O racha público e barulhento entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é muito mais do que um drama familiar. É, na verdade, um abalo sísmico na principal estratégia da direita para as eleições de 2026: a conquista de um Senado capaz de encurralar o Supremo Tribunal Federal (STF).
Para entender o tamanho do estrago, é preciso olhar para a estratégia da direita para fazer frente à crise junto ao STF. O Brasil renovará dois terços do Senado e para o bolsonarismo, Isso porque, apenas os senadores têm a prerrogativa constitucional de pautar e julgar o impeachment de ministros do STF.
Hoje, dezenas de pedidos contra magistrados, com o ministro Alexandre de Moraes no topo da lista de prioridades, acumulam poeira nas gavetas de Davi Alcolumbre (União-AP). Para o núcleo duro da direita, voltar à Presidência da República de pouco servirá se não houver uma tropa de choque legislativa para frear os chamados “ditadores de toga”, termo frequentemente usado por Eduardo Bolsonaro. E é exatamente nessa matemática que o imenso capital político de Michelle faria a diferença.
A faísca no Ceará e o incêndio nacional
A ex-primeira-dama era considerada uma peça fundamental e favoritíssima para faturar com folga uma das cadeiras pelo Distrito Federal. Sua popularidade entre o eleitorado conservador e evangélico a tornava um trunfo eleitoral incontestável. Porém, o pragmatismo tradicional operado por Flávio e pela cúpula do Partido Liberal (PL) colidiu de frente com a lealdade da ex-primeira-dama.
O estopim ocorreu no Ceará. Michelle fincou pé na defesa da candidatura de sua aliada, a vereadora Priscila Costa, ao Senado. Do outro lado, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, e Flávio costuravam uma aliança com Ciro Gomes (PSDB), rifando o nome de Priscila da chapa. A reação foi dura e sem filtros: Michelle reclamou publicamente de maus-tratos do enteado, largou a presidência do PL Mulher na mesa e avisou à direção partidária que pode simplesmente desistir de disputar as eleições pelo DF.
O verdadeiro presente para o Supremo
Se essa desistência se confirmar, o prejuízo para a oposição será imenso. Primeiro, o partido perde de imediato uma vaga que era tida como garantida, dificultando a complexa articulação para se chegar aos 54 votos (dois terços da Casa) necessários para cassar um ministro da Corte. Mais do que isso, a crise revela uma fratura exposta no espólio político de Jair Bolsonaro. Sem o ex-presidente nas urnas, seus herdeiros demonstram que o ego comanda ao perder tempo medindo forças internas em vez de combater seus adversários em comum.
O discurso de Valdemar de que “a vida segue” soa como um otimismo quase irreal. Sem Michelle na linha de frente, a direita perde sua principal liderança feminina e uma importante capacidade de mobilização de massas, talvez a considerada mais “limpa”, diante dos episódios de truculência envolvendo os homens do clã . Enquanto a família lava a roupa suja na praça pública, os ministros do STF certamente respiram muito mais aliviados em Brasília.