O avanço das dívidas no cartão de crédito colocou o rotativo novamente no centro das discussões sobre o endividamento das famílias brasileiras. O país tem 96 milhões de usuários de cartão e 52,8 milhões carregam saldos no rotativo ou no parcelamento com cobrança de juros. Em agosto, a taxa média do rotativo chegou a 449,4% ao ano, segundo dados do Banco Central.
Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, durante entrevista ao Flow Podcast nesta quinta-feira (1º), que o governo discute com o Banco Central uma medida para impedir que instituições financeiras ofereçam mais de um cartão de crédito por pessoa. Apesar da declaração, uma regra nesse sentido ainda não foi implementada.
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Lula quer limitar quantidade de cartões
Na entrevista, Lula relacionou a facilidade de acesso ao cartão de crédito ao crescimento do endividamento e afirmou que o assunto está sendo discutido com a autoridade monetária.
“O povo gasta com mais facilidade o cartão de crédito. E ele só vai ver o rombo no final. Nós estamos discutindo com o Banco Central, nós vamos proibir os bancos de darem mais que um cartão de crédito para as pessoas.”
O presidente também criticou instituições que, segundo ele, facilitam excessivamente a concessão desse tipo de crédito.
“Não é possível a gente permitir que a sociedade seja endividada da forma mais irresponsável possível. Nós vamos tentar cuidar disso com carinho.”
A declaração indica uma medida em avaliação pelo governo, mas ainda não representa uma nova regra para consumidores ou instituições financeiras.
Juros do rotativo chegam a 449,4% ao ano
O rotativo é acionado quando o consumidor não paga integralmente a fatura do cartão e financia o saldo restante. A modalidade está entre as mais caras disponíveis às pessoas físicas.
Dados do Banco Central referentes a agosto mostram que a taxa média anual do rotativo avançou de 436,2% para 449,4%.
O cartão parcelado também ficou mais caro. A taxa média passou de 189,3% para 192,1% ao ano. Considerando as diferentes modalidades do cartão, a taxa média total avançou de 93,1% em julho para 97,8% em agosto.
Mesmo com taxas anualizadas elevadas, desde 2024 existe um limite para o crescimento da dívida: juros e encargos financeiros do rotativo e do parcelamento da fatura não podem superar 100% do valor original não pago.
Mais da metade dos usuários têm saldo sujeito a juros
O tamanho da exposição ao crédito também preocupa as autoridades monetárias. Dos aproximadamente 96 milhões de brasileiros que utilizam cartão de crédito, 52,8 milhões mantêm saldos no rotativo ou em parcelamentos que cobram juros.
Dados apresentados pelo Banco Central também mostram que, entre 2020 e 2024, o número de usuários nessas modalidades passou de 34 milhões para 52,8 milhões.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já apontou o cartão de crédito e outras modalidades de empréstimos sem garantia como pontos de atenção para o endividamento das famílias.
Banco Central estuda medidas contra endividamento
A discussão levantada por Lula ocorre enquanto o Banco Central avalia medidas para conter o crescimento de modalidades de crédito consideradas mais arriscadas e caras.
Entre as possibilidades analisadas pela autoridade monetária estão mecanismos direcionados inicialmente às instituições financeiras, antes de uma eventual discussão sobre limites ao comprometimento da renda dos consumidores.
Não há, até o momento, uma norma do Banco Central estabelecendo que cada pessoa poderá ter apenas um cartão de crédito.
Desenrola também entra na estratégia do governo
Durante a entrevista, Lula voltou a tratar do Desenrola 3.0, programa anunciado pelo governo para renegociação de dívidas.
O presidente afirmou que pretende antecipar em alguns dias o leilão de carteiras previsto pelo programa e defendeu a participação dos bancos.
A nova etapa do Desenrola prevê a aquisição de carteiras de dívidas para facilitar acordos com consumidores, incluindo débitos relacionados ao cartão de crédito.
A evolução das discussões entre governo e Banco Central deverá mostrar se a ideia de limitar a quantidade de cartões será transformada em uma proposta formal e, em caso positivo, quais consumidores, cartões e instituições seriam alcançados pela medida.