Período eleitoral pode afetar a saúde mental e intensificar sintomas de ansiedade

Psicólogas alertam que polarização, medo de perder direitos e exposição excessiva a notícias podem provocar insegurança, alterações no sono e desgaste emocional.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O período eleitoral pode intensificar sintomas de ansiedade, medo e insegurança, especialmente entre pessoas que pertencem a grupos historicamente expostos à discriminação e à violência. Em meio ao segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro, discussões políticas, discursos polarizados e preocupações com possíveis mudanças em direitos e políticas públicas podem aumentar o desgaste emocional.

Entre os grupos que podem enfrentar maior vulnerabilidade estão pessoas LGBTQIA+, mulheres negras, indígenas, pessoas com deficiência, minorias religiosas e indivíduos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Segundo psicólogas, a preocupação tende a crescer quando o resultado eleitoral é percebido como algo que pode afetar diretamente a segurança, a identidade ou as condições de vida dessas pessoas.

LEIA TAMBÉM

Saúde mental: “As pessoas acabam perdendo a oportunidade de melhorar porque não procuram ajuda”, alerta psiquiatra

Por que as eleições podem aumentar a ansiedade?

O processo eleitoral envolve decisões que podem influenciar áreas como saúde, educação, segurança pública e proteção social. Para pessoas que já enfrentam situações de preconceito ou exclusão, debates sobre esses temas podem provocar uma sensação de ameaça que ultrapassa as divergências políticas.

A psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília, em Águas Claras, explica que a exposição constante a discussões envolvendo direitos e identidade pode colocar algumas pessoas em estado permanente de alerta.

“Quando direitos, identidade, segurança ou pertencimento aparecem repetidamente no centro de discussões públicas, algumas pessoas podem experimentar maior sensação de ameaça e entrar em um estado de hipervigilância”, explica a especialista.

A hipervigilância é caracterizada por um estado de atenção excessiva a possíveis ameaças. Quando prolongada, pode estar associada a irritabilidade, tensão, dificuldade para relaxar e problemas para dormir.

Isso não significa que todas as pessoas pertencentes a grupos minoritários desenvolverão ansiedade durante as eleições. O impacto depende de fatores individuais, experiências anteriores, condições de vida e redes de apoio.

Medo de perder direitos pode intensificar sofrimento emocional

A psicóloga Danielle Ferreira, do Instituto Caminhar, em Brasília, afirma que preocupações relacionadas a mudanças políticas também aparecem em atendimentos psicológicos.

“Temos observado esse tema aparecer, inclusive, em processos terapêuticos, principalmente entre pessoas que temem que determinadas mudanças políticas possam representar a perda ou a restrição de direitos básicos, de proteção social ou de segurança”, afirma.

Segundo a especialista, o sofrimento pode aumentar quando a pessoa interpreta os possíveis resultados da eleição como uma ameaça concreta ao próprio futuro.

Essa preocupação não deve ser confundida automaticamente com um transtorno mental. Sentir apreensão diante de acontecimentos importantes é uma reação humana esperada. O sinal de alerta aparece quando o medo se torna persistente e começa a comprometer atividades cotidianas.

Excesso de notícias e redes sociais pode agravar sintomas

Outro fator que contribui para o desgaste emocional é o consumo contínuo de informações políticas, especialmente nas redes sociais.

Durante as campanhas, pesquisas eleitorais, declarações de candidatos, vídeos de confrontos e publicações com opiniões divergentes circulam rapidamente. A exposição repetida a conteúdos que provocam medo ou indignação pode dificultar o descanso mental.

Danielle Ferreira explica que esse comportamento pode afetar diretamente o bem-estar.

“As redes sociais podem favorecer a exposição repetida a conteúdos emocionalmente intensos, principalmente medo, indignação e conflito. Quando isso acontece durante muitas horas, pode aumentar a irritabilidade, a ansiedade, a dificuldade de concentração, além de provocar alterações no sono”, explica.

O problema pode se intensificar quando o eleitor sente necessidade de acompanhar todas as atualizações, verificar pesquisas diversas vezes ao dia ou responder constantemente a discussões nas plataformas digitais.

Além do ambiente virtual, divergências políticas entre familiares, amigos e colegas de trabalho podem gerar conflitos e prejudicar relações pessoais.

Quais são os sinais de que a ansiedade precisa de atenção?

Especialistas recomendam observar mudanças persistentes no comportamento e na rotina. Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Dificuldade frequente para dormir ou alterações no padrão de sono;
  • Irritabilidade intensa e sensação constante de tensão;
  • Preocupação excessiva com notícias e resultados eleitorais;
  • Dificuldade de concentração no trabalho ou nos estudos;
  • Alterações persistentes no apetite;
  • Isolamento social e conflitos recorrentes;
  • Crises de ansiedade e dificuldade para controlar pensamentos relacionados à política.

A presença isolada de um desses sintomas não confirma um transtorno de ansiedade. A avaliação depende da intensidade, da duração e dos prejuízos provocados na vida da pessoa.

Flávia Marsola recomenda procurar atendimento especializado quando os sintomas começam a interferir nas atividades habituais.

“Se esses sintomas forem intensos, persistentes ou interferirem na rotina, nos relacionamentos ou na capacidade de cuidar de si, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde mental”, orienta.

Como proteger a saúde mental durante o período eleitoral?

Acompanhar as eleições e participar de discussões políticas não precisa significar exposição permanente a situações de conflito. Segundo as psicólogas, estabelecer limites é uma das principais medidas para preservar o equilíbrio emocional.

Entre as recomendações estão definir horários para consultar notícias, priorizar veículos confiáveis, reduzir o tempo nas redes sociais e evitar discussões que provoquem sofrimento sem acrescentar informações relevantes.

Também é importante preservar hábitos cotidianos, como alimentação adequada, sono regular, atividade física, momentos de lazer e convivência com pessoas de confiança.

Outra estratégia é reconhecer quando uma conversa deixou de ser produtiva. Encerrar uma discussão ou optar por não responder a uma provocação não significa abandonar a participação política.

“É possível continuar presente no debate sem permanecer emocionalmente disponível para ele 24 horas por dia”, destaca Flávia.

Onde buscar atendimento psicológico gratuito?

Pessoas que apresentam sofrimento emocional persistente podem procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Unidade Básica de Saúde (UBS) é uma das portas de entrada para avaliação e encaminhamento, conforme a necessidade.

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) também integram a rede pública de cuidados em saúde mental, oferecendo acompanhamento a pessoas com sofrimento psíquico intenso e outras necessidades específicas.

Em situações de crise grave ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência e emergência.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.

Entenda o contexto

O Brasil se prepara para o segundo turno das eleições de 2026, previsto para 25 de outubro. A proximidade da votação mantém o debate político em destaque nas redes sociais, nos veículos de comunicação e nas conversas cotidianas.

Embora a participação democrática seja importante, especialistas ressaltam que o envolvimento político não precisa ocorrer à custa da saúde mental.

Para pessoas que temem impactos de decisões políticas sobre seus direitos e condições de vida, contar com informações confiáveis, apoio social e acesso a cuidados psicológicos pode ajudar a enfrentar esse período com menos sofrimento.

O principal alerta é reconhecer quando a preocupação deixa de ser momentânea e passa a afetar o bem-estar, buscando ajuda profissional sempre que necessário.

Carregar Comentários