O Brasil entra na reta final antes das eleições gerais deste ano com 158.745.463 eleitores aptos a votar, segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número, atualizado às vésperas do início oficial das convenções partidárias, representa crescimento de 2.291.452 pessoas, ou 1,46% em relação ao último pleito nacional.
O reforço no contingente de votantes muda o peso de regiões, faixas etárias e recortes raciais na disputa de outubro. Partidos e campanhas começam a redesenhar mapas e discursos diante de um eleitorado mais velho, mais feminino e com maior diversidade racial declarada.
Nordeste ganha peso, Sudeste perde terreno
O novo retrato eleitoral evidencia um deslocamento gradual do centro de gravidade da política brasileira. O Nordeste lidera o crescimento absoluto e proporcional entre as grandes regiões, enquanto o Sudeste registra a única queda.
O TSE resume o cenário em números diretos: “O Nordeste registrou crescimento de 1,1 milhão no eleitorado, sendo 2,69% maior que nas eleições de 2022”. A região passa a concentrar 27,42% de todos os eleitores do país, com 43,5 milhões de pessoas aptas a votar.
Esse avanço consolida a Bahia como quarto maior colégio eleitoral do Brasil. O estado reúne 11,3 milhões de eleitores, ou 7,13% do total, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A tendência reforça o potencial de o Nordeste definir resultados em disputas presidenciais apertadas e influenciar a composição do Congresso.
O Sudeste se move na direção oposta. A região perde 378.090 eleitores, uma redução de 0,56%. Sua participação no total de votantes recua de 42,64% para 41,78%, ainda assim mantendo larga liderança numérica. O encolhimento, porém, altera o peso relativo de estados decisivos como São Paulo, Minas e Rio.
São Paulo segue isolado na frente, com 34,1 milhões de eleitores, o equivalente a 21,48% do eleitorado nacional. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 16,3 milhões (10,32%), Rio de Janeiro, com 12,8 milhões (8,10%), Bahia, com 11,3 milhões (7,13%), e Paraná, com 8,6 milhões (5,42%). Juntos, esses cinco estados somam 83,2 milhões de eleitores, 52,45% do total do país.
Norte cresce mais rápido; voto no exterior dispara
O movimento regional não se resume ao eixo Nordeste–Sudeste. Em termos proporcionais, é o Norte que mais cresce. A região salta de 12,5 milhões para 13,1 milhões de eleitores, um acréscimo de 548.944 pessoas, ou 4,37%. O bloco passa a responder por 8,26% do eleitorado brasileiro, após anos de expansão populacional e migração interna.
O Centro-Oeste também avança acima da média nacional. O eleitorado local cresce 3,97%, com 457.678 novos eleitores, e chega a 11,9 milhões de votantes, o equivalente a 7,56% do total. A região, marcada por forte dinamismo no agronegócio e urbanização acelerada, torna-se campo cada vez mais disputado por partidos de perfis distintos.
No Sul, o aumento é mais moderado, de 1,34%. São 302.253 eleitores a mais, elevando o total regional para 22,8 milhões, ou 14,40% do eleitorado. A estabilidade relativa reforça padrões já consolidados de disputa, mas dentro de um país que se reorganiza em volta.
Fora das fronteiras nacionais, o voto brasileiro ganha musculatura inédita. “158.745.463 de eleitores estão aptos a exercer o direito da democracia por meio das urnas eletrônicas”, afirma o TSE, incluindo aí 918.876 brasileiros que votam no exterior. Esse contingente cresce 31,82% em quatro anos, com 221.798 novos eleitores cadastrados em embaixadas e consulados.
O salto no exterior tende a pesar sobretudo em eleições presidenciais, em que cada voto tem mesmo valor, independentemente do local. Campanhas com redes organizadas em países de forte presença brasileira, como Estados Unidos, Portugal e Reino Unido, passam a ter vantagem potencial na mobilização dessa diáspora.
Eleitorado mais velho redefine prioridades
A fotografia por faixa etária revela talvez a mudança mais profunda. O eleitor brasileiro está envelhecido em relação à última eleição nacional, com queda na participação dos mais jovens e avanço expressivo dos mais velhos.
O grupo de 40 a 44 anos torna-se a maior faixa isolada do cadastro, com 15,9 milhões de eleitores, 10,08% do total. Logo atrás vêm as faixas de 45 a 49 anos e de 35 a 39 anos, compondo um bloco robusto de eleitores de meia-idade.
O TSE sintetiza a virada nos extremos: “O grupo com 60 anos ou mais cresceu 4,5 milhões desde 2022, saltando de 21% para 23,6% do eleitorado”. Em números absolutos, são quase um em cada quatro eleitores. Esse contingente tende a pressionar por temas como saúde pública, filas do SUS, acesso a medicamentos, previdência e segurança social.
Na outra ponta, a faixa entre 21 e 34 anos encolhe quase 2,8 milhões de pessoas, caindo de 28% para 25,8% do eleitorado. A redução relativa da juventude votante pode atenuar a força de pautas associadas a inovação, clima e direitos digitais, a depender da capacidade de mobilização dos próprios jovens.
Entre os menores de idade que já podem votar, o Nordeste lidera também. A região tem 1.315.104 eleitores de até 18 anos, o que representa 3,02% do eleitorado local, seguida por Sudeste (1.074.280), Norte (478.070), Sul (410.993) e Centro-Oeste (283.436).
Cadastro mais diverso pressiona por inclusão
O novo cadastro também é o mais diverso já registrado pelo TSE em termos de raça e cor. Mais pessoas passaram a declarar sua identidade racial, o que reduz uma zona de sombra estatística e permite enxergar com mais precisão quem vota no país.
O número de eleitores sem informação de raça ou cor cai de 140 milhões (89,82%) para 126 milhões (79,38%), uma queda de 14 milhões de registros. Com o preenchimento mais completo, todas as categorias de autodeclaração crescem.
O eleitorado pardo quase dobra, de 8,5 milhões para 16,9 milhões. O de pessoas pretas também praticamente dobra, de 1,8 milhão para 3,5 milhões. Entre pessoas amarelas, o total sobe de 114 mil para 229 mil; o eleitorado indígena avança de 155 mil para 287 mil, um crescimento de 84,5%. Até o contingente de brancos cadastrados aumenta, de 5,2 milhões para 11,6 milhões, puxado pela redução do campo “sem informação”.
Os dados consolidam um quadro em que a maioria dos eleitores é formada por mulheres. São 83,8 milhões de eleitoras, o equivalente a 52,84% do total, contra 74,8 milhões de homens, ou 47,16%. Em disputas apertadas, a forma como candidaturas tratam temas como trabalho, cuidado, violência de gênero e políticas de apoio à maternidade pode decidir margens decisivas.
Campanhas em adaptação e próximo passo do calendário
O novo mapa do eleitorado chega às campanhas justamente quando partidos abrem, hoje, o período oficial de convenções. De 20 de julho a 5 de agosto, legendas escolhem candidatos a presidente, governador, dois senadores por estado, além de deputados federais e estaduais. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Estratégias tradicionais centradas no Sudeste tendem a ceder espaço a uma abordagem mais distribuída, com maior presença no Nordeste em cidades médias e interiores, e em capitais do Norte e Centro-Oeste em forte expansão econômica. Ao mesmo tempo, cresce a importância de estruturas de campanha no exterior.
O TSE indica que continuará monitorando o cadastro e reforçando a logística para dar conta da expansão geográfica do voto. O desafio, daqui até outubro, será saber se partidos e candidatos vão conseguir traduzir o novo desenho demográfico em propostas concretas para um eleitorado mais velho, mais feminino, mais diverso e menos concentrado no eixo tradicional.