A Justiça condenou o professor de Libras e ex-presidente da Associação de Surdos de Jaraguá do Sul, Paulo Sérgio Praxedes do Monte Araújo, e o marido dele, Carlos Francisco Priprá, por abusos sexuais contra crianças e adolescentes surdos em Santa Catarina. As penas aplicadas aos dois somam 54 anos e 6 meses de prisão.
A sentença foi divulgada nesta terça-feira (29). Um dos réus recebeu pena de 29 anos e 8 meses, enquanto o outro foi condenado a 24 anos e 10 meses. As informações disponíveis sobre a decisão não permitem confirmar com segurança qual das duas penas foi atribuída a cada condenado. Os dois permanecem presos em regime fechado e ainda podem recorrer.
A investigação identificou cinco vítimas, todas surdas. Quatro prestaram depoimento à Polícia Civil com auxílio de intérpretes de Libras. Segundo a apuração, os condenados ocupavam posições de confiança dentro da comunidade surda e teriam usado essa proximidade para abordar as vítimas.
LEIA TAMBÉM
Justiça de Santa Catarina condena mulher que se passou por menina de 12 anos
Investigação apontou abusos em diferentes ambientes
Paulo atuava como professor de Libras e presidia a Associação de Surdos de Jaraguá do Sul. Ele também tinha atuação na pastoral de surdos da Igreja Católica, participando de atividades que envolviam jovens e adolescentes.
Segundo a investigação, os episódios relatados teriam ocorrido em diferentes locais, incluindo escolas, retiros e eventos religiosos, no carro do casal e na residência dos investigados. A apuração aponta que a posição ocupada por eles facilitava o contato e a construção de uma relação de confiança com as vítimas e suas famílias.
Uma das vítimas relatou ter sofrido abuso quando tinha 12 anos, dentro de uma escola municipal onde Paulo trabalhava. Outra afirmou ter sido vítima aos 15 anos durante um retiro da pastoral de surdos.

Dinheiro, intimidação e chantagem emocional
A Polícia Civil apontou ainda que havia relatos de oferta de dinheiro às vítimas. Intimidação e chantagem emocional também teriam sido utilizadas para dificultar denúncias às autoridades
O delegado Augusto Brandão afirmou durante a investigação que o medo das vítimas dificultou o avanço inicial das apurações. Uma das cinco pessoas identificadas não chegou a comparecer à delegacia.
“Uma vítima não teve coragem de comparecer, uma vez que essas pessoas exerciam intimidação e faziam chantagem emocional contra as vítimas.”
Os investigadores também relataram que, depois do depoimento de uma das vítimas, um dos investigados fez uma ligação por vídeo, pediu desculpas e reconheceu que o que havia feito era errado. O episódio foi relatado pelo delegado responsável pelo caso.
Investigação começou após denúncia ao Ministério Público
A apuração foi conduzida pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso de Jaraguá do Sul e começou após uma requisição do Ministério Público de Santa Catarina.
As investigações apontaram relatos de episódios ocorridos ao longo de vários anos. Também havia registro anterior envolvendo os investigados, incluindo um boletim de ocorrência feito em Concórdia.
Paulo e Carlos foram presos preventivamente em abril deste ano. Na audiência de custódia realizada posteriormente, a Justiça decidiu manter as prisões. Eles permaneceram detidos durante o andamento do processo.
Associação repudiou os abusos
Após as prisões, a Associação da Comunidade Surda de Jaraguá do Sul e Região divulgou uma manifestação de repúdio. A entidade declarou apoio às vítimas e afirmou que os fatos investigados não representam a comunidade surda.
A associação também incentivou eventuais vítimas de abuso a procurarem as autoridades e declarou confiar no trabalho dos órgãos responsáveis pela investigação.
Próximos passos
Apesar das condenações, o processo ainda não está definitivamente encerrado. As defesas podem recorrer das sentenças às instâncias superiores.
Até que haja uma decisão definitiva, os dois permanecem presos em regime fechado. As penas divulgadas somam 54 anos e 6 meses de prisão. :