A companhia aérea alemã Lufthansa foi escolhida pelo governo de Portugal para comprar até 49,9% da TAP Air Portugal, empresa que lidera o transporte internacional no Brasil entre as companhias estrangeiras dedicadas exclusivamente a voos para outros países. A negociação, anunciada em 14 de outubro, envolve 1,201 bilhão de euros, aproximadamente R$ 7,32 bilhões. A operação ainda precisa cumprir etapas contratuais e regulatórias antes de ser concluída.
A mudança pode ter reflexos importantes para os brasileiros que viajam à Europa, já que a TAP mantém ligações entre diversas cidades do país e Lisboa, um dos principais pontos de conexão para destinos europeus. A integração com a Lufthansa pode ampliar as possibilidades de viagem, mas ainda não há garantia de novas rotas, aumento na frequência dos voos ou redução no preço das passagens.
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O que muda para quem viaja do Brasil à Europa?
A principal possibilidade é uma integração maior entre as redes de destinos oferecidos pela TAP e pela Lufthansa.
Atualmente, a companhia portuguesa transporta passageiros de diferentes regiões brasileiras até Lisboa, de onde oferece conexões para outros países da Europa.
A Lufthansa, por sua vez, opera uma ampla rede internacional, com centros de conexão importantes na Alemanha e participação em outras empresas aéreas europeias.
Com a integração, passageiros que embarcam no Brasil poderão ter acesso a novas combinações de itinerários e horários, dependendo dos acordos comerciais e das decisões operacionais adotadas após a conclusão da compra.
Em reportagem publicada pelo UOL nesta segunda-feira (2), Roberto Kanter, professor de Gestão Comercial da Fundação Getulio Vargas (FGV), avaliou que a associação poderá fortalecer a experiência oferecida pela TAP, especialmente se houver melhorias nas conexões, nos serviços e nos programas de fidelidade.
Entretanto, nenhuma mudança imediata foi anunciada para os bilhetes já vendidos, as operações atuais ou os procedimentos de embarque.
Passagens aéreas podem ficar mais baratas?
A compra de parte da TAP pela Lufthansa não significa que as passagens entre Brasil e Europa ficarão automaticamente mais baratas.
Uma eventual integração pode permitir melhor aproveitamento das aeronaves, reorganização de horários e redução de determinados custos operacionais.
No entanto, o preço final pago pelos passageiros depende de outros fatores, como concorrência, demanda, combustível, impostos e disponibilidade de assentos.
O professor Roberto Kanter também alerta que a formação de um grupo maior pode aumentar a concentração do mercado, o que exige cautela ao projetar benefícios nas tarifas.
Bruno Boris, especialista em Direito do Consumidor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, considera possível que uma reorganização logística traga ganhos para os clientes.
Ainda assim, qualquer redução de preços dependerá da decisão das companhias de repassar eventuais economias aos consumidores.
Portanto, não existe previsão confirmada de queda nas tarifas em decorrência da negociação.
TAP transportou quase 1,7 milhão de passageiros no Brasil em 2026
A importância da companhia portuguesa para o mercado brasileiro aparece nos números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Entre janeiro e setembro de 2026, a TAP transportou 1.679.725 passageiros e realizou 7.754 decolagens em operações no Brasil.
O resultado coloca a empresa na liderança entre as companhias estrangeiras que atuam exclusivamente no transporte internacional de passageiros no país.
A classificação não inclui a Latam, que possui sede no Chile, mas também opera voos domésticos brasileiros e ocupa a liderança geral no transporte internacional.
Em 2025, a TAP transportou aproximadamente 2,2 milhões de passageiros no mercado brasileiro, segundo dados da consultoria Euromonitor divulgados pelo UOL.
No mesmo período, a Lufthansa transportou cerca de 383 mil pessoas.
Essa diferença ajuda a explicar o interesse do grupo alemão na companhia portuguesa.
A TAP possui uma rede consolidada de ligações com o Brasil, inclusive em cidades que não contam com tantas opções de voos internacionais diretos.
Para a Lufthansa, a aquisição representa uma oportunidade de ampliar sua presença no mercado brasileiro aproveitando uma estrutura já existente.
Portugal continuará controlando a companhia?
Na primeira etapa da negociação, o governo português continuará sendo o acionista controlador da TAP.
O acordo prevê a venda inicial de 44,9% do capital da companhia para a Lufthansa.
Outros 5% ficarão reservados aos trabalhadores da empresa. Caso essa participação não seja adquirida pelos funcionários, a Lufthansa poderá comprá-la e alcançar 49,9%.
O Estado português manterá 50,1% do capital, preservando o controle acionário nesta fase.
O governo também apresentou a possibilidade de uma segunda etapa de privatização, que permitiria ao grupo alemão adquirir uma participação majoritária.
Essa fase envolveria novos procedimentos e dependeria de decisões posteriores, não estando automaticamente incluída na primeira aquisição.
A proposta prevê ainda a manutenção da marca TAP, da sede em Portugal e de Lisboa como principal centro de conexões internacionais da companhia.
Lufthansa venceu disputa com Air France-KLM
A escolha da Lufthansa ocorreu após um processo competitivo que também contou com a participação do grupo Air France-KLM.
Segundo o governo português, a proposta alemã apresentou condições financeiras mais favoráveis e menor grau de incerteza.
O valor oferecido foi até 16% superior ao da concorrente, de acordo com a avaliação divulgada pelo Executivo português.
Além do pagamento pela participação acionária, o plano apresentado prevê o fortalecimento da presença da TAP na América Latina e no aeroporto do Porto.
A proposta também contempla a possibilidade de ampliar a frota para até 130 aeronaves.
Esses objetivos fazem parte do planejamento apresentado para a companhia e ainda não representam investimentos integralmente realizados.
O processo de privatização também precisará passar pelas análises regulatórias e concorrenciais aplicáveis à operação.
A compra poderá aumentar os voos entre Brasil e Portugal?
Especialistas consideram que o mercado brasileiro continuará sendo estratégico para a TAP.
A companhia possui uma posição consolidada nas ligações com Portugal e atende passageiros que utilizam Lisboa como conexão para outros destinos internacionais.
O professor Roberto Kanter avalia que a rede brasileira representa um dos principais atrativos da aquisição para a Lufthansa.
A integração pode favorecer a criação de novas oportunidades comerciais, principalmente em aeroportos fora do eixo Rio-São Paulo.
Entretanto, o crescimento das operações dependerá de fatores como demanda, disponibilidade de aeronaves, autorizações aeroportuárias e capacidade da infraestrutura.
O aeroporto de Lisboa, por exemplo, enfrenta limitações de capacidade que podem dificultar a ampliação de frequências e conexões.
Por isso, não há confirmação de quais cidades brasileiras poderão receber novos voos ou mudanças na programação atual.
Entenda o histórico da privatização da TAP
Criada em 1945, a TAP passou ao controle estatal em 1975, depois da Revolução dos Cravos, que encerrou o regime ditatorial português.
Décadas depois, a companhia passou por diferentes tentativas de privatização.
Em 2015, um consórcio liderado pelo empresário David Neeleman, fundador da Azul, e pelo português Humberto Pedrosa adquiriu 61% da empresa.
O governo português renegociou o acordo no ano seguinte e recuperou o controle acionário.
Durante a pandemia de covid-19, em 2020, o Estado ampliou novamente sua participação para enfrentar a crise financeira da companhia aérea.
O processo de reprivatização foi retomado em 2025, com a busca por um investidor estratégico que pudesse fortalecer a operação e ampliar a capacidade de crescimento da TAP.
Em outubro de 2026, a Lufthansa foi selecionada como vencedora da disputa pela participação minoritária.
Próximos passos
O governo português deverá avançar com a assinatura do contrato e os procedimentos necessários para a conclusão da venda.
O ministro das Infraestruturas de Portugal, Miguel Pinto Luz, afirmou nesta segunda-feira (2) que o acordo será assinado em breve e que a operação será encaminhada às autoridades europeias responsáveis pela análise concorrencial.
Também estão previstas discussões sobre uma eventual segunda etapa da privatização, que poderia ampliar a participação da Lufthansa no capital da TAP.
Para os passageiros brasileiros, não há mudanças imediatas confirmadas. Voos, passagens e reservas continuam sujeitos às condições atualmente estabelecidas pelas companhias.
Novas informações sobre rotas, frequências, programas de fidelidade e possíveis mudanças nas tarifas dependerão da conclusão da negociação e do planejamento operacional das empresas.