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Existem filmes de terror brasileiros? Cinco produções que provam que sim

De Zé do Caixão ao horror psicológico contemporâneo, o cinema nacional tem histórias perturbadoras, escolhas estéticas próprias e muito mais a oferecer do que costuma receber crédito.
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Confesso que existe uma certa injustiça na forma como o cinema brasileiro é lembrado quando o assunto é terror. Para muita gente, o gênero parece uma exclusividade de Hollywood, como se apenas os Estados Unidos tivessem dinheiro, criatividade e capacidade técnica para criar histórias capazes de incomodar o espectador. Enquanto isso, o Brasil segue produzindo filmes que exploram nossos medos, nossas contradições sociais e até aquilo que preferimos fingir que não existe.

É claro que o gênero nacional não é perfeito. Assim como acontece com o cinema internacional, há produções que tropeçam no roteiro, outras que dependem demais de suas ideias e algumas que não conseguem entregar o que prometem. Mas reduzir o terror brasileiro a uma caricatura é ignorar obras que merecem muito mais atenção.

E o melhor é que não existe uma fórmula única. Temos horror psicológico, monstros, violência humana, críticas sociais e até clássicos que ajudaram a construir a identidade do gênero no país. Separei cinco filmes brasileiros com avaliações acima de 6 no IMDb que mostram como o terror nacional pode ser interessante e que tipo de público pode encontrar algo especial em cada um deles.

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O terror brasileiro vai muito além do que você imagina

1. Propriedade (2023) — O medo também pode ser social

Sinopse: Dirigido por Daniel Bandeira, Propriedade acompanha Teresa (Malu Galli), uma mulher traumatizada por um episódio de violência que tenta se recuperar em uma propriedade rural da família. Quando os trabalhadores da fazenda se revoltam diante de uma situação que ameaça seus empregos, Teresa se refugia em seu carro blindado. Separados pelo vidro, os dois lados ficam presos em um conflito que rapidamente deixa de ser apenas uma disputa por propriedade.

Propriedade é um filme de terror e suspense brasileiro de 2023 dirigido e escrito por Daniel Bandeira. | Foto: Reprodução

O que me interessa em Propriedade é a forma como o filme transforma uma situação social em um pesadelo claustrofóbico. O carro blindado não é apenas um recurso para colocar a protagonista em perigo: ele também representa a distância entre mundos que convivem no mesmo espaço, mas não necessariamente se compreendem.

Daniel Bandeira trabalha com a tensão do confronto e com a sensação de que não existe saída simples para aquela situação. Talvez o filme não seja a melhor escolha para quem procura sustos constantes ou monstros aparecendo no escuro, mas funciona muito bem para quem gosta de suspense pesado, conflitos sociais e histórias em que o medo nasce das relações humanas.

É uma produção que entende que, às vezes, o horror não precisa de nada sobrenatural para ser perturbador.

Nota no IMDb: 7,0/10.

Onde assistir: Netflix. Também podem existir opções de aluguel e compra digital, conforme a disponibilidade.

2. As Boas Maneiras (2017) — Uma mistura improvável que funciona

Sinopse: Clara (Isabél Zuaa), uma enfermeira solitária que vive na periferia de São Paulo, é contratada por Ana (Marjorie Estiano), uma mulher rica e misteriosa, para cuidar de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez avança, Ana passa a apresentar comportamentos estranhos, especialmente durante a noite. O vínculo entre as duas mulheres se desenvolve em meio a segredos e acontecimentos que levam a história para um território cada vez mais sombrio.

Ana, uma mulher rica e misteriosa, contrata a enfermeira Clara para ser a babá de seu filho que ainda não nasceu. | Foto: Reprodução

As Boas Maneiras, dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, é um daqueles filmes que podem afastar quem espera encontrar um terror convencional, mas recompensam quem aceita acompanhar uma proposta diferente.

A obra combina drama, fantasia sombria e horror, sem ter pressa para revelar todas as suas cartas. O relacionamento entre Clara e Ana é tão importante quanto os elementos fantásticos, e essa escolha dá ao filme uma identidade própria.

O longa usa o fantástico para discutir diferenças sociais, afeto e pertencimento, em vez de depender exclusivamente da criatura que está no centro do mistério. A duração pode exigir um pouco de paciência, mas há personalidade suficiente para justificar a jornada.

É uma ótima recomendação para quem gosta de terror autoral, histórias de monstros com dimensão emocional e filmes que não têm medo de misturar gêneros.

Nota no IMDb: 6,7/10.

Onde assistir: Reserva Imovision+, por meio de canal de assinatura. Consulte também as opções digitais disponíveis na sua região.

3. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) — Um clássico que continua provocando

Sinopse: Na sequência de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Zé do Caixão continua obcecado pela ideia de encontrar a mulher ideal para gerar o herdeiro que considera digno de sua linhagem. Para alcançar esse objetivo, o personagem submete mulheres a testes cruéis, enquanto sua visão de mundo entra em conflito com a moral, a religião e os limites da própria existência.

O sádico e cruel coveiro Zé do Caixão continua sua busca obsessiva pela mulher ideal, capaz de gerar o filho perfeito. | Foto: Reprodução

Falar de terror brasileiro e ignorar José Mojica Marins seria como discutir a história do gênero sem reconhecer uma de suas figuras mais importantes.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver tem as limitações técnicas de uma produção de sua época, mas também carrega uma identidade visual e uma disposição para o absurdo que muitos filmes atuais parecem ter perdido.

Zé do Caixão não é um vilão feito para ser agradável, muito menos alguém cuja visão de mundo deva ser aceita pelo espectador. Ele é uma figura grotesca, provocadora e cruel, construída para desafiar convenções. As sequências de pesadelo mostram uma liberdade estética que ajuda a obra a sobreviver ao tempo.

Para quem está acostumado apenas com o terror moderno, o ritmo e a atuação podem parecer datados. Ainda assim, quem gosta de cinema de exploração, horror clássico e personagens que parecem saídos de um pesadelo vai encontrar aqui uma experiência importante para entender a história do gênero no Brasil.

Nota no IMDb: 6,9/10.

Onde assistir: A disponibilidade pode variar entre serviços. O Itaú Cultural Play disponibilizou o filme gratuitamente em 2025; consulte o catálogo atual antes de assistir.

4. O Animal Cordial (2017) — Quando as pessoas são os verdadeiros monstros

Sinopse: Em um restaurante de São Paulo, o rígido proprietário Inácio (Murilo Benício) entra em conflito com os funcionários, especialmente o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). A tensão aumenta quando o estabelecimento é invadido por assaltantes e clientes e trabalhadores ficam presos em uma situação de risco. O que começa como um crime rapidamente se transforma em um confronto marcado por violência, medo e disputas de poder.

O Animal Cordial é um filme de terror slasher e suspense brasileiro de 2018 dirigido por Gabriela Amaral Almeida. | Foto: Reprodução

Existe algo particularmente desconfortável em O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida: a sensação de que a violência não chega de fora para destruir um ambiente pacífico, mas apenas encontra uma oportunidade para revelar o que já estava ali.

O restaurante funciona como uma espécie de laboratório de comportamento, onde hierarquia, ressentimento e autoritarismo se misturam até que a situação se torne insustentável.

Murilo Benício constrói um protagonista que prende a atenção justamente por não ser fácil de suportar, enquanto o espaço fechado aumenta a sensação de sufocamento. O filme é violento, tenso e deliberadamente desagradável em alguns momentos — e isso faz parte de sua proposta.

Não é uma obra para quem quer apenas levar sustos e esquecer tudo depois dos créditos. É para quem gosta de terror adulto e violência gráfica. O tipo de história que usa o gênero para explorar o lado mais sombrio das relações humanas.

Nota no IMDb: 6,3/10.

Onde assistir: Globoplay e canal Telecine no Amazon Prime Video, conforme a disponibilidade dos catálogos.

5. O Lobo Atrás da Porta (2013) — O horror que não precisa do sobrenatural

Sinopse: O desaparecimento de uma criança leva seus pais, Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabiula Nascimento), à delegacia. Durante a investigação, o delegado (Juliano Cazarré) começa a interrogar os envolvidos separadamente e descobre que Bernardo mantinha um relacionamento extraconjugal com Rosa (Leandra Leal). A partir dos depoimentos, uma trama de mentiras, ciúmes, manipulação e vingança começa a se revelar.

O Lobo Atrás da Porta é um filme de suspense e drama brasileiro de 2014, escrito e dirigido por Fernando Coimbra. | Foto: Reprodução

Vale uma observação: O Lobo Atrás da Porta, dirigido por Fernando Coimbra, é principalmente um suspense criminal, não um filme de terror tradicional.

O filme não precisa de aparições, criaturas ou efeitos especiais para construir uma atmosfera perturbadora. Seu maior trunfo está nos personagens e na maneira como as informações são reveladas, fazendo o espectador rever constantemente o que pensa saber sobre aquela história.

Leandra Leal, Milhem Cortaz e Fabiula Nascimento sustentam um conflito que se torna cada vez mais incômodo justamente porque parece próximo demais da realidade. É uma recomendação para quem gosta de suspense psicológico, investigações criminais e narrativas em que o perigo está nas decisões e nos desejos das pessoas.

Talvez não agrade a quem procura horror sobrenatural, mas demonstra como o cinema nacional consegue transformar relações humanas em algo assustador.

Nota no IMDb: 7,4/10.

Onde assistir: Globoplay e Pluto TV, com anúncios, conforme a disponibilidade. Também podem existir opções de aluguel e compra digital.

O que fica depois dos sustos?

O terror brasileiro existe, sim — e o problema talvez esteja menos na falta de filmes e mais na pouca disposição que temos para procurá-los. Quando se fala em horror, é comum que as primeiras referências sejam produções norte-americanas, grandes franquias e monstros que já fazem parte do imaginário popular. Não há nada de errado nisso, mas limitar o gênero a esse repertório significa deixar muita coisa de fora.

Esses cinco filmes mostram caminhos bastante diferentes. Propriedade transforma um conflito social em tensão; As Boas Maneiras mistura o fantástico com o drama; Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver preserva a ousadia de um clássico; O Animal Cordial encontra violência nas relações de poder; e O Lobo Atrás da Porta prova que o suspense humano pode ser tão perturbador quanto qualquer criatura sobrenatural.

Nenhum deles precisa ser tratado como uma obra-prima incontestável para merecer atenção. O cinema nacional também tem seus tropeços, e reconhecer isso faz parte de levar suas produções a sério. Mas existe uma diferença enorme entre admitir que um filme tem problemas e presumir que ele não vale a pena por ter sido feito no Brasil.

No fim das contas, o terror não depende de um passaporte. Depende de uma história capaz de mexer com o espectador, de escolhas estéticas que façam sentido e de uma visão de mundo que dê identidade à obra. E, quando olhamos para essas produções, fica difícil sustentar que o Brasil não tem nada a oferecer ao gênero.

Talvez a pergunta mais interessante não seja se existem filmes de terror brasileiros. Talvez seja por que tanta gente ainda precisa ser convencida a dar uma chance a eles.

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