trump e o jantar de Estado estão marcados para quinta-feira (24). Comércio, inteligência artificial, minerais críticos, Taiwan e Irã estão entre os assuntos previstos.
A trégua atual expira em 10 de novembro. Até lá, os dois governos precisarão decidir se prorrogam o acordo e em quais condições.
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